Cientistas tentam clonar árvore centenária que caiu em SC para preservar DNA
A queda de uma das maiores araucárias do Brasil parece representar o fim de uma era — mas, para um grupo de cientistas, é apenas o começo de uma nova história. Pesquisadores da Embrapa Florestas anuciaram o início de uma operação para tentar preservar o DNA da árvore centenária por meio de clonagem. Conhecida como “Pinheirão”, a araucária tombou recentemente na Estação Experimental da instituição em Caçador e teve brotações coletadas para enxertia em laboratório.
315 comprimidos por dia: Padre mineiro com doença rara tem alta de hospital após infecção
Veja vídeo: Marinha do Brasil faz resgate de filipino em navio mercante em Natal
Com 44 metros de altura — equiparável a um prédio de 14 andares — e 2,45 metros de diâmetro à altura do peito (DAP), o exemplar era apontado como a quarta maior araucária do país, segundo levantamento coordenado pelo professor Marcelo Callegari Scipioni, da Universidade Federal de Santa Catarina. A idade exata da árvore nunca foi determinada, mas pesquisadores afirmam que ela possivelmente tinha séculos de existência. Também não foi possível cravar o dia exato em que a árvore tombou.
A equipe da Embrapa avaliou no local se ainda havia brotações viáveis para resgatar o material genético da árvore. Segundo o pesquisador Ivar Wendling, o ideal seria que a coleta tivesse ocorrido entre cinco e dez dias após a queda, mas os cientistas ainda encontraram material aproveitável.
Em seguida, o material foi encaminhado para enxertia em laboratório, processo que deve levar cerca de cem dias até que haja confirmação do sucesso da clonagem. A iniciativa busca preservar características consideradas raras da espécie, como altura, resistência e longevidade.
A coleta ocorreu apenas após o tombamento porque os brotos estavam localizados na copa da árvore. Segundo o bolsista Paulo César, o acesso seria praticamente inviável enquanto a araucária permanecesse em pé.
— Este material se encontra no alto, na copa da árvore e, em virtude de sua altura, o procedimento só seria possível por meio de escalada, o que era inviável nesta árvore, ou, infelizmente, com seu tombamento — explicou.
A idade do Pinheirão permanece desconhecida porque o tronco oco impedia a aplicação da dendrocronologia, método científico utilizado para contar anéis de crescimento e estimar a idade de árvores. Agora, com a árvore caída, pesquisadores devem retirar discos de madeira de uma região preservada do tronco, a cerca de cinco metros de altura, para tentar obter ao menos uma estimativa mínima de idade.
O Pinheirão se tornou referência científica e simbólica para pesquisadores brasileiros e estrangeiros ao longo das últimas décadas. Desde 2003, a árvore era frequentemente visitada durante atividades técnicas e expedições na estação experimental da Embrapa em Caçador. Instituições internacionais como a FAO, a Universidade Politécnica de Madri, o CATIE, da Costa Rica, e a Rede Internacional de Bosques Modelo, do Canadá, participaram de visitas ao local.
A pesquisadora Maria Augusta Doetzer Rosot afirmou que a árvore inspirou diversos trabalhos científicos conduzidos pela equipe. O gerente da Epagri, Anderson Feltrim, afirmou que a mobilização em torno do Pinheirão também reflete o vínculo emocional criado por pesquisadores e funcionários ao longo dos anos.
— Assim que constatamos a queda, acionamos a Embrapa, pois entendemos o valor científico de estudá-la — disse Feltrim.
A tentativa de clonagem segue experiência semelhante realizada anteriormente em Cruz Machado, onde outra araucária de grande porte foi clonada após queda em trabalho conduzido pela Embrapa Florestas.
O Pinheirão também foi um dos últimos registros do fotógrafo Zé Paiva e do cinegrafista Gustavo Fonseca antes do tombamento. Em novembro de 2025, os dois estiveram no local para captar imagens para o projeto “Reinvenção da Natureza”, do SESC. Segundo Paiva, a sensação de ter documentado a árvore pouco antes da queda foi marcante.
— É muito forte a sensação de sermos os últimos fotógrafos documentando essa árvore tão impressionante — afirmou.
Para o fotógrafo Zé da Paiva, clicar uma das maiores araucárias do país foi experiência "impressionante"
Zé da Paiva - Embrapa
Pesquisas recentes coordenadas por Scipioni também investigam a relação entre mudanças climáticas e a queda de árvores gigantes no Sul do Brasil. Segundo o pesquisador, eventos extremos de chuva têm provocado saturação do solo e comprometido a sustentação das raízes de árvores monumentais, especialmente durante períodos associados ao fenômeno El Niño.
— O fator determinante para o tombamento não é o vento, mas sim a saturação do solo, que perde sua resistência e compromete a ancoragem das raízes — explicou o professor.
