Cine Odeon faz 100 anos: personalidades relembram 'templo cinematográfico' do Rio de Janeiro
“Da claustra do Convento da Ajuda às projeções do Odeon”, destaca chamada de uma reportagem do GLOBO na edição de 5 de abril de 1926. O texto trata da inauguração do Cine Odeon, dois dias antes, um cinema imponente de decoração neoclássica, com 951 lugares, que completa hoje cem anos no local que abrigou o primeiro convento feminino do Rio de Janeiro. Não por acaso, ainda hoje, a sala é tratada como “templo sagrado” e “igreja” do audiovisual carioca.
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O Odeon é o último remanescente do circuito de salas que fez a região ser batizada de Cinelândia. A área contava com o Cineac Trianon, o Parisiense, o Império, o Pathé, o Rex, o Vitória, o Metro e o Palácio, todos abertos no início do século XX.
Cine Odeon, no Rio, com fila na porta para assistir a “E.T. O extraterrestre” (1982)
Hipólito Pereira / Agência O Globo
Administrado pela rede Kinoplex, do Grupo Luiz Severiano Ribeiro, o Odeon não tem programação regular: atualmente, é palco de exibições especiais, pré-estreias, festivais e eventos corporativos. Em outubro, o lugar, que ganhou o nome de Cine Odeon — Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro, abre as portas para o Festival do Rio, o que ajuda a manter viva a essência da sala.
O Odeon foi cenário de grandes lançamentos de clássicos como “Cleópatra” (1934), de Cecil B. DeMille, e “Aconteceu naquela noite” (1934), de Frank Capra, que transformaram a fachada com painéis majestosos, como na era de ouro de Hollywood. Por conta de sucessos como “O exorcista” (1973), de William Friedkin, e “E.T. O extraterrestre” (1982), de Steven Spielberg, filas tomaram a Praça Floriano Peixoto. Nomes internacionais como Tom Cruise, Roman Polanski, Samuel L. Jackson, Catherine Deneuve, Jeanne Moreau, Juliette Binoche, Henry Cavill, Bradley Cooper e Isabelle Huppert passaram pelo seu tapete vermelho.
Kate Holmes e Tom Cruise na première de "Operação Valquíria", no Cine Odeon, no Rio, em fevereiro de 2009
Marcos Ramos / Agência O Globo
O cinema também foi palco do velório do ator José Lewgoy (1920-2003), reuniu torcedores para acompanhar a final da Copa do Mundo entre Brasil e Alemanha, em 2002, e sediou programações especiais como o espetáculo “O samba é minha nobreza”, de Hermínio Bello de Carvalho, que ficou em cartaz por três meses também em 2002. A Maratona Odeon reunia filmes, shows musicais e um café da manhã com bolo para cinéfilos notívagos.
Para comemorar o centenário, convidamos nomes do audiovisual nacional para lembrar de momentos vividos na sala.
Ary Fontoura, ator
Sempre fui um profundo admirador de cinema. Os filmes maravilhosos que vi, sobretudo nos anos 1960, foram sem dúvida, em sua maioria, no Odeon. Vejo, com prazer este espaço lutando para se impor agora com festivais e lançamentos, devolvendo ao público o prazer que é frequentá-lo e continuando, mesmo nos cem anos de vida, um ponto obrigatório inquebrantável em sua maravilhosa resistência. Parabéns, Odeon!
Helena Ignez, atriz
Não queria cair no lugar comum de lembrar dos filmes que assisti lá. O que queria dizer é que o Odeon está no fundo do meu coração como palco de uma homenagem a Rogério Sganzerla pouco antes dele deixar este nosso mundo para ir para outro. O Odeon é cinema puro. Cinema das homenagens, da formação intelectual, do bom cinema.
Rita Cadillac, cantora
Nasci em 1954 e frequentei o Odeon desde que me deixaram entrar. Eu morava na Evaristo da Veiga, perto do cinema. Vi muitos filmes lá. Um que vi e revi várias vezes no Odeon se chamava “La violetera” (1958), com Sarita Montiel. Vi “A noviça rebelde” várias vezes. E o momento mais marcante para mim foi quando, num Festival do Rio, passaram o meu documentário (“Rita Cadillac — A lady do povo”, de 2007). Estar lá, dentro do cinema em que passei minha infância, vendo um filme sobre a minha vida foi muito especial. Tenho uma saudade muito grande. Sempre que vou ao Rio, faço questão de passar por lá.
Ilda Santiago, diretora do Festival do Rio
O Odeon é considerado o Maracanã dos cinemas, é o lugar onde todos querem passar o seu filme. São tantas as memórias. Lembro da sessão de “O pianista” (2002), com o Polanski e o Odeon completamente lotado, com mais público do que era permitido, naquela época em que a gente ainda colocava cadeiras nos corredores. Lembro do Pablo Trapero apresentando “O clã” (2015), em uma sessão linda com o Walter Salles. E temos momentos fora do festival, como a final da Copa de 2002, com todo mundo pulando dentro do cinema e eu preocupada se as pessoas iriam destruir as cadeiras. Foi uma sessão linda, que mostra que o cinema também pode servir para uma expressão coletiva além dos filmes.
Karim Aïnouz, diretor
Minha primeira grande memória do Odeon foi o lançamento de “Madame Satã”. Foi a primeira vez que o filme passou no Brasil. É algo que eu nunca vou esquecer na minha vida, com aquele cinema lotado, com aquele filme maluco, livre e irreverente passando naquela sala. E a recepção do público que foi sublime. É um cinema antigo, mas que me lembra um começo de vida. E tem uma coisa muito bonita de reverência ao cinema. Tem uma aura de cinema clássico que me deixa sempre emocionado quando meus filmes passam lá. Parece que estou sempre me lembrando que o cinema é algo mágico.
Walter Carvalho, diretor
Cinema catedral. Cinema rito de passagem, cinema celebração, cinema batismo, templo, cinema tempo. Nunca esquecerei do amigo Ariano Suassuna às lágrimas após a sessão de “Lavoura arcaica” em pleno Odeon com a casa cheia.
Lucy Barreto, produtora
Lucy Barreto e Luiz Carlos Barreto cumprimentam Walter Salles em sessão no Cine Odeon, em 2018
Divulgação / Festival do Rio
Guardo com muita alegria na memória as muitas homenagens que nós, da LC Barreto e da família Barreto, recebemos no Odeon que é, sem sombra de dúvidas, um templo do cinema brasileiro. “Dona Flor e seus dois maridos” ficou semanas em cartaz no cinema.
Rosane Svartman, diretora
Lembro da primeira sessão no Festival do Rio com o Odeon recém reformado. A emoção de entrar num lugar que celebra há décadas a experiência coletiva de assistir um filme. O Odeon é um cinema que exala história. E é imenso! O momento que a equipe sobe no palco do Odeon para apresentar uma obra é algo extraordinário. Lembro de fazer isso em filmes como o curta “Cabeça de Copacabana”, com longas como “Câncer com ascendente em virgem”, “(Des)Controle”. É sempre aquele frio na barriga junto com a emoção de estar no lugar certo celebrando o que mais amo.
Alice Gonzaga, diretora da Cinédia
Tenho muitas lembranças do Odeon. Desde meu pai (o diretor Adhemar Gonzaga), que foi à sessão de estreia, contando que ficara apreensivo durante toda a projeção, porque acompanhara horas antes a colocação do grande lustre do teto, e achava que a cena do “Fantasma da Ópera” se repetiria, com ele embaixo do tal lustre; até os relançamentos das restaurações da Cinédia, após as enchentes de 1996. Foi emocionante, para mim, subir ao palco do Odeon e apresentar às novas gerações clássicos do cinema brasileiro como “Alô, Alô, Carnaval”. A ovação final coroou mais uma grande sessão do Odeon.
Renata Almeida Magalhães, produtora
A primeira sessão do filme “5x Favela, agora por nós mesmos”, totalmente realizado por moradores de favelas cariocas, foi no Odeon. Ser lá, com aquele gongo soando para dar início a projeção, significava ter virado “gente grande”. E viraram mesmo.
Marcelo Gomes, diretor
Diretor Marcelo Gomes e equipe de "Cinema, aspirinas e urubus", no Cine Odeon, durante o Festival do Rio, de 2005
Carlos Ivan
Me lembro de momentos muito marcantes no Odeon, como a sessão de "Cinema, aspirinas e urubus", meu primeiro longa, no Festival do Rio. O filme tinha tido uma boa recepção em Cannes, mas a sessão no Odeon foi a primeira no Brasil. Estava eu, João Miguel e parte da equipe. Quando o filme acabou todo mundo estava de pé aplaudindo o filme. Eu e João ficamos sem saber como reagir diante de um público que aplaudiu por vários minutos. Foi extremamente emocionante. Meu primeiro filme, primeiro protagonista do João Miguel. Ele chegou no festival quase como um desconhecido e depois veio a ganhar o prêmio de melhor ator.
Marcelo Janot, crítico
Vivenciei uma experiência curiosa na sessão de “Caché”, de Michael Haneke, durante um Festival do Rio. O início do filme trazia um plano estático de registro em VHS de uma câmera de segurança. De repente, a imagem começa a apresentar "defeitos", como se a fita estivesse rebobinando. Era parte da estética do filme, surpreendente como tudo que vem de Haneke, mas o público da sessão não estava preparado para isso e começaram a gritar que a cópia estava com problema, chamando o projecionista, que teve que gritar lá da cabine: "o filme é assim mesmo!"
Luiz Severiano Ribeiro, CEO do Kinoplex
O Cine Odeon é um ícone cultural do Rio e um dos pilares da história do cinema no Brasil. Comemorar seu centenário é celebrar não apenas um projeto arquitetônico, mas também um patrimônio afetivo que faz parte da identidade carioca. O Cine Odeon vive nas histórias das pessoas. Cada lembrança — das sessões clássicas, dos festivais, das noites de cinema — é parte da nossa inspiração. É essa memória que nos motiva a preservar o Odeon e reinventá-lo quantas vezes forem necessárias para mantê-lo vivo por muitas décadas.
Susana Schild, crítica
Lançamentos nacionais e estrangeiros, pré-estreias, festivais. O que não se assistiu no Cine Odeon? De “Central do Brasil”, com casa lotada, a retrospectiva Hitchcock, talvez nos anos 1990. Títulos e datas podem se embaralhar, mas, nos últimos anos, destaque para a Première Brasil do Festival do Rio. Unindo títulos e estilos, o badalar do sino, marca de início das sessões, e a lenta abertura das cortinas. A magia do cinema em estado puro. Deveria durar para sempre.
Hernani Heffner, gerente da Cinemateca do MAM
O Cine Odeon é um símbolo da resiliência das salas de exibição brasileiras. Mesmo sem ser uma sala distintiva do ponto de vista técnico ou arquitetônico, sobreviveu a sucessivas mudanças e esvaziamentos, e se tornou um marco cultural e templo da cinefilia carioca. Dentre as inúmeras sessões da sala que me marcaram: a estreia de “Star Trek”, de Robert Wise, para mais de mil pagantes; Eduardo Coutinho levando ao palco as personagens de “Santo Forte” e tantas outras. Tudo no Odeon nos lembra a magia das grandes salas.
Ruy Gardnier, crítico
Tenho memórias longínquas do Odeon. Frequentava os cinemas do Centro antes da revitalização da Cinelândia. Me lembro de uma sessão de “Cassino”, do Scorsese, que foi muito marcante. Quando o Grupo Estação assumiu o Odeon, no início dos anos 2000, lançamos a Sessão Cineclube em parceria com a revista Contracampo. Eu e o Eduardo Valente éramos os responsáveis pela programação e tivemos a oportunidade de realizar muitas sessões marcantes. Exibimos “O atalante”, de Jean Vigo, em uma cópia em 35mm. Tivemos outra sessão histórica dos documentários “Entreatos”, de João Moreira Salles, e “Peões”, de Eduardo Coutinho, com a presença dos cineastas. Ainda é marcante visitar o Odeon, que é um santuário.
