Jair e Michelle: em prisão domiciliar, ex-presidente está em prisão domiciliar; ex-primeira-dama terá mandato no DF Brenno Carvalho/Agência O Globo/18/03/2025
Apesar da derrota de Flávio Bolsonaro para a Presidência da República, a família do ex-presidente Jair Bolsonaro sai da eleição fortalecida no Congresso, com quatro integrantes do clã político eleitos. Se o quadro deve garantir espaço aos Bolsonaros no ambiente parlamentar, também impõe a eles o desafio de manter a hegemonia na direita após perder duas eleições seguidas para Luiz Inácio Lula da Silva.
Na segunda-feira (26), dia seguinte ao pleito, Flávio disse que pretende “organizar a oposição” ao governo no próximo período. Ele deixará de ser senador em janeiro, encerrando uma sequência de 24 anos de mandatos eletivos.
Analistas têm considerado que o bolsonarismo atravessa um momento de reconfiguração na liderança, diante das incertezas sobre a situação do ex-presidente - em prisão domiciliar, após a condenação por tentativa de golpe de Estado. A convivência entre os familiares eleitos e as disputas no campo da direita também devem ser determinantes para o futuro do movimento, afirmaram especialistas ao Valor.
Flávio saiu do segundo turno com 48,21% dos votos válidos, 3,58 pontos percentuais atrás do presidente reeleito. Na véspera da votação, uma pesquisa divulgada pela Quaest mostrou que 45% dos eleitores declaravam ter mais medo da volta da família Bolsonaro ao poder do que da continuidade de Lula.
Já os que demonstravam maior temor com a reeleição do petista do que com o retorno do bolsonarismo correspondiam a 42% - 4% tinham medo dos dois cenários, 4% não tinham medo de nenhum e 5% não souberam responder. Flávio: sem mandato em 2027
Vittor Sales/Divulgação/02/09/2026 No primeiro turno, o saldo para a família foi de dois senadores, com mandatos até 2034, e dois deputados, distribuídos entre Distrito Federal, Santa Catarina e São Paulo - todos pelo PL.
Esposa de Jair, Michelle Bolsonaro venceu para o Senado no DF, tornando-se a senadora mais votada na história da capital federal - quase 940 mil votos (29%) -, na primeira candidatura de sua vida. Foi ainda a primeira vez que uma ex-primeira-dama se elegeu para um mandato no país.
Carlos: eleito ao Senado por SC Reuters/Adriano Machado/08/10/2026
A outra vaga garantida no Senado, dentro do plano traçado por Jair de ampliar a representação da direita na Casa para avançar com pautas como pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), foi a de Carlos, o segundo filho do ex-presidente, eleito senador por Santa Catarina.
A vitória envolveu, por orientação de Jair, a transferência do domicílio eleitoral do Rio de Janeiro, onde Carlos era vereador desde 2001, para o Estado do Sul, um dos redutos do bolsonarismo na região. Antes, a estratégia já tinha sido adotada com o filho homem mais novo, Jair Renan, que deixou o Distrito Federal, onde morava, para fazer sua estreia em disputas eleitorais em 2024, quando foi eleito vereador da cidade de Balneário Camboriú (SC).
Concorrendo com o nome de urna “Jair Bolsonaro”, foi eleito deputado federal com a quarta maior votação em Santa Catarina (131 mil). Eduardo: ex-deputado vive nos EUA
Reprodução Um dos colegas dele na Câmara Federal será seu tio Renato, eleito por São Paulo.
Irmão mais novo de Jair, ele se elegeu vereador de Praia Grande (SP) em 1996, mas desde então acumulava derrotas - a mais recente tinha sido em 2024, na disputa pela Prefeitura de Registro (SP). Neste ano, concorrendo com um número de fácil memorização, o dígito 2 repetido quatro vezes, e tratado pelo partido como um potencial “puxador de votos”, ele obteve a sexta maior votação para deputado federal entre os eleitores paulistas (379 mil apoios).
Renato ficou com o número de urna pertencente ao sobrinho Eduardo, que foi uma espécie de precursor do movimento de expansão política de Jair além das fronteiras de sua base eleitoral, o Rio de Janeiro. Eduardo concorreu à Câmara dos Deputados por São Paulo pela primeira vez em 2014, sendo reeleito em 2018 - quando alcançou a marca de deputado federal com a maior votação da história do país, com 1,8 milhão de votos, num recorde depois superado - e em 2022.
Hoje, ele vive nos Estados Unidos e perdeu o mandato, depois de cassação por excesso de faltas. Jair Renan: eleito para a Câmara
Arthur Menescal/Bloomberg/14/09/2025 “Todos nós fomos eleitos em cima de uma herança do nome de Jair Bolsonaro”, disse Renato ao Valor, na última semana, enquanto percorria cidades do interior paulista fazendo campanha por Flávio.
O deputado eleito afirmou esperar que Jair atue como “um grande orientador” da bancada familiar. Falou ainda em “alinhamento” e “união”, mas não detalhou como seria a atuação conjunta.
“O Carlos tem a maneira de pensar dele, a Michelle tem outra, o Renan é muito novo. E eu vou estar à disposição do meu irmão, mas também tenho minhas opiniões e minha maneira de enxergar o mundo”, disse Renato.
A transferência de capital político de Jair pode ser lida como capacidade de influência do ex-presidente, mesmo estando preso e sem acesso às redes sociais. “Hoje, a identidade do movimento e a unidade da família dependem de seu chefe Jair Bolsonaro, [mas], por tudo que se sabe até agora, é grande a chance de a família dividir-se.
Mal conseguiu caminhar unida para as eleições”, afirmou a cientista política Maria Hermínia Tavares de Almeida, professora emérita da Universidade de São Paulo (USP). Um dos indícios de disputas internas no clã foi a participação lateral de Michelle na campanha de Flávio.
Quatro meses antes da eleição, madrasta e enteado tiveram um atrito que desgastou a candidatura do senador. Semanas mais tarde, eles anunciaram reconciliação pública, mas a ex-primeira-dama ficou distante de palanques do presidenciável.
Por tudo que se sabe até agora, é grande a chance de a família dividir-se” Para Robson Carvalho, doutor em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador do familismo político no Brasil, Michelle tem a possibilidade de se destacar com o mandato, pela comunicação com evangélicos e mulheres, mas ele lembra que os enteados também buscam espaço.
“Michelle pode se constituir como um baluarte. Há quem diga que ela pode até se descolar da família, mas eu ainda vejo o poder muito atrelado ao núcleo político familiar, apesar de uma liderança que ela tem no segmento evangélico, que é uma outra forma de capital.”
Em que pese a presença da família em postos no Congresso, Carvalho ponderou que o clã ter ficado sem a Presidência da República constitui um abalo para o projeto bolsonarista. “O poder político familiar do grupo fica minimizado, porque não vai contar com o poder da Presidência da República mais uma vez.
O grupo vai se voltar para o Parlamento, mas o coração do Poder Executivo ele não vai ter”, afirmou. A particularidade desta eleição para a família Bolsonaro é que ela vai favorecer uma atuação dos membros “espraiada nacionalmente”, segundo o cientista político.
“O caso da família Bolsonaro ultrapassa o padrão do familismo político, porque se vê o parentesco operando de maneira ascendente, descendente e horizontal”, disse Carvalho. Segundo ele, que é autor de estudo sobre “a dimensão do capital político-familiar no Senado e os prejuízos à representação democrática”, a combinação entre laços familiares e espaços decisórios no Brasil está associada a dificuldades para a renovação política e riscos relacionados à concentração de poder.
Na visão de Maria Hermínia Tavares de Almeida, o bolsonarismo - conceituado por ela como a expressão local de um “populismo de extrema-direita” - “é muito maior que a família, é um movimento político e social, com importante apelo eleitoral”. Essa condição permitiu a eleição de uma série de “jovens deputados e deputadas” que conquistaram votações expressivas usando bandeiras bolsonaristas.
“São lideranças emergentes que não têm o sobrenome Bolsonaro”, pontuou a docente, ao comentar o fortalecimento de lideranças do bolsonarismo fora da família.
Valor