Fraiburgo, no Meio-Oeste catarinense, iniciou os experimentos em 1963 e, quatro anos depois, identificou o potencial da fruta para transformar a economia local O que fez Fraiburgo, situado no Meio-Oeste de Santa Catarina, ficar conhecido como a Terra da Maçã? Por trás do apelido está uma história de apostas, mudas trazidas da Europa e experiências que mudaram os rumos da economia local.
O caminho até se tornar referência no cultivo da fruta começou há mais de seis décadas, quando a maçã ainda era apenas uma das espécies testadas na região. Em 1963, o município recebeu 100 mil mudas europeias e um campo experimental que ajudaria a definir o futuro da produção agrícola.
Quatro anos depois, os primeiros resultados apontaram quais frutas tinham melhor adaptação ao clima local. A história da maçã em Fraiburgo começou em um período de transformação econômica.
A exploração da madeira havia movimentado a região, mas o esgotamento desse ciclo levou empreendedores a buscar alternativas para manter a atividade produtiva e criar novas oportunidades de desenvolvimento. Entre as possibilidades estavam o reflorestamento, o cultivo de videiras e a produção de vinhos.
As frutas de clima temperado também entraram nos planos, influenciadas pelos hábitos e conhecimentos trazidos por imigrantes europeus. A proposta era experimentar espécies que pudessem se adaptar às condições climáticas locais.
Um dos principais marcos dessa história ocorreu em 1963, quando Fraiburgo recebeu um amplo campo experimental voltado à pesquisa de adaptação e produtividade de diferentes frutíferas. Por meio de uma sociedade com um grupo francês, chegaram da Europa, de navio, as primeiras 100 mil mudas.
O material havia sido retirado das plantas ao fim do inverno europeu e permaneceu por cerca de cinco meses em câmaras frias, sob a supervisão do engenheiro agrônomo Roger Biau. O objetivo era descobrir quais delas apresentariam melhores resultados nas condições de solo e clima de Fraiburgo.
Na década de 1960, os recursos tecnológicos disponíveis eram limitados, e os produtores ainda precisavam desenvolver conhecimentos e práticas adequados às novas culturas. As experiências envolveram diferentes variedades de frutas e técnicas de cultivo.
Nem todas as variedades apresentaram resultados promissores. Parte do material que demonstrou potencial foi mantida e teve continuidade em pesquisas posteriores, contribuindo para o desenvolvimento da fruticultura na região.
Os primeiros resultados mais conclusivos apareceram em 1967, quatro anos após o início do projeto. As observações indicaram que a macieira era uma das frutíferas que melhor haviam se adaptado ao clima local.
Outras espécies, como pêssego, nectarina, ameixa e uva, também apresentaram adaptação. A maçã, porém, reunia condições que favoreciam seu desenvolvimento comercial.
Além da resposta ao clima, havia uma oportunidade de mercado. Na época, o Brasil dependia da importação para abastecer o consumo de maçãs, o que indicava espaço para uma produção nacional capaz de atender parte dessa demanda.
Com os resultados das experiências, o conhecimento desenvolvido em Fraiburgo começou a ultrapassar os limites do município. A partir das conclusões obtidas no campo experimental, mudas de macieiras passaram a ser comercializadas para produtores agrícolas de Santa Catarina, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul.
Ao mesmo tempo, começaram a ser formados os primeiros pomares na cidade. A atividade deixou gradualmente de ser apenas uma experiência de pesquisa e passou a integrar os planos de produção de agricultores e empreendedores.
Embora as experiências tenham começado no início da década de 1960, a produção comercial em grande escala só ganhou impulso em 1976. O início exigiu investimentos e trabalho em uma atividade ainda pouco conhecida pelos produtores locais.
Era necessário preparar o terreno, estruturar os pomares e adquirir equipamentos adequados para uma cultura que apresentava necessidades diferentes das atividades agrícolas já estabelecidas. A expansão dos plantios também exigiu a ampliação da estrutura produtiva.
Com o tempo, a formação de viveiros, a instalação de empresas e a participação de novos empreendedores fortaleceram a cadeia ligada à maçã. A expansão da cultura teve reflexos no desenvolvimento do município.
A produção de maçãs abriu espaço para novos negócios, movimentou investimentos e contribuiu para a formação de uma identidade econômica ligada à fruticultura. O crescimento atraiu pessoas interessadas nas oportunidades de trabalho e empreendimento.
A atividade passou a envolver diferentes etapas, desde a produção de mudas e o cultivo até a comercialização da fruta. Fraiburgo chegou a figurar entre os municípios brasileiros de maior arrecadação, em um período de forte crescimento econômico.
Com a consolidação da produção, Fraiburgo ampliou sua presença no mercado brasileiro e também alcançou compradores internacionais. As décadas de 1980 e 1990 são apontadas no histórico municipal como um período de auge produtivo.
Naquele momento, a produção chegou a abastecer grande parte do mercado brasileiro, enquanto uma parcela expressiva era destinada à exportação, inclusive para os Estados Unidos e países da Europa. A escolha das variedades também evoluiu ao longo dos anos.
Entre as que ganharam espaço estavam Gala, Fuji e híbridos desenvolvidos a partir desses grupos, selecionados e aprimorados conforme as condições de cultivo e as exigências da produção. No fim da década de 1990 e no início dos anos 2000, a produção enfrentou mudanças nas condições climáticas e do solo, além de desafios relacionados à disponibilidade de mão de obra e à redução dos investimentos em novos plantios, conforme o material histórico da prefeitura.
Esses fatores afetaram a trajetória da atividade e contribuíram para mudanças no cenário produtivo. Fraiburgo, que já havia ocupado posição de destaque nacional, passou a conviver com uma realidade diferente daquela vivida durante o auge da expansão dos pomares.
Ainda assim, a maçã permaneceu como parte importante da economia e da identidade local. O conhecimento acumulado ao longo das décadas, a estrutura desenvolvida para o cultivo e a presença de produtores ligados à atividade mantiveram a fruticultura entre as referências do município.
Outra mudança apontada no histórico de Fraiburgo é a diversificação das atividades rurais. Se em determinado período a maçã predominava na economia agrícola, novas culturas passaram a ganhar espaço, ampliando as possibilidades de produção.
O município passou a reunir diferentes atividades, incluindo o cultivo de grãos, alho e outras culturas, além da criação de gado. A diversificação representa uma transformação na forma como a economia rural se organiza, com a busca por novas oportunidades produtivas.
O título de Terra da Maçã está ligado a uma sequência de decisões que começou com a busca por alternativas econômicas após o ciclo da madeira. A instalação do campo experimental, a chegada de mudas europeias, os resultados das pesquisas e a expansão dos pomares formaram a base para o desenvolvimento da atividade.
A experiência também mostra como a produção agrícola depende de investimentos, conhecimento técnico e adaptação às condições locais. Em Fraiburgo, foram necessários anos de testes até que a maçã se firmasse como uma cultura de importância comercial.
A trajetória iniciada nos anos 1960 permanece como um dos capítulos mais marcantes da história de Fraiburgo, que segue ligada à fruticultura mesmo diante das mudanças na produção e da diversificação da economia rural. Victória Veiga é repórter do portal ND Mais na redação de Chapecó, de onde escreve matérias sobre o que há de mais importante no Oeste de Santa Catarina.
Acompanha e assina notícias sobre segurança pública, trânsito, agronegócio e infraestrutura, cobrindo Chapecó, Concórdia, Xanxerê, São Miguel do Oeste e cidades do Meio-Oeste e Extremo-Oeste catarinense. Formada em Jornalismo pela UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), atua na área desde 2024 e tem experiência em jornal impresso e digital, além de atuação na área de marketing, o que contribui para uma comunicação estratégica e multiplataforma.
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