Cinelândia sitiada: onda de arrastões impõe toque de recolher informal e esvazia o coração do Rio
No centro da Praça Floriano, sob a vigilância das imponentes fachadas do Theatro Municipal e da Biblioteca Nacional, a guia de turismo Clara Ventura interrompe a explicação histórica para formar um círculo apertado com seis turistas, todos brasileiros. Seu olhar não se detém nos detalhes da arquitetura, mas nos movimentos rápidos de bicicletas que cruzam o asfalto da Cinelândia. A instrução é firme: celulares devem permanecer nas doleiras e qualquer acessório, mesmo sem valor, precisa ser ocultado.
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Segundo ela, o aviso sempre foi necessário, especialmente em relação aos celulares. O alerta, porém, acompanha uma mudança no cenário da criminalidade local. Há 9 anos atuando na região, Clara diz que o protocolo de segurança foi reforçado diante do aumento dos casos de roubos e da procura dos criminosos por cordões e pulseiras douradas.
— A gente não avisa, a gente pede para o pessoal tirar o cordão. Tivemos três roubos em 12 dias, com grupos de espanhóis e ingleses. Levaram o celular de uma turista e, no outro caso, acho que foi um cordão — conta.
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Além de explicar detalhes históricos, Clara também atua como uma espécie de segurança nos momentos em que os visitantes param para tirar fotos. Precisa manter atenção constante, observando todos os ângulos para inibir a ação dos criminosos. Os alertas, admite, deixam alguns turistas tensos, mas ela prefere agir assim.
— Enquanto todo mundo tira foto, eu estou olhando. Se vejo uma bicicleta, oriento: “Todo mundo guarda o celular agora”. Prefiro deixar você nervoso do que deixar acontecer alguma coisa durante o meu tour. Por enquanto, sou a única guia que não sofreu nenhum assalto e quero continuar assim. Ainda que eu deixe você um pouco mais nervoso, prefiro você seguro enquanto está comigo — diz.
Em vídeos nas redes sociais, é possível observar a atuação dos criminosos, que atacam em bando e chegam a agredir as vítimas.
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Escolta entre garçons
O medo também alterou o horário de funcionamento de comércios centenários da Cinelândia. O Amarelinho, bar e choperia que há 105 anos resiste como ponto de encontro no coração do Rio, se viu obrigado a encurtar a jornada. Onde antes se servia a “saideira” até as 3h, hoje as portas se fecham bem mais cedo, acompanhando o esvaziamento precoce das calçadas.
— Antigamente, íamos até as 3h. Agora, em consequência desses arrastões, o máximo que a gente vai é até 1h — lamenta Oberdan Rosa, gerente do Amarelinho.
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O bar Amarelinho da Cinelândia, em funcionamento há 105 anos, precisou mudar o horário de funcionamento pelo aumento da criminalidade no entorno
Lívia Nani / Agência O Globo
A mudança de horário não foi a única adaptação. Para os trabalhadores do Amarelinho e de vizinhos, como o Super Bar, o fim do expediente deu lugar a uma operação para garantir que todos cheguem em segurança ao transporte público. A orientação é nunca cruzar a praça sozinho. Garçons, cozinheiros e auxiliares aguardam uns pelos outros na porta para formar o que chamam de “blocos”.
— Quando a gente encerra o expediente, tem que andar em bloco, com dez funcionários ou mais. A partir daí, eles não mexem. Com mais de seis pessoas andando juntas, não fazem arrastões — explica Oberdan.
O Super Bar também passou a fechar mais cedo em razão da falta de insegurança. O impacto, em ambos os estabelecimentos, não é apenas psicológico, mas financeiro. O faturamento do Amarelinho caiu 50%, enquanto o do bar vizinho recuou 30%. Fábio Alexandre, gerente do Super Bar, descreve o lugar como uma região “totalmente abandonada”.
No Super Bar, na Cinelândia, os funcionários saem em grupo ao fim do expediente para evitar arrastões
Lívia Nani / Agência O Globo
— São dois anos sem carnaval no Super Bar e, com este, será o terceiro. Tem muito arrastão aqui. São mais de 200 jovens, todos menores de idade. Metem a mão na roupa, roubam tudo. No sábado, fechamos a casa às 23h porque começam os arrastões — relata.
Os dois gerentes destacam que o perfil dos criminosos é conhecido, formado majoritariamente por adolescentes:
— Oitenta por cento são menores de idade que fazem os arrastões. Às vezes, a polícia está do lado, mas prende e depois tem que soltar porque é menor de idade. O problema é social — afirma Oberdan.
Prejuízo na feirinha
A tradicional feirinha na Cinelândia teve as vendas impactadas pelo aumento da criminalidade
Lívia Nani / Agência O Globo
O impacto econômico também atinge os comerciantes da tradicional feirinha da Praça Floriano, que funciona de terça a sexta-feira, das 9h às 18h. Danielle Mello, comerciante de semijoias, viu as vendas despencarem 70% justamente no período que costuma ser considerado o “segundo Natal” do setor.
— Janeiro e fevereiro eram meses excelentes de venda aqui, e este ano está péssimo. As vendas caíram 70%. O pior é que não tem horário, pode ser de manhã, na hora do almoço… Eles pulam no pescoço das pessoas se tiver cordão — relata.
Em sua barraca, a comerciante Danielle Mello viu as vendas despencarem 70% nos meses de janeiro e fevereiro
Lívia Nani / Agência O Globo
A poucos metros dali, Fernanda Cavalheiro tenta atrair os visitantes que restaram com miniaturas do Cristo Redentor, camisas da seleção brasileira de futebol e adereços com as cores da bandeira. Ela observa que os tradicionais grupos guiados, responsáveis por boa parte das vendas, desapareceram.
— Aqui passavam muitos grupos de turistas com guias durante a semana. Sumiram. Provavelmente tiraram a Cinelândia do roteiro. Às vezes, a gente está trabalhando normalmente, passa alguém correndo com o celular na mão, entrega para outra pessoa, e aí fica muito difícil recuperar o que foi levado — afirma.
A barraca de Fernanda Cavalheiro, na Praça Floriano, tenta atrair os poucos turistas que ainda passam por lá
Lívia Nani / Agência O Globo
'Não é caos, é inferno'
Para o empresário Márcio Dornelas, o sonho de morar e trabalhar no coração cultural do Rio se transformou em uma rotina de confinamento. Mineiro, vivendo na cidade desde 2018, ele deixou Copacabana e se mudou, em julho do ano passado, para um prédio vizinho ao Teatro Rival. Desde então, sofreu duas tentativas de assalto na porta de casa. Na mais recente, o perigo se manifestou no curto trajeto de apenas dez metros entre o teatro e a portaria.
— Saí do Teatro Rival e, quando estava chegando em casa, apareceram quatro. Não sei de onde vieram. O porteiro não teve condições de abrir a porta, e eu só senti as oito mãos passando em mim. Como eu não tinha nada, eles foram embora — recorda.
“Não ter nada” tornou-se sua principal estratégia de sobrevivência. Para circular pela vizinhança, o empresário adotou um protocolo rígido, onde deixa celular e documentos em casa e sai apenas com a roupa do corpo. No Rival, onde é frequentador assíduo, chegou a combinar o pagamento das contas apenas no dia seguinte, para evitar o uso da carteira.
— Estou preso dentro de casa. No fim de semana, quando quero sair, faço conta no Rival e pago no outro dia à tarde, para não trazer a carteira. Saí de Copacabana, que era relativamente tranquilo, mas aqui perdi o rumo. Não é caos, é inferno. Assim que meu contrato acabar, eu saio daqui — desabafa.
Cultura sob vigília
Enquanto o medo esvazia as calçadas, as instituições que dão alma à região tentam resistir à sensação de abandono por meio da adaptação. Ricardo Horta, diretor-executivo do Centro Cultural Justiça Federal (CCJF), explica que, diante da vulnerabilidade das ruas, a segurança privada do espaço passou a atuar na orientação direta do público que frequenta exposições e espetáculos, especialmente ao fim das atividades, por volta das 21h.
— Nossos vigilantes observam, por meio das câmeras, a movimentação do entorno. Quando identificam algo suspeito, orientam a saída dos visitantes, seja pelo uso de aplicativos de transporte, pelos fundos do prédio, na Rua México, seja pelo metrô, na saída mais próxima, a da Pedro Lessa — detalha.
Para o diretor, o esforço é uma tentativa de impedir que a falta de segurança derrote a vida cultural do Centro. Ele cita iniciativas como o projeto "Cinelândia – cinema na rua", que exibe filmes ao ar livre em parceria com a Associação dos Servidores Públicos da Ancine e a tradicional Banca do André.
— A rua é do carioca, a rua é do turista. A gente espera que o poder público consiga resolver a situação, e eu tenho certeza de que vai — afirma.
Policiamento
A equipe de reportagem do GLOBO esteve na Cinelândia na tarde de quarta-feira e constatou a presença de três viaturas da Polícia Militar e duas do programa Segurança Presente na Praça Floriano. O reforço no policiamento busca responder a uma escalada de violência que já mobiliza as instâncias políticas da cidade. Instalada na região, a Câmara Municipal do Rio vem cobrando um “choque de ordem” no Centro desde outubro, em reuniões com o comando do 5º BPM (Praça da Harmonia) e com a coordenação do Segurança Presente.
Viatura da Polícia Militar na Cinelândia
Lívia Nani / Agência O Globo
Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), entre janeiro e outubro do ano passado, o Centro registrou mais de cinco mil furtos de celulares, alta de 36% em relação ao mesmo período do ano anterior. No carnaval, o avanço foi ainda mais acentuado: as ocorrências na região saltaram de 515, em 2024, para 750 em 2025 — crescimento de 46%. Com isso, a participação do Centro no total de crimes da capital durante esse feriadão subiu de 26% para 33%.
Em nota, a Polícia Militar informou que emprega um esquema especial de segurança, com efetivo extra que chegará a 12.500 policiais militares no carnaval oficial, com foco nos pontos de concentração de blocos no Centro, como as avenidas Rio Branco e Presidente Antônio Carlos. A estratégia inclui o monitoramento de grupos criminosos e o uso de tecnologias como videomonitoramento e reconhecimento facial.
Já o programa Segurança Presente Centro, segundo a Secretaria de Estado de Governo (Segov), também opera com reforço, mantendo cerca de 65 agentes com viaturas em atuação 24 horas por dia. De acordo com o balanço do programa, o último fim de semana antes do carnaval registrou oito prisões por furtos, roubos e resistência, além do cumprimento de quatro mandados judiciais e da localização de três pessoas desaparecidas.
*Estagiária sob supervisão de Claudia Meneses.
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