Cirurgião que retirou órgão errado de paciente é acusado pela sua morte
Quando um homem do Alabama, nos Estados Unidos, procurou um hospital na Flórida em agosto de 2024, ele relatou dor no lado esquerdo, perto do baço. Três dias depois, morreu na mesa de operação, sem um órgão diferente — o fígado, do lado direito.
Agora, um grande júri do condado de Walton, na Flórida, denunciou, na última segunda-feira, o cirurgião Thomas Shaknovsky, de 44 anos, por homicídio culposo de segundo grau pela morte do paciente, William Bryan, informou o gabinete do promotor do 1º Circuito Judicial.
Shaknovsky foi preso na manhã de segunda-feira e depois liberado sob fiança, disse o escritório do xerife do condado de Walton. Ele deve comparecer à primeira audiência no Tribunal do Circuito do Condado de Walton em 19 de maio. Se condenado, pode pegar até 15 anos de prisão.
Um advogado de Shaknovsky não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.
O hospital onde Bryan foi tratado, o Ascension Sacred Heart Emerald Coast Hospital, em Miramar Beach, Flórida, disse em nota que os cirurgiões enfrentam “rigorosos padrões de credenciamento” e precisam ter licença estadual para exercer a profissão.
Shaknovsky, acrescentou a nota, “nunca foi funcionário do Sacred Heart Emerald Coast e não atua em nenhuma de nossas unidades desde agosto de 2024”.
Em agosto de 2024, Bryan, de 70 anos, e sua esposa, Beverly, de Muscle Shoals, Alabama, visitavam uma propriedade alugada no condado de Okaloosa, na Flórida, quando ele foi acometido por dores.
Bryan fez exames de imagem no hospital em 18 de agosto que indicaram possível aumento do baço, segundo relato do Departamento de Saúde da Flórida em uma ordem emergencial que suspendeu a licença de Shaknovsky em setembro de 2024. Havia sangue na membrana que reveste o abdômen de Bryan, mas sem sinais de hemorragia, diz o documento.
Shaknovsky disse a Bryan que ele precisava retirar o baço, um procedimento minimamente invasivo, mas ainda considerado uma cirurgia de grande porte, com recuperação de até seis semanas. O procedimento, que não era realizado com frequência no hospital, poderia ter complicações graves, segundo o Departamento de Saúde.
Ao longo de três dias, Bryan recusou a cirurgia e disse que queria voltar ao Alabama para receber cuidados médicos, mas o Departamento afirmou que Shaknovsky “continuou pressionando” o paciente.
Bryan acabou concordando em fazer a cirurgia na Flórida, que foi marcada para a tarde de 21 de agosto, um sábado, quando a equipe era insuficiente, segundo o órgão de saúde.
Colegas na sala de cirurgia “tinham preocupações de que Shaknovsky não possuía o nível de habilidade necessário para realizar o procedimento com segurança”, disse o Departamento de Saúde.
Os sinais de problema apareceram quase imediatamente.
Shaknovsky iniciou o procedimento por laparoscopia, mas mudou para cirurgia aberta porque não conseguia ver claramente os órgãos, após não ter documentado que Bryan tinha um cólon distendido que dificultaria a visualização, segundo o Departamento.
Membros da equipe relataram depois que o cólon de Bryan “saltou para fora da cavidade abdominal” quando o abdômen foi aberto, e eles começaram a aspirar sangue para melhorar a visibilidade, segundo os documentos.
Shaknovsky então utilizou um grampeador cirúrgico em um vaso que pretendia cortar para remover o órgão e acionou o instrumento.
Bryan começou imediatamente a ter uma hemorragia e entrou em parada cardíaca, com sangue jorrando enquanto enfermeiros e outros profissionais tentavam aspirá-lo. Eles iniciaram uma transfusão de emergência e tentaram reanimá-lo, diz o relatório. Shaknovsky não pediu aos colegas um clamp ou cauterizador para conter o sangramento e continuou a dissecar o órgão “mesmo com o abdômen cheio de sangue”, segundo o estado.
Ele acabou removendo o fígado de Bryan, acreditando que era o baço. O Departamento de Saúde destacou que, além de estarem em lados diferentes do abdômen, “baços e fígados são anatomicamente distintos, têm consistências diferentes e cores diferentes”.
Depois que o órgão foi retirado, “a equipe olhou para o fígado claramente identificável na mesa e ficou chocada quando Shaknovsky disse que se tratava de um baço”, dizem os documentos. “Um membro da equipe passou mal.”
Em entrevistas posteriores, Shaknovsky afirmou que estava removendo o baço quando um suposto aneurisma se rompeu repentinamente, causando sangramento grave — versão que contradiz a de outros presentes na sala. A autópsia revelou que o fígado de Bryan havia sido removido, enquanto o baço estava intacto, sem sinais de aneurisma rompido.
Joseph Ladapo, cirurgião-geral da Flórida, suspendeu a licença médica de Shaknovsky um mês após a morte de Bryan.
Segundo o relatório, Shaknovsky tentou convencer os colegas de que o órgão removido era o baço.
O Departamento de Saúde já havia punido Shaknovsky antes, ao concluir que ele removeu por engano parte do pâncreas de outro paciente em vez de uma glândula adrenal em 2023. Na época, ele afirmou que a glândula “migrou” para outra parte do corpo do paciente, segundo documentos. Registros estaduais mostram que ele pagou US$ 400 mil para encerrar um processo por erro médico nesse caso.
Bryan era um caldeireiro aposentado e veterano da Marinha dos EUA, que gostava de estar perto do oceano, disse Beverly Bryan em entrevista. O casal tinha duas filhas e um filho.
Beverly, enfermeira aposentada, recebeu a notícia da morte do marido do próprio Shaknovsky na capela do hospital, onde aguardava com as filhas o fim da cirurgia.
— Eu nunca imaginei que ele não sairia daquela cirurgia vivo. Viver sem ele é quase insuportável. Ele gostaria que a morte dele servisse para evitar que outras pessoas fossem prejudicadas por aquele médico — disse.
