Cinco lições das artes marciais que ajudam na educação de cães
Quem vive o universo das lutas aprende que força só se transforma em virtude quando existe controle. Esse conceito ultrapassa os limites dos tatames, ringues e cages e aparece também na convivência com cães, especialmente os de grande porte, bastante comuns entre atletas e praticantes de artes marciais. Para o adestrador Bernardo Repsold, comportamento equilibrado não é fruto do acaso, mas resultado de construção diária, com rotina, consistência e necessidades bem atendidas desde o início.
“Pegar um cachorro pela primeira vez (ou adotar um novo cão) é uma experiência incrível, mas também vem com desafios. Muitos problemas de comportamento que aparecem nas primeiras semanas, como xixi fora do lugar, destruição, latidos e ansiedade, não acontecem ‘do nada’. Na maioria das vezes, eles são consequência de falta de rotina e de necessidades básicas não atendidas”, explica Bernardo.
Entre lutadores, especialmente do Jiu-Jitsu, raças como o pitbull são presença comum e ajudam a ilustrar esse processo. Apesar de ainda sofrerem preconceito, esses cães tendem a apresentar equilíbrio, resistência física e boa capacidade de aprendizado quando recebem direcionamento correto. Assim como no esporte, não é a prática em si, nem o animal, que define o resultado, mas quem ensina e conduz o caminho.
A rotina, por exemplo, é um dos pilares da educação canina. Horários definidos para alimentação, passeios, brincadeiras e descanso trazem previsibilidade, reduzem a ansiedade e ajudam o cão a entender o que se espera dele dentro de casa. A alimentação com horários fixos também cumpre papel semelhante ao da dieta de um atleta: vai além da nutrição, ajuda no controle emocional, fortalece o vínculo com o tutor e facilita o aprendizado sobre onde fazer xixi e cocô.
Outro ponto central é o gasto de energia. Cães, especialmente os de grande porte, que não se exercitam tendem a criar seus próprios estímulos, muitas vezes por meio de comportamentos indesejados, como destruição e latidos excessivos. Bernardo recomenda passeios de 30 a 40 minutos, preferencialmente pela manhã.
“Começar o dia com o corpo e a mente mais relaxados faz toda a diferença”, afirma.
Mas não é só o corpo que precisa trabalhar. A mente do cão também exige estímulos. Roer e morder fazem parte de comportamentos naturais e, quando não são direcionados, acabam se transformando em problemas. Mordedores naturais, ossos apropriados, chifres e brinquedos resistentes ajudam a canalizar essa necessidade.
“Isso acalma o cão e reduz muito a ansiedade”, explica o adestrador.
Por fim, socialização e obediência completam o processo. Nos primeiros meses de vida, o cão passa por uma fase decisiva de aprendizado, conhecida como imprinting, quando deve ter contato com pessoas, ambientes, sons e outros cães. A ausência desse contato costuma gerar medo e reatividade no futuro. Comandos básicos, como “senta”, “fica” e “aqui”, melhoram a comunicação e fortalecem o vínculo entre tutor e animal.
“Obediência não é dominar o cão, é criar clareza, respeito e confiança”, conclui Bernardo.
