Ciro Gomes faz discurso nacional, mas deixa em aberto se vai disputar Planalto ou governo do Ceará

 

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Candidato a presidente em quatro eleições, o ex-ministro e ex-governador Ciro Gomes (PSDB) prometeu, neste sábado, decidir até o fim da primeira quinzena de maio se disputará a Presidência da República ou o governo do Ceará em 2026. Mesmo sem a confirmação, o tom do discurso foi predominantemente nacional, citando temas como economia, judiciário e a polarização entre PT e PL. Ciro falou para correligionários durante encontro de pré-candidatos do PSDB, na primeira agenda pública do ex-ministro após receber o convite formal do presidente nacional da legenda, o deputado federal Aécio Neves, para encabeçar a chapa presidencial do partido.

Ao justificar a disposição de voltar à disputa nacional, Ciro revisitou a derrota de 2022, quando teve seu pior desempenho nas quatro eleições presidenciais que disputou. O político disse ter sido impedido de competir em condições justas e que, não fosse a “gravidade do momento”, evitaria a política. Ciro afirmou ainda sentir-se "obrigado pelo apelo" de seu partido a considerar o convite.

— Na última eleição eu me senti profundamente humilhado por uma campanha fascista que me negou o próprio direito de participar. E eu, se tivesse juízo mesmo, não chegaria mais perto dessa quadra política fascista de lado a lado nem para dar os parabéns nem os pêsames. Nesse pleito é presidente ou governador. Um dos dois. No fim da primeira quinzena de maio, eu tomo a decisão.

A ausência de Aécio Neves não passou despercebida. O presidente nacional do PSDB, que em 14 de abril fez o convite público a Ciro para encabeçar a chapa presidencial, enviou uma mensagem em vídeo aos pré-candidatos reunidos no Clube Juventus, na Mooca, zona leste de São Paulo — mas não citou o nome de Ciro Gomes em nenhum momento da gravação.

Na ocasião em que recebeu o convite de Aécio, Ciro já havia sinalizado que não descartava a candidatura, mas ponderou que a decisão precisaria ser amadurecida com sua base política no Ceará, estado pelo qual construiu sua trajetória e onde havia se posicionado como principal nome da oposição ao governo de Elmano de Freitas (PT).

Ciro Gomes em evento do PSDB, em São Paulo

Maria Isabel/O Globo

Crítica à polarização

Para embasar a volta ao palanque, Ciro enumerou o que chamou de "pior momento histórico, sob o ponto de vista estrutural, da vida republicana brasileira". O ex-ministro também criticou o que considera convergência entre PT e PL na condução da política econômica — câmbio flutuante, metas de inflação e autonomia do Banco Central — e cobrou dos dois campos uma posição sobre as terras raras, setor que classificou como "o petróleo do século XXI".

— Que polarização é essa em que os dois defendem a mesma política econômica? É tudo igual: Lula 1, Lula 2, Lula 3, Dilma 1, Dilma 2, Bolsonaro, Michel Temer. O Brasil precisa de uma alternativa. Agora, eu não sei se sou eu, porque eu cansei. Eu perdi a crença nas mediações brasileiras.

Sobre o Judiciário, Ciro evitou a retórica de adversários que prometem reformas imediatas ou anistias, mas criticou o que chamou de "compadrio" nas nomeações para o Supremo. Disse também que fazer CPI para investigar um ministro e em seguida votar a favor de uma indicação política para a corte é "puro oportunismo". Ao ser perguntado sobre suas bandeiras prioritárias, Ciro defendeu uma agenda ampla, mas com ênfase na economia.

— O Brasil precisa de uma ruptura. Será que nós estamos com base social para promover essa ruptura? Porque eu não quero decepcionar as pessoas. O Brasil precisa de uma alternativa. Agora, eu não sei se sou eu, porque eu cansei. Eu perdi a crença nas mediações brasileiras.

Ciro Gomes e correligionários do PSDB em evento de pré-campanha`

Maria Isabel/O Globo

O evento foi organizado pela Executiva Estadual do PSDB de São Paulo e reuniu pré-candidatos da legenda a deputado estadual e federal, além de parlamentares, prefeitos e vereadores tucanos do estado. Entre as lideranças presentes estavam o presidente estadual do PSDB paulista e pré-candidato ao governo de São Paulo, Paulo Serra, ex-prefeito de Santo André; a deputada estadual Ana Carolina Serra; o ex-senador José Aníbal; e o prefeito de Marília, Vinícius Camarinha.

O racha no Ceará

A eventual migração de Ciro para a disputa nacional deixaria sem nome de peso a oposição a Elmano no Ceará — e complicaria ainda mais a relação já rompida com o irmão, o senador Cid Gomes (PSB). Em entrevista publicada pelo GLOBO em 8 de abril, Cid disse ser "muito constrangedor ter um irmão e não votar nele", ao comentar a possibilidade de enfrentar Ciro em chapas opostas no estado.

Cid, aliado do governador Elmano, avaliou que seria "quase incontornável" a candidatura do irmão ao governo cearense, dados o alinhamento de Ciro com PL e União Brasil e a ausência de outro nome capaz de liderar a chapa de oposição. O senador disse que apoiaria Ciro caso ele fosse candidato à Presidência, mas que na disputa pelo governo do Ceará os dois estariam em lados opostos.

O afastamento entre os irmãos remonta a 2022, quando discordaram sobre o candidato do PDT ao governo estadual. Ciro bancou Roberto Cláudio, ex-prefeito de Fortaleza, enquanto Cid defendia a então governadora Izolda Cela. A ruptura aprofundou-se em novembro de 2023, quando Cid deixou o PDT e migrou para o PSB junto com dois outros irmãos e cerca de 50 prefeitos municipais, esvaziando politicamente a base de Ciro no estado.