Clarice Alves aposta no cinema para ampliar o debate sobre futebol feminino: 'É hora de virar o jogo no apoio às mulheres'

 

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A atriz Clarice Alves mira um novo território cinematográfico ao apostar no futebol feminino como eixo narrativo de seu próximo longa de ficção, "Virando o Jogo". O projeto nasce de uma parceria com o ex-jogador e empresário Marcelo Vieira e com a diretora Tatiana Fragoso, formando um trio criativo que pretende levar às telas uma história de persistência, identidade e disputa por espaço. A produção desperta curiosidade ao combinar esporte e debate social em uma mesma engrenagem narrativa.

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Produzido pela Camisa Listrada, em coprodução com a Group Doze e a Aura Films, o longa propõe deslocar o olhar tradicionalmente associado ao futebol. Em vez dos estádios lotados e dos heróis consagrados, a câmera acompanha meninas que transformam campos improvisados em trincheiras simbólicas. A escolha temática reflete um movimento crescente no audiovisual brasileiro, que passa a enxergar o esporte não apenas como espetáculo, mas como arena de tensões culturais e sociais.

A trama acompanha uma adolescente determinada a garantir que seu time feminino dispute um campeonato historicamente reservado aos meninos. A jornada da personagem, marcada por resistências e preconceitos em sua própria cidade, ecoa desafios concretos enfrentados por jovens atletas em diferentes regiões do país. O roteiro, segundo os envolvidos no projeto, busca capturar esse atrito silencioso entre sonho e realidade, onde talento e paixão frequentemente colidem com barreiras estruturais e simbólicas ainda persistentes. Com estreia prevista para 2027, ano em que o Brasil sediará a Copa do Mundo FIFA de Futebol Feminino, o filme chega embalado por um contexto particularmente emblemático.

Paralelamente, Clarice também atravessa uma fase internacional robusta, integrando produções como "Todo Lo Que Nunca Fuimos", adaptação da obra de Alice Kellen pela Warner Bros, além de "Sigma", de Daniel Benmayor, e "Tras los Pasos de la Rubia Platino". No Brasil, tem participação confirmada na sexta temporada de "Impuros", consolidando uma trajetória que transita entre gêneros, idiomas e mercados.

Em entrevista à Ela, Clarice fala sobre o projeto, reflete sobre os desafios do futebol feminino e o impacto que espera provocar com a história. Confira:

Você está desenvolvendo "Virando o Jogo", que coloca o futebol feminino no centro da narrativa. Quando você pensa em "virar o jogo", qual é o jogo mesmo: o do esporte, o da cultura, ou o da forma como a gente aprende a olhar para mulheres competindo?

Eu acho que hoje é hora de a gente virar o jogo em relação ao apoio às mulheres, sabe? Lutar cada vez mais para que elas tenham mais oportunidade e mais visibilidade. Existem talentos incríveis que eu acompanho e que tenho visto crescer cada vez mais. Elas estão abrindo muitas portas, tanto no exterior quanto aqui. A gente vê o esporte feminino ganhando mais espaço agora, mas eu sinto que isso é só o início.

Virar o jogo, para mim, é justamente isso: criar caminhos para que cada vez mais mulheres avancem, escancarem portas mesmo. Que tenham mais oportunidades, mais visibilidade, mais poder. Poder ser, poder ocupar, poder decidir. Não é só sobre ter os mesmos direitos, mas ter as mesmas possibilidades, os mesmos patrocínios, a mesma estrutura. É sobre equidade de verdade.

Acho que é acompanhar o nosso tempo e seguir avançando. E eu quero poder aportar o meu grãozinho de areia nesse tema que me motiva tanto. Vejo como uma mistura de tudo: esporte, cultura, comportamento. É sobre a forma como a gente enxerga as mulheres competindo, sobre aceitar, apoiar, motivar, dar suporte.

A cultura vai abrindo espaço, o esporte vai ficando cada vez mais potente, os eventos vão se tornando maiores, mais televisionados, mais globais, e a gente vai vendo as mulheres ocupando esse lugar como protagonistas. Para mim, virar o jogo é isso: continuar fortalecendo esse movimento para que ele seja cada vez maior, mais justo e mais impossível de ignorar.

O que dizer para quem afirma que o menor investimento no futebol feminino se deve a menor interesse do público?

Quando alguém afirma que o menor investimento no futebol feminino se deve a um menor interesse do público, eu costumo lembrar que uma coisa alimenta a outra. Interesse também se desenvolve. Investimento traz estrutura, que permite formar times mais fortes, campeonatos mais técnicos e jogos mais competitivos. Isso gera audiência, engajamento e visibilidade. Não dá para tratar o 'menor interesse' como se fosse um dado permanente, é preciso criar um ponto de partida. Caso contrário, entramos num ciclo vicioso em que a falta de investimento limita o crescimento e acaba perpetuando a desigualdade.

Muita história do futebol feminino foi apagada, minimizada ou tratada como nota de rodapé. Que recorte do projeto te interessa mais: resgatar memória, denunciar barreiras atuais, ou criar um imaginário novo (onde a atleta não precise ser 'exceção' para ser protagonista)?

Eu acho que o filme é um combo de tudo isso, sabe? A gente tentou reunir aquilo que considera mais importante. É um filme pensado para um público muito diverso. Nossa intenção é que a família sente no sofá para assistir junto e que a gente consiga alcançar todas as gerações.

A gente montou um time muito bacana de personalidades, atores e equipe técnica. Toda a equipe criativa tem pensado muito nisso. Queremos que crianças e jovens de hoje tenham referências como Sissi e Kátia Cilene, por exemplo, que foram figuras incríveis, precursoras na luta pelo futebol feminino e nas conquistas dessas mulheres, numa época em que não existiam redes sociais, nem a visibilidade que existe hoje.

Acho que a gente tem o dever de honrar essas mulheres que abriram portas lá atrás. Por isso, a Ceci está no projeto com a gente, fazemos questão de misturar gerações. É importante que o público jovem que assistir ao filme conheça essas mulheres que foram fundamentais para que, hoje, as meninas tenham mais espaço e para que o futebol feminino tenha avançado.

A Milene Domingues, que é uma grande amiga, também está no projeto, assim como personagens atuais como a Cristiane e outras personalidades mais conhecidas do grande público. A gente acha essencial resgatar essa memória e dar o reconhecimento que essas atletas merecem por tudo o que lutaram para que o futebol feminino seguisse firme e forte até aqui.

Ao mesmo tempo, o filme também denuncia as barreiras que ainda existem. Ainda há um mar de diferença entre o feminino e o masculino, e a gente continua nessa luta. Acreditamos que este é um momento decisivo para romper ainda mais barreiras, com a união e com a visibilidade que teremos na Copa do Mundo Feminina da FIFA 2027, além do crescimento que já estamos vendo no futebol feminino.

Queremos romper barreiras atuais e inspirar essa nova geração que está chegando. Que essas meninas vejam o nosso filme, vejam essa união de mulheres de diferentes idades, se reconheçam, se inspirem e continuem lutando por igualdade, dando o máximo, acreditando.

No fim, é isso: um combo para unir passado e presente e lutar por um futuro melhor, com mais igualdade.

No futebol, a vitória quase sempre aparece no placar. Mas, na vida real, "ganhar" pode significar sobreviver, permanecer e abrir caminho. Em "Virando o Jogo", qual transformação você quer que o público sinta no corpo: indignação, admiração, esperança, vontade de agir…?

Eu acho que 'Virando o Jogo' é realmente um filme de esperança, de inspiração e de motivação para os jovens, para as mulheres, para as meninas que estão chegando agora. Mas também é um filme para a juventude como um todo. É importante que os meninos também vejam essa luta, entendam esse processo e percebam as possibilidades que precisam estar disponíveis para todos.

Eu espero que a nova geração quando assistir ao nosso filme, saia com vontade de lutar, com vontade de correr atrás e alcançar os seus sonhos. Eu diria que ele é uma história universal sobre acreditar no seu sonho e lutar para conquistá-lo.

Essa é a grande mensagem do filme: mesmo reconhecendo que existem obstáculos, contextos de privilégio e de desvantagem que impactam cada trajetória, não perder de vista que, independentemente de sexo, gênero, idade ou das dificuldades impostas, ainda é possível sonhar e transformar esse sonho em movimento.

Para o público, a proposta é provocar, inspirar, reacender a confiança na própria potência.

E há também um chamado ao mercado. A visibilidade, o engajamento e o interesse costumam vir com a vitória, mas eles começam muito antes dela. Existe um percurso que precisa de investimento, suporte e confiança. Participar desse processo desde o início é muito mais significativo do que apenas se associar ao sucesso quando ele já está garantido.

Você transita entre projetos com tons bem diferentes, como a série "Impuros", mergulhada em um submundo áspero, e agora um filme com pulsação social e esportiva. O que mais te desafia nessas mudanças de atmosfera e o que permanece constante no seu processo criativo?

Acho que o mais desafiador e também o mais bonito da profissão é justamente poder transitar entre universos tão diferentes. Cada projeto tem uma atmosfera, um ritmo e uma energia próprios, e o meu trabalho é acreditar e entrar naquela realidade que está sendo proposta, criada.

Em 'Virando o Jogo', por exemplo, existe uma energia mais leve e inspiradora, ligada ao universo do esporte e do futebol, que é algo que eu conheço bem. Já em Impuros estamos em um ambiente muito mais denso, no Rio dos anos 90, um contexto que também reconheço.

O que permanece constante no meu processo é essa disponibilidade: curiosidade, presença e entrega. Eu busco observar, absorver a atmosfera daquele universo e deixar que aquilo me afete, me atravesse. Levo a minha bagagem comigo e, de alguma forma, sempre encontro alguma similaridade, algo que reconheço e que me ajuda a mergulhar de verdade naquele mundo. Mas também me abro para o que cada projeto traz.

No fundo, é essa abertura para se adaptar e transitar por realidades diferentes que mais me encanta na profissão.