Claudia Raia estreia no Rio peça sobre menopausa e fala de sua experiência: 'Queria dizer que não estava bem, assim como quem está na plateia'

 

Fonte:


Uma corretora de imóveis casada há 18 anos, uma mulher divorciada, sarada e jovial, uma hippie desencanada, uma executiva workaholic, uma idosa rabugenta, uma freira e até a cantora Madonna. Todas falam abertamente sobre as transformações hormonais do corpo feminino na comédia musical “Cenas da menopausa”, estrelada por Claudia Raia e Jarbas Homem de Mello, que estreia nesta quinta (2) no Teatro João Caetano, no Centro do Rio de Janeiro . Com direção de Jarbas e texto de Anna Toledo, a peça apresenta, a partir de esquetes e paródias de hits dos anos 1980 e 1990, situações comuns no dia a dia de mulheres maduras — das alterações de humor a calores, sangramentos de escape e falta de libido.

Vendas em breve: Taís Araujo volta aos palcos após cinco anos em solo dirigido por Yara de Novaes: 'o teatro me fortalece', diz atriz

'As centenárias': Laila Garin e Juliana Linhares estrelam versão musical de comédia com Marieta Severo e Andréa Beltrão

Claudia só percebeu que estava entrando na perimenopausa, há cerca de oito anos, quando os filhos mais velhos, Enzo Celulari e Sofia Raia, e o marido, Jarbas, fizeram uma “intervenção” para alertá-la sobre suas oscilações de humor não usuais. De lá para cá, a atriz abraçou a pauta nas redes sociais, até decidir dar um passo a mais e transformar o que viveu e ouviu em espetáculo.

— Um dia eu liguei para a Anna e falei que precisava me expor, me vulnerabilizar na frente do público. As pessoas imaginam que nós, artistas, passamos por tudo numa boa. E não é nada disso, a gente está cagada como todo mundo. Queria dizer para as pessoas que eu não estava bem, assim como quem está na plateia — relembra a atriz.

Organizada para dar conta do que a autora chama de “fases do luto ovariano” (choque, negação, revolta, depressão, barganha e aceitação), a trama costura episódios em que diferentes mulheres se deparam com os efeitos da menopausa em momentos cotidianos, de uma tarde de compras à ida ao ginecologista. Amarrando as experiências está Teresa, única personagem cuja história tem início, meio e fim. Aos 49 anos, ela começa a lidar com as consequências da menopausa ao lado do marido, Mário, que tenta entender as mudanças.

Claudia Raia e Jarbas Homem de Mello em esquetes da peça "Cenas da menopausa"

Divulgação/Renam Christofoletti

Usando da metalinguagem, Claudia e Jarbas também se colocam como personagens, e conversam sobre as próprias experiências enquanto trocam de figurino no palco para mudar de papéis — cinco dela e nove dele. Para a dupla, a inclusão da figura masculina na trama era essencial.

— Chegamos a pensar em comprar os direitos de um musical americano só com depoimentos de mulheres, mas queríamos trazer a relação do homem com o tema, colocar em cena esse marido que está passando pela menopausa da mulher sem entendimento — conta Jarbas.

Além de Mário, o ator e diretor interpreta o ex-marido da personagem hippie; um ginecologista; um cabeleireiro influencer; além de figuras femininas.

— Inicialmente pensei em colocá-lo para fazer apenas a tia Judite, uma senhorinha rabugenta que serve como a caricatura do que se imagina ser uma mulher menopausada. Só que começou a ficar divertido e fomos inventando personagens — diz Anna.

A comicidade é completada por diversas referências a divas pop. Na lista, uma versão vermelha do icônico vestido esvoaçante de Marylin Monroe e versões engraçadas de hits como “Total eclipse of the heart”, “Like a virgin” e “I will survive”, adaptadas por Anna, até a própria presença de Madonna, que surge para a protagonista como uma divindade.

— Só tem música de mulher na peça, todas 50+, que nossa geração reconhece como as nossas divas — explica Anna. — A Madonna entra como essa figura de empoderamento, que acaba sendo a padroeira da Teresa quando ela está buscando por uma orientação.

Claudia Raia e Jarbas Homem de Mello como Teresa e Madonna na peça "Cenas da menopausa"

Divulgação/Renam Christofoletti

Da identificação à ação

Ao começar os ensaios, Claudia lembra que voltou a sentir vários sintomas da menopausa:

— Eu estava com a minha reposição hormonal em dia, mas quando comecei a ensaiar, desandou, tive que refazer tudo. Me vi tão representada nas personagens que pirei de novo. Fiquei muito negativa, triste. Eu dizia: “vai ser um mico, a gente vai levar tomatada na cara”.

O resultado, porém, tem sido muito diferente do que a atriz chegou a pensar. Assistido por mais de 200 mil pessoas no Brasil e em Portugal desde a estreia, em janeiro de 2025, o espetáculo é um sucesso. Além de dar risada, os espectadores saem mais leves, contam os atores. Ao final de cada sessão, o público é convidado a compartilhar suas histórias, em bate-papo guiado pelo elenco.

— Um depoimento do qual a gente sempre lembra foi de um homem que quis pedir perdão para a mulher, chorando, por não ter estendido a mão para ela no momento mais difícil da vida dela, por pura falta de conhecimento — conta Jarbas.

Após conversar com videntes, médicos e com o marido, a personagem central enfim consegue encarar a menopausa de maneira mais positiva. Nos debates pós-peça, muitas espectadoras relatam que mudaram de vida após adentrar esta fase, chamada por Claudia de “segundo ato vida”:

— Teve uma uma mulher em Lisboa que deixou de ser CEO para virar DJ no segundo ato dela. Outra resolveu virar triatleta — comenta.

Para ela, o segundo ato inclui conciliar as viagens com a maternidade. Seu caçula, Luca, tem 3 anos.

— Me alegro de ter um “filho da menopausa”, nosso “milagrinho”, que anda com a gente por tudo quanto é canto — conta a atriz, que engravidou aos 55 anos, após tratamento hormonal.

Jarbas brinca:

— É tipo família de circo. Vamos até dezembro viajando com ele.

Serviço

Onde: Teatro João Caetano, Praça Tiradentes.

Quando: Qui e sex, às 19h. Sáb, às 18h. Dom, às 17h. Dia 8 (qua), às 19h. Até 12 de abril. Estreia quinta (2).

Quanto: De R$ 100 (balcão) a R$ 200 (plateia).

Classificação: 14 anos.