Cobertura onde Castro mora passou dois anos em obra antes de mudança do ex-governador; veja antes e depois

 

Fonte: Bandeira



A cobertura onde o ex-governador do Rio Cláudio Castro (PL) foi alvo de operação da Polícia Federal nesta semana passou cerca de dois anos em obras, entre 2023 e 2025, antes de recebê-lo. A reforma começou pouco após o imóvel ser adquirido por R$ 3,5 milhões, em junho de 2023, pela empresa de um ex-secretário de Castro no governo estadual, e só terminou às vésperas de o ex-governador passar a utilizá-lo. Castro, que antes vivia em outro apartamento no mesmo prédio, alega ter alugado a cobertura por R$ 10 mil mensais.

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O GLOBO teve acesso a fotos e vídeos que mostram o antes e depois da obra, cujos valores não foram divulgados. Pessoas familiarizadas com o apartamento afirmaram que os cômodos internos e a área de piscina foram "totalmente modificados" (veja no vídeo abaixo). Procurado, o advogado Carlo Luchione, responsável pela defesa de Castro, negou que o ex-governador tenha tido qualquer envolvimento na reforma, atribuída à empresa do ex-secretário Mauro Farias, de Transformação Digital.

— Com certeza não (se envolveu). É natural reforma em imóvel recém-adquirido. Cláudio nunca comentou sobre nada relativo, sequer mudança — afirmou Luchione.

Veja o antes e depois da obra em cobertura de Cláudio Castro, ex-governador do Rio

Como revelou O GLOBO na quarta-feira, a cobertura em que Castro mora está em nome da J3 Real Estate, empresa que tem como sócio o advogado Mauro Farias. O irmão de Mauro, Rafael Thompson de Farias, também foi secretário de Castro, na pasta de Governo.

A cobertura fica no 15º andar do mesmo edifício no qual Castro, até sair do governo, morava em um apartamento no 12º pavimento. Os primeiros registros de intervenções na área externa da cobertura, que conta com piscina, churrasqueira e espaço gourmet, foram feitos pela arquiteta Bruna Viana em janeiro de 2024 — meses antes, ela havia apresentado o projeto da reforma na área.

Bruna entregou o serviço finalizado em setembro de 2025. Ela relata ter entrado na obra por intermédio do engenheiro Marcelo Vinicius Gomes:

— Não tive contato com mais ninguém referente ao apartamento. Fiquei responsável pela área gourmet, onde fica a piscina. A parte de dentro não fui eu que projetei — afirma.

Área gourmet de cobertura usada por Cláudio Castro

Acervo pessoal/Agência O Globo

Marcelo, por sua vez, diz que chegou ao trabalho por intermédio de outro fornecedor, Mauricio Cacchione, que trabalha com marcenaria. O engenheiro afirma que o contrato e os pagamentos foram feitos em nome da J3 Real Estate e que só soube que a cobertura era usada por Castro após ver as imagens do imóvel depois da operação da PF. Segundo Marcelo, sua participação na obra durou "de 10 a 11 meses".

— Me passaram o projeto e fiz a obra. Sempre foi a empresa que estava fazendo os pagamentos, e o contrato também foi em nome dessa empresa.

Início das obras na cobertura onde mora o ex-governador Cláudio Castro, em janeiro de 2024

Acervo pessoal/Agência O Globo

Cacchione, também procurado pelo GLOBO, confirmou ter indicado o engenheiro e disse que ele próprio foi contratado "pela empresa dona da cobertura". Questionado sobre o custo da reforma e se Castro fez algum pedido em relação à obra, Cacchione pediu à reportagem para enviar as perguntas por escrito. Ao receber as perguntas, ele respondeu que "não comenta assuntos relacionados a prestação de serviços de seus clientes por questões de ética profissional".

"Por fim, esclareço que todos os meus serviços prestados possuem contrato e emissão de nota fiscal, em conformidade com a lei", concluiu.

Área externa da cobertura de Castro após passar por obras, nas duas primeiras imagens, e durante reforma (à direita)

Acervo pessoal/Agência O Globo

Ex-secretário de Transformação Digital no governo Castro, o advogado Mauro Farias abriu o CNPJ da J3 Real Estate, empresa dona da cobertura, em abril de 2023. Menos de dois meses depois, comprou por R$ 3,5 milhões o imóvel no condomínio Península, de acordo com documentos levantados em cartório pelo GLOBO.

A reportagem também apurou que o pagamento foi feito à vista no ato da compra. Procurado por meio de seu escritório de advocacia, Mauro Farias não retornou os contatos.

Castro também teve como secretário um irmão de Mauro, Rafael Thompson de Farias, que comandou a Secretaria de Governo. Juntos, eles foram sócios da P5 Soluções, empresa apontada pelo Ministério Público Eleitoral como destinatária ilícita de recursos da campanha de Castro em 2022.

Ao pedir a reprovação das contas de Castro na última eleição, o MP Eleitoral apontou que uma das fornecedoras da campanha destinou R$ 2,6 milhões para a P5 Soluções, o que os investigadores caracterizaram como "malversação nos gastos públicos vinculados à campanha eleitoral (...) que, no entanto, foram utilizados para outras finalidades espúrias e não comprovada".

Castro foi alvo de busca e apreensão da PF na última segunda-feira, dentro da cobertura, devido a uma investigação sobre aportes de R$ 3,7 bilhões do governo do Rio em papéis e fundos ligados ao Banco Master. As aplicações ocorreram através do Rioprevidência, instituto responsável por pagamentos de aposentadorias e pensões a servidores do estado.