Coaf aponta movimentações incompatíveis com a renda de Flávio Bolsonaro e repasse de escritório de advocacia para quitar mansão

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – As várias condições impostas para o candidato e senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em abrir o seu sigilo bancário e telefônico ganha novos contornos com as revelações dos relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) de que movimentações financeiras foram consideradas incompatíveis com a renda declarada e que recebeu R$ 520 mil de um escritório de advocacia para quitar antecipadamente o financiamento de uma mansão em Brasília.

De acordo com informações obtidas pelo jornal O Globo, os documentos integram uma investigação da Polícia Federal (PF) sobre as relações financeiras do parlamentar com o advogado Willer Tomaz, em um caso que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes.

De acordo com o Coaf, entre janeiro e março de 2024, Flávio movimentou aproximadamente R$ 1,3 milhão em suas contas bancárias. O órgão identificou R$ 660.111 em créditos e R$ 649.272 em débitos no período.

O volume médio das operações foi 7,19 vezes superior ao considerado esperado para a renda informada pelo senador às instituições financeiras. Ao analisar as transações, o órgão registrou que o parlamentar “movimentou montante relevante sem respaldo em informações sobre sua capacidade financeira”.

O relatório também destacou operações realizadas em março de 2024, quando o senador recebeu R$ 520.277,28 do escritório Gavioli e Viola Advogados Associados. O dinheiro foi utilizado para liquidar antecipadamente o financiamento imobiliário contratado para a aquisição de uma propriedade de R$ 5,97 milhões em uma área nobre da capital federal.

O Coaf apontou suspeitas relacionadas à destinação dos recursos. “Há suspeitas no valor recebido, pois foi destinado à quitação antecipada de operação de crédito”, afirma o documento.

Mansão de R$ 5,97 milhões O imóvel foi adquirido em 2021, por meio de financiamento contratado junto ao Banco de Brasília (BRB).

Embora o contrato previsse o pagamento da dívida em 30 anos, o empréstimo foi liquidado em aproximadamente três anos, mediante seis pagamentos extraordinários, cujos valores variaram de R$ 198 mil a R$ 997 mil. Um desses pagamentos ocorreu em março de 2024, no valor aproximado de R$ 520 mil, quantia correspondente ao repasse feito pelo escritório Gavioli e Viola Advogados Associados.

Quando solicitou o financiamento ao BRB, Flávio declarou renda mensal de R$ 56,8 mil, composta pelo salário de parlamentar à época, rendimentos de uma franquia de chocolates e aplicações financeiras. Na ocasião, não informou receitas provenientes da atividade de advocacia.

Posteriormente, o senador afirmou à Justiça que também trabalhava como advogado e que os recursos utilizados na compra do imóvel tinham origem lícita. A operação envolvendo o escritório de advocacia chamou a atenção dos investigadores em razão da combinação entre o valor recebido, a quitação antecipada do financiamento e as demais movimentações financeiras identificadas pelo Coaf.

Os relatórios, entretanto, não constituem prova definitiva de crime. Os responsáveis pelo escritório Gavioli e Viola Advogados Associados já atuaram em parceria com Flávio em dois processos no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Em um deles, relacionado a uma disputa societária entre empresas do setor gráfico, o senador passou a integrar a equipe de defesa em junho de 2024. Dois meses depois, em agosto, a Quarta Turma do tribunal decidiu por unanimidade não admitir o recurso apresentado pelos advogados.

O parlamentar também trabalhou com integrantes da banca na defesa de um casal envolvido no caso conhecido como Faraó dos Bitcoins, que envolve suspeitas de pirâmide financeira com investimentos em criptomoedas. Flávio aparece na equipe de defesa desde abril de 2025, quando foi apresentado um recurso ao STJ.

Na ocasião, ele e os demais advogados solicitaram o trancamento da ação penal, pedido rejeitado pelo ministro relator em maio daquele ano. Procurado pelo O Globo, Bruno Gavioli Lopes, sócio do escritório que realizou o pagamento ao senador, afirmou que não comentaria o assunto.

Ele declarou que não fala sobre processos nos quais atua, “menos ainda sobre as parcerias”. “Existe um código de ética, e ele será respeitado”, afirmou o advogado, por mensagem.

Coaf identificou novas movimentações consideradas atípicas em 2025 Os relatórios não se restringem às operações realizadas no início de 2024.

O órgão também apontou movimentações consideradas atípicas em novembro de 2025, quando uma conta bancária do senador registrou R$ 337.641 em operações, sendo R$ 144.486 em créditos e R$ 193.155 em débitos. O Coaf classificou o volume como um “montante financeiro habitualmente superior à capacidade econômica declarada”.

Entre os créditos identificados estava uma transferência proveniente de uma arrecadação coletiva pela internet. O documento, porém, não esclarece a finalidade específica da operação nem identifica a origem do dinheiro recebido.

Segundo o relatório, “Esses recursos recebidos foram destinados, principalmente, ao pagamento de fatura de cartão de crédito, a outros pagamentos diversos e a limites incompatíveis com a renda declarada”. Naquele mês, Flávio havia organizado uma vaquinha virtual para arrecadar recursos destinados às famílias de quatro policiais mortos em uma operação no Rio de Janeiro.

De acordo com o site da campanha, as doações totalizaram R$ 1,2 milhão. O senador divulgou a chave Pix da arrecadação em suas redes sociais e prometeu apresentar os comprovantes das transferências às famílias.

“Toda a arrecadação vai ser integralmente destinada às famílias destes policiais, com total transparência”, declarou em vídeo publicado na época. O relatório do Coaf, conforme as informações divulgadas pelo jornal, não estabelece uma ligação conclusiva entre os valores da vaquinha e eventuais irregularidades.

A identificação da finalidade e da origem dos recursos depende do aprofundamento das apurações. Investigação da PF apura relações financeiras com Willer Tomaz

As movimentações bancárias de Flávio estão entre os elementos examinados pela Polícia Federal no inquérito que investiga um possível vínculo financeiro entre o senador e o advogado Willer Tomaz. A apuração teve origem em uma investigação conduzida pela PF no Rio Grande do Sul sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo plataformas de pagamento e empresas de apostas on-line, entre elas a Blaze.

Durante a análise de documentos e dados obtidos nas diligências, os investigadores encontraram referências ao nome do parlamentar, o que levou o caso ao Supremo Tribunal Federal. Entre os elementos reunidos estão registros de viagens internacionais de Flávio custeadas por empresas ligadas a Willer Tomaz e documentos que identificam o senador como “usuário master” de uma conta bancária da Alcazar Holding, empresa offshore da qual o advogado é sócio.

Tomaz foi apontado pelo Ministério da Fazenda como o maior apostador do Brasil em 2025, com movimentação de aproximadamente R$ 5 bilhões em plataformas de apostas on-line. Diante das suspeitas investigadas, o ministro Alexandre de Moraes determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens e valores vinculados ao advogado.

Tomaz nega irregularidades. A investigação busca rastrear a origem e o destino dos recursos que circularam pelas contas bancárias do senador e esclarecer a natureza das relações financeiras identificadas.

Escritório de Flávio emitiu notas fiscais de R$ 13,7 milhões Outro elemento relacionado à atividade profissional do senador foi revelado anteriormente pelo UOL.

Segundo o portal, o escritório de advocacia de Flávio emitiu pelo menos 62 notas fiscais que somaram R$ 13,7 milhões entre janeiro de 2023 e julho de 2026. Entre os principais clientes estaria o escritório Nilo & Almeida Advogados Associados, comandado por Edvaldo Nilo de Almeida, que pagou R$ 4 milhões ao parlamentar por serviços advocatícios.

Metade desse montante teria sido desembolsada três semanas antes de o Senado aprovar a indicação de Edvaldo Nilo para integrar o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Em nota, o advogado afirmou que os pagamentos decorreram de um contrato de prestação de serviços advocatícios firmado em abril de 2025 e negou qualquer relação entre os repasses e sua indicação ao conselho.

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
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