Cinquenta anos após a morte de Mao Tsé-Tung, Xi Jinping ainda extrai poder do ‘cano da arma’

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Fonte da notícia: Valor Valor

Nos 50 anos decorridos desde a morte de Mao Tsé-Tung, em 9 de setembro de 1976, um princípio político manteve-se válido para o Partido Comunista da China, mesmo enquanto o país se transformava na segunda maior economia do mundo: o poder deriva do controle sobre o Exército de Libertação Popular.

Em 1927, enquanto o partido travava uma guerra civil contra o Kuomintang, Mao declarou em uma reunião de líderes partidários que "o poder político nasce do cano de uma arma". Nessa visão, o poder só poderia ser conquistado pela força, o que exigia que o partido detivesse o controle sobre as forças armadas.

Mao — o pai fundador da China moderna — construiu sua base de poder por meio de vitórias militares, à frente de um exército organizado a partir de camponeses e trabalhadores. Após sua morte, seus sucessores sustentaram sua liderança com base no controle da Comissão Militar Central (CMC).

Deng Xiaoping utilizou seu cargo de presidente da CMC para governar como líder supremo, apesar de ter deixado os principais postos do partido para outros, como Hu Yaobang. Jiang Zemin cedeu o cargo de secretário-geral do partido a Hu Jintao em 2002, mas permaneceu como presidente da CMC por quase dois anos depois disso.

O atual líder, Xi Jinping, também acredita no princípio do "cano da arma". Logo após assumir como secretário-geral em 2012, ele lançou uma campanha anticorrupção que atingiu figuras poderosas, como o ex-vice-presidente da CMC, Guo Boxiong.

Xi também tem seguido rigorosamente outra máxima de Mao: "O partido comanda a arma", por meio de seu controle sobre as nomeações militares.

Em 2017, a CMC emitiu um relatório sobre o sistema de responsabilidade do presidente — no qual o poder de tomar decisões militares cruciais fica concentrado nas mãos do presidente —, determinando que as forças armadas obedecessem às ordens de Xi, prestassem contas a ele e lhe dessem garantias de lealdade.

A campanha anticorrupção de Xi intensificou-se após o início de seu terceiro mandato, em 2022, levando à destituição de Zhang Youxia — um antigo aliado de Xi — do posto de oficial militar de mais alta patente da China. Dos sete membros da CMC no início do mandato, apenas Xi e o atual vice-presidente, Zhang Shengmin, permanecem no cargo. Mao não era uma figura sem rivais nas forças armadas, que ainda contavam com nomes como os "Dez Marechais", os quais se destacaram durante a Guerra Civil Chinesa e a guerra contra o Japão.

Já as forças armadas chinesas atuais não possuem figuras de peso capazes de confrontar Xi, o que sugere que a posição dele na instituição superou, em certo sentido, a de Mao. No entanto, observadores argumentam que a destituição de oficiais de alto escalão pode comprometer a estrutura de comando e a capacidade operacional das forças armadas.

Xi não descartou o uso da força para unificar Taiwan à China. O ano de 2027 marcará o centenário de fundação do Exército de Libertação Popular; analistas de inteligência dos Estados Unidos avaliam que, até lá, a China terá capacidade militar para promover essa unificação à força.

Os preparativos também avançam na esfera interna. Uma legislação revisada, que entra em vigor em outubro, facilitará a mobilização de pessoas com especialização em tecnologias como inteligência artificial e drones. O atual plano quinquenal, que vai até 2030, estabelece metas para aumentar a produção de alimentos e energia.

A unificação de Taiwan com a China é uma ambição de longa data do Partido Comunista — um objetivo que Mao não conseguiu alcançar.

"Se Xi concretizar isso, ele se equiparará a Mao como líder", afirmou Takashi Suzuki, professor de política chinesa na Universidade Daito Bunka, no Japão.

Contudo, Xi ainda não alcançou a estatura de Mao dentro do partido. Revisões na constituição do partido em 2022 incluíram mais uma menção ao nome de Xi, elevando o total para 12 — patamar igual ao de Deng, mas inferior às 13 menções a Mao. Na época, chegou-se a cogitar o resgate do título de presidente para Xi, ou a concessão do título de líder — utilizado por Mao —, mas a ideia acabou sendo descartada.

Espera-se que Xi garanta um quarto mandato no congresso do partido, realizado a cada cinco anos, no outono de 2027. Dado o seu desejo de unificação com Taiwan, é provável que ele se concentre ainda mais no princípio de que "o poder nasce do cano de uma arma" para se igualar a Mao.

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