Classificar CV e PCC como terroristas pode afastar investidores e impactar economia, diz especialista
A decisão dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas não deve produzir efeitos práticos no combate às facções brasileiras e ainda pode trazer impactos negativos para a economia do país. A avaliação é da coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense, Carolina Grillo, ouvida pela CBN.
Nessa quinta-feira (28), o secretário de Estado americano, Marco Rubio, anunciou a classificação do PCC e do CV como Organizações Terroristas Estrangeiras e Terroristas Globais Especialmente Designados. Segundo o governo americano, as facções têm atuação internacional e representam ameaça à segurança regional.
Segundo Carolina Grillo, a medida tem caráter mais político e econômico do que operacional na área de segurança pública. Ela explica que a classificação pode abrir espaço para restrições financeiras e jurídicas mais severas envolvendo investidores, empresas e até cidadãos brasileiros que mantenham relações econômicas com o país.
“Na verdade, essa decisão tem impactos muito graves e negativos na economia brasileira porque prejudica os investimentos no Brasil e aumenta o risco para investidores, principalmente estrangeiros, diante da possibilidade de confisco de bens investidos no país. Então, isso tem um impacto muito negativo na economia e, no entanto, nenhum impacto na repressão ao crime organizado.”
A pesquisadora também afirma que as organizações brasileiras não têm atuação relevante nos Estados Unidos e concentram suas operações internacionais principalmente no envio de cocaína para a Europa.
“As facções, o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, não têm atuação nos Estados Unidos e, embora nos últimos 10 anos tenham ampliado a participação no tráfico transnacional de cocaína, mais de 90% dessa atividade é destinada ao mercado europeu. O segundo principal destino das drogas transportadas pelo Brasil é a África. Ou seja, os Estados Unidos não são impactados pelo tráfico internacional de cocaína operado pelo PCC e pelo CV. Na verdade, os Estados Unidos são fornecedores de armas, não o principal, mas um dos fornecedores, em um mercado legal que eles têm plenas condições de controlar.”
A especialista também afirma que já existia cooperação entre autoridades brasileiras e americanas. A mudança para estruturas ligadas à segurança nacional americana pode não trazer ganhos concretos para as investigações.
“Já existiam cooperações eficientes entre as autoridades norte-americanas e brasileiras por meio de órgãos com plena competência para atuar na investigação do crime organizado, como o FBI e a DEA. Ou seja, a mudança para órgãos ligados à segurança nacional, como a CIA, não faz sentido porque não se trata de organizações que ameacem a segurança nacional norte-americana.”
Para a pesquisadora, a medida também não altera a realidade enfrentada por moradores de áreas dominadas por facções no Brasil. Ela ainda ressalta que a atuação violenta das facções não tem finalidade política, o que as diferenciaria de outras chamadas de 'narcoterroristas'.
“São organizações que utilizam a força para controlar mercados ilegais e obter lucro. Elas praticam extorsão e usam coerção física para garantir o controle não apenas sobre o tráfico de drogas, mas também sobre outros mercados ilegais. Não há objetivo político de desestabilização de regime ou de causar medo na população com finalidade política, como ocorre em organizações narcoterroristas. Então, tratá-las dessa forma não ajuda no combate ao crime porque distorce a compreensão sobre a natureza dessas organizações.”
Carolina Grillo defende que o combate ao crime organizado no Brasil deve priorizar fiscalização financeira, controle de lavagem de dinheiro e regulação dos mercados explorados pelas facções.
