Citada mais de 150 mil vezes em documentos do caso Epstein, ex-assistente executiva do magnata leva 'vida normal'

 

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Pessoas citadas nos documentos do Departamento de Justiça dos EUA sobre o caso Jeffrey Epstein — muitas delas poderosas e famosas — levantaram suspeitas sobre os seus comportamentos morais, acabaram no ostracismo ou foram punidas social e profissionalmente por causa das suas relações com o magnata pedófilo. Bastava uma citação para que a pessoa precisasse se explicar. Diversas personalidades da política, do entretenimento e da política de destaque emitirem o pedido de desculpas padrão por terem feito parte da vida de Epstein, antes de darem o passo obrigatório para refletir sobre se foram ou não cúmplices de atos ilegais ou mesmo apenas reprováveis. Mortos tiveram a sua biografia arranhada.

Mas para uma mulher cujo nome aparece mais de 150 mil dos documentos, a vida segue "normal", como se nada tivesse acontecido. Trata-se de Lesley Groff, que passou grande parte de sua carreira como assistente executiva de Epstein. Ela era responsável pela agenda do criminoso sexual condenado e administrava seu dia a dia, supervisionando tudo, desde seus cortes de cabelo até suas massagens diárias, muitas das quais eram um código para "sexo", segundo vítimas. Lesley também fazia conexões para que jovens fossem levadas a ilha de Esptein no Caribe e para o seu rancho no Novo México (EUA).

Só o nome do próprio Epstein aparece mais vezes. Nem o da namorada Ghislaine Maxwell, que também era recrutadora de jovens para o magnata, é citado tantas vezes.

A situação incomodou Daniel LaGattuta, um cientista político que vive em New Canaan (Connecticut, EUA), uma região de alto padrão onde Lesly também reside com o marido, Ike. Em 2 de março, LaGattuta convocou republicanos locais para discutir o "problema Lesley".

No encontro, LaGattuta afirmou que Lesley constava como suspeita de conspiração nos arquivos do FBI (polícia federal dos EUA) e que ela era figura-chave no círculo íntimo de Epstein. Por causa exatamente dela, New Canaan foi mencionada mais de mil vezes nos arquivos Epstein. Associar-se a Lesley, uma antiga doadora do Partido Republicano, era "moralmente repugnante e uma catástrofe política", destacou LaGattuta, que pediu que os políticos locais devolvessem as suas doações ou repassassem a verba a uma organização para vítimas de abuso sexual.

Apesar dos esforços, LaGattuta foi ignorado, contou reportagem na "Free Press".

Para alguns citados nos arquivos da investigação, uma simples troca de e-mails com Epstein custou-lhes o emprego ou uma mancha difícil de apagar na sua reputação.

No entanto, a mulher que se sentou na sala ao lado da dele por quase 20 anos conseguiu, de alguma forma, retomar a sua vida em New Canaan como se Epstein nunca tivesse feito parte dela. No amplo processo de responsabilização de Epstein, Lesley se tornou uma "anomalia", frisou o "Free Press". Ela não apenas faz doações políticas — ela vai a festas, organiza noites de jogos e janta em restaurantes sofisticados com seus amigos e familiares.

"O que nos leva a questionar: será que alguém em New Canaan se importa?", questionou a plataforma de jornalismo independente.

Jeffrey Epstein com vítima de tráfico sexual

Reprodução/DoJ

Lesley sempre manteve sua inocência. Em uma declaração à "Free Press", o seu advogado, Michael Bachner, insistiu que, durante todo o tempo em que trabalhou com Epstein, Groff "nunca testemunhou ou foi informada de nada ilegal relacionado a essas massagens".

"Epstein vivia em dois mundos — um legítimo e o outro ilegítimo — e garantia que eles não colidissem", escreveu Bachner num e-mail. "De fato, acreditamos firmemente que Epstein, morto em cadeia de Nova York em 2019, manteve Lesley propositalmente isolada de sua conduta criminosa, já que não tinha motivos para confiar nela e todos os motivos para mentir", emendou ele.

Embora Lesley tenha sido de fato listada como suspeita de co-conspiração, o governo nunca apresentou acusações formais contra ela.