Claudia Leitte fala sobre espiritualidade, novos projetos e rotina com os filhos nos EUA: 'Sou uma águia'
Claudia Leitte se desculpa ao ser interrompida pela filha caçula. Irmã de Davi, de 17 anos, e Rafael, de 13, a pequena Bela, de 6, invade o escritório da mãe, na casa que a família mantém em Salvador, e pede permissão para brincar com um tablet. “Liberei os joguinhos por duas horas hoje só porque estou dando entrevista, meu Jesus!”, exclama a cantora, que retorna o olhar ao repórter, por meio de videochamada, sem esconder que perdeu totalmente o fio da conversa. “Me perdoe, meu Deus, o que estávamos falando mesmo?”, ela questiona.
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Instantes depois, uma indagação parecida volta a saltar dos lábios (“Qual foi a pergunta que você fez?”, interroga). O motivo para o esquecimento, porém, já não é a interferência infantil. Claudia Leitte é aceleradíssima, como justifica.
— Às vezes tenho que fazer o exercício de não ir muito à frente nos pensamentos. Fico tentando vislumbrar as coisas. Se estou gravando uma música, já imagino o público reagindo a ela — diz a artista, de 45 anos, diagnosticada recentemente com transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).
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A cantora jura que vem tentando colocar os pés no freio, apesar de não abrir mão do pula-pula do carnaval baiano, motor de sua carreira há quase três décadas. “Intemporal”, projeto musical que ela leva na sexta-feira (13) ao Vivo Rio, na capital fluminense, e no sábado (14) ao MinasCentro, em Belo Horizonte, é resultado de uma busca mais apurada por “autocuidado” para conter a ansiedade.
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Em apresentação com formato acústico — que ganhou uma gravação ao vivo em dezembro de 2024 —, Claudia se dedica a releituras de faixas do próprio repertório (“Bola de sabão”, “Pensando em você”, entre outras) e sucessos da MPB, como “Sozinho”, de Peninha, e “Deslizes”, de Fagner. Sem piruetas ou rodopios.
— São músicas que representam, para mim, um equilíbrio entre saúde mental, saúde física e saúde espiritual — explica ela, acrescentando que é adepta da neuromodulação, técnica terapêutica que aplica correntes elétricas de baixa intensidade no cérebro. — Está todo mundo falando mais sobre saúde mental por conta do que tem acontecido conosco nesse mundo superacelerado, né? Abordo isso de forma natural. Não é para provocar algo em troca.
A cantora Claudia Leitte em show do projeto 'Intemporal'
Nara Fassi/Divulgação
Vinte e cinco anos após conquistar projeção nacional como vocalista da banda Babado Novo — que segue na ativa com a cantora Mari Antunes como líder —, Claudia Leitte considera que aprendeu a se apegar menos às pressões da indústria fonográfica. Exemplo: ela afirma que tenta dar pouca bola para a quantidade de streams em tocadores de áudio, algo que é visto hoje como uma relevante medição de sucesso (ou de fracasso, a depender do ponto de vista).
— Se começar a contar quantas pessoas estão no meu show e me dão “likes” ou ouvem as minhas canções, vou me afastar da minha raiz e da minha própria música, que, aliás, nem sempre vai ser a melhor, a mais divertida, a mais bonita ou a que vai ganhar mais troféus — reconhece.
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Está aí a explicação para ela ter parado de fuçar o que dizem a seu respeito nas redes sociais. A cantora não consegue identificar quando exatamente se tornou um substantivo com vida própria para além do círculo de amigos e familiares. Acontece que falam dela por vários cantos — e nem sempre coisas boas.
— Se ficar lendo demais, essas coisas começam a controlar a minha pessoa. Nessa loucura toda de internet, de todo mundo se achar importante, é fácil se perder... Não precisa fazer muito esforço, não. Mas Deus é mais — celebra.
Claudia Leitte com o marido e os três filhos
Reprodução/Instagram
Frequentadora de uma igreja evangélica há cerca de dez anos, ela se tornou alvo de controvérsia, nos últimos anos, ao trocar a letra da música “Caranguejo” durante um show, em 2024. Na ocasião, o trecho “Saudando a rainha Iemanjá” foi substituído por “Eu canto meu rei Yeshua”, em referência ao nome hebraico de Jesus.
Em 2025, o Ministério Público da Bahia moveu uma ação civil pública solicitando uma investigação por suposto racismo religioso. O caso deu o que falar — e, de lá para cá, a artista decidiu retirar a canção de seu repertório em shows.
— Canto minhas emoções, mas canto para alguém. Uma música sempre faz diferença na vida de alguém. Se ela não faz bem a uma pessoa, simplesmente não canto mais. Pode ser que amanhã já não tenha essa opinião — responde. — Mas é só isso... E não vou falar mais disso, não, tá? Quero falar sobre o que é bom para os outros e o que me faz bem. Essa é a minha máxima.
Novo disco
Paralelamente ao projeto “Intemporal”, ela prepara o lançamento da última parte do disco “Especiarias”, que chega às plataformas no dia 27. Com canções inéditas, o álbum propõe um passeio pelo caldeirão de gêneros musicais do Brasil. Seria a obra um reflexo do que ela mesma se tornou como referência pop?
— Sou uma cantora de axé music, e é por isso que misturo tudo. Para mim, isso é claro, límpido e transparente — exulta. — E acho que a música da Bahia está impregnada de uma fusão sem limite, o que enriquece o movimento como um todo, sabe? Música não tem etiqueta ou rótulo. Para tentar compreender, a gente é que a nomeia. Mas a verdade é que tudo é música.
Há dez anos, a cantora vive em Miami, nos Estados Unidos, junto ao marido, o empresário Márcio Pedreira, e os filhos. A escolha por deixar o país natal — e se dividir entre duas nações — tem por objetivo preservar a prole dos privilégios e reveses derivados da própria fama. As crianças, como sublinha, são a prioridade em sua rotina.
— Sou uma águia — ela compara. — Coloco meus filhos no topo da montanha mais alta e ensino eles a voarem lá de cima. Vou sempre focada no meu objetivo, que é ao infinito e além. Sempre para o alto: além das tempestades, além das dificuldades.
A despeito da metáfora cheia de asas, Claudia insiste que não se deslumbra com o suposto glamour do universo artístico. Justamente por isso, ela faz questão de manter longe dos holofotes a vida íntima e privada. Afinal, vê-se como alguém comum, como demonstra.
— Não consigo falar de mim na terceira pessoa, sabe? Sou só uma pessoa que que vai para o palco. Sou uma mulher que tem filhos, uma esposa, uma filha... E, no meio disso tudo, canto — enfatiza. — Para mim, não teve essa coisa de um dia dormir e, no outro, acordar famosa. Não! Meu maior troféu é subir num palco. Nunca vivi o sonho de estrela de querer ter casa, carro... Sempre fui muito pé no chão. Isso fez a vida ficar mais leve. Entendo que nem sempre vou dar cabo das coisas, e tudo bem. O que importa, no fundo, é cantar. É assim que alivio a pressão.
