COB planeja implementar protocolos para atletas olímpicas mães; Tati Weston-Webb tem sido acompanhada pela entidade
Durante décadas, a maternidade no esporte de alto rendimento foi tratada quase como uma aposentadoria informal. Nos anos 1990, Isabel Salgado virou símbolo de resistência ao insistir em seguir a carreira conciliando o vôlei e a gravidez em um ambiente ainda sem estruturas, protocolos ou apoio institucional. Mais de três décadas depois, a cena da medalhista olímpica Tatiana Weston-Webb surfando grávida até as 36 semanas, retornando ao mar um mês após o nascimento da filha Bia Rose e recebendo acompanhamento do Comitê Olímpico do Brasil (COB) ilustra uma mudança de paradigma que começa a ganhar forma no esporte olímpico nacional.
Entre uma geração e outra, o que antes dependia quase exclusivamente de esforço individual passa a entrar, ainda de maneira embrionária, na agenda oficial do esporte brasileiro: o COB trabalha na criação de protocolos e redes de apoio para atletas mães, envolvendo confederações, equipes multidisciplinares, apoio psicológico, adaptação logística e garantia de permanência dessas mulheres no ambiente esportivo durante a gestação e no retorno às competições.
— Eu tenho acompanhado esse movimento e é algo muito importante para nós, atletas. Durante a gestação, mantive contato e me senti acolhida nesse processo, o que faz toda a diferença em um momento tão novo e cheio de adaptações. Agora, no pós-parto, vou passar por uma avaliação no COB para entender melhor como estruturar meu retorno aos treinos e às competições, de forma segura e consistente. É muito positivo ver esse avanço e entender que estamos construindo caminhos mais estruturados para que outras mulheres possam viver a maternidade sem abrir mão de suas carreiras no esporte de alto rendimento — relata Tati Weston-Webb, que deu à luz à Bia Rose em fevereiro deste ano.
Bia Rose, filha de Tati Weston-Webb e Jessé Mendes
Acervo Pessoal
O projeto nasce em um momento de mudança de mentalidade no alto rendimento. Em Paris-2024, por exemplo, duas atletas competiram grávidas: a egípcia Nada Hafez (esgrima) e a azeri Yaylagul Ramazanova (tiro com arco), que competiram com 7 e 6,5 meses de gestação, respectivamente. Uma das idealizadoras da proposta, a ginecologista do Time Brasil Thatiana Parmigiano explica que o COB tenta construir caminhos para que atletas possam “viver os dois sonhos”.
— Antes de existir o COB, existem as confederações. Parte do projeto é entender a realidade de cada uma delas, o que já existe de lei, apoio financeiro, profissionais envolvidos e quanto as equipes têm conhecimento para continuar treinando essas atletas — explica a médica, ressaltando que todos os parâmetros atuais devem ser utilizados de maneira individual para cada atleta. — A ideia é organizar, incentivar e tornar isso uma medida implementada de fato.
A iniciativa ocorre também após mudanças recentes na legislação esportiva brasileira. A Lei 14.614/2023, sancionada em, 2023, alterou a Lei Geral do Esporte para assegurar que a mãe não perca o Bolsa Atleta durante a gravidez e até seis meses após o nascimento do filho. A aplicação começou efetivamente em 2024, e é vista como um marco importante, embora ainda insuficiente para resolver os desafios práticos do retorno.
Para a psicóloga do esporte Clarice Medeiros, o avanço ainda está apenas começando. Apesar de a presença das atletas grávidas em Paris simbolizar uma mudança cultural importante, a realidade continua complexa.
— A legislação é recente e necessária, mas ainda força muitas mulheres a escolher entre maternidade e carreira. O corpo feminino sempre foi um campo de disputa e regulação. Historicamente, mulheres eram impedidas de praticar esportes porque se acreditava que isso prejudicaria a maternidade ou faria com que perdessem características femininas — afirma ela, que escreveu um artigo ao lado da psicóloga Reivani C. Z. Buscacio no livro “Elas em Movimento: A Multiplicidade de Experiências no Esporte", lançado no mês passado.
E o desafio vai muito além do aspecto físico, em que já está estabelecido pela ciência que o esporte não é prejudicial nem ao longo da gravidez nem no puerpério .
—Existe toda a sobrecarga histórica colocada sobre a mulher como cuidadora. A chegada de um bebê mobiliza psiquicamente toda a família. Privação de sono, amamentação, culpa, pressão social… sem rede de apoio é impossível — diz Clarice.
Tatiana Weston-Webb com a filha Bia Rose: surfista voltou ao mar após um mês do parto
Acervo Pessoal
Retorno no tempo de cada uma
Tati Weston-Webb, que completa 30 anos hoje, é um dos exemplos de que o retorno da nova mãe deve respeitar os limites do corpo. A pressão interna e externa pela rápida volta às competições vai existir, mas a decisão deve ser avaliada pela equipe multidisciplinar em conjunto com as necessidades da atleta. Apesar de ter ficado longe do mar por poucos meses entre a gravidez e o pós-parto, a surfista está em ritmo leve.
— Foi quase um reencontro. Voltei mais para sentir a conexão de novo e entender como meu corpo estava respondendo. Agora estou em um processo de reconstrução. Tive diástase (afastamento dos músculos retos abdominais em função da gravidez), então estou focada em fisioterapia pélvica, pilates e fortalecimento progressivo —conta.
A permanência no ambiente esportivo é um dos pilares defendidos pelo COB. O conceito antigo de afastamento automático na gravidez e padrões generalizados para todas as atletas perderam espaço.
— Sempre que possível, manter a atleta no ambiente dela. A Tati continua no mar, a Jade (Barbosa, da ginástica), no CT, a Laís (Nunes, do Wrestling), no ginásio. Quando você dá segurança para ela continuar treinando, o retorno começa ainda durante a gestação — enfatiza a ginecologista.
Segundo a médica, recomendações antigas, como limitar a frequência cardíaca a 140 bpm ou interromper exercícios por medo de abortamento, já foram revistas. Os novos protocolos científicos também derrubaram o retorno às atividades somente após dois meses. Ela alerta, porém, que os estudos tratam de atletas de alto rendimento.
—Atleta de elite não é exemplo para ser reproduzido por qualquer pessoa. Elas têm adaptações específicas. Não é porque a Tati surfou grávida que qualquer gestante vai fazer o mesmo — pondera.
Além do treinamento, o COB destaca a importância das adaptações logísticas que permitam as mães a permanecer próximas aos filhos. Thatiana cita experiências recentes já implementadas no esporte brasileiro.
—Em Saquarema (CT do Vôlei), há um quarto para crianças irem com babá e uma sala de aleitamento. Em Copa do Mundo, já houve cadeirinha para criança no ônibus. Ela volta mãe, vem com um pacotinho junto e precisa desse apoio para se concentrar no treino, no jogo — exemplifica.
O movimento internacional também influencia essa transformação. A World Surf League criou recentemente o “Maternity Wildcard”, mecanismo que garante retorno ao circuito para surfistas que optarem pela maternidade. Tatiana Weston-Webb recebeu um convite para retornar em 2027 após a gravidez.
— A decisão de engravidar veio de um lugar muito pessoal, eu sempre sonhei ser mãe. Eu não tinha essa segurança quando tomei a decisão. Quando a WSL anunciou esse movimento, foi muito especial. Representa um avanço importante para o esporte — diz Tati, que quer ser vista como um exemplo para outras atletas.
