Ciclovias desiguais e cheias de problemas complicam a vida de ciclistas, pedestres e motoristas no Rio

 

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Ao tentar atravessar a rua fora da faixa de pedestres, a mãe, com o filho pequeno no colo, acompanha atenta o fluxo dos automóveis, mas não basta: a situação de risco inclui, muito perto dela, um entregador equilibrando a pilha de caixas sobre um carrinho para descarregar seus produtos e uma scooter elétrica avançando pela mesma ciclofaixa — delimitada por sinais pintados no asfalto — por onde um carro inevitavelmente avança para poder estacionar. A cena, flagrada na sexta-feira passada, na Rua do Catete, na Zona Sul do Rio, resume um quebra-cabeça urbano difícil de resolver. Pedestres, ciclistas e motoristas dividem um espaço confuso, apesar da sinalização, em que a prioridade acaba sendo de quem se arrisca primeiro.

Acidentes acontecem

Nem sempre dá certo: naquele mesmo dia, um pouco adiante, dois entregadores pedalavam em direções opostas e bateram de frente na esquina das ruas Arthur Bernardes e do Catete, depois que um caminhão, estacionado corretamente em área de carga e descarga, abriu as portas sobre a ciclofaixa, comprometendo a visibilidade de quem passava.

O acidente deixou um deles com ferimentos leves no braço e as bicicletas danificadas. Por lá, o espaço destinado à passagem de ciclistas, inaugurado no fim de 2024, fica entre a área de estacionamento, que é colada ao meio-fio, e as pistas por onde passam os carros. Não muito longe dali, porém, no trecho da mesma Rua do Catete, mas antes do Largo do Machado, uma ciclovia propriamente dita, com espaço segregado por tachões no chão, fica junto à calçada, enquanto os carros estacionados se enfileiram mais perto das pistas de rolamento.

— A configuração mais adequada seria ter a calçada, depois a ciclovia e, em seguida, o estacionamento. Nesse trecho (onde houve o acidente), além da faixa não ser contínua, não há segregação física. A ausência de uma separação mais efetiva acaba transformando o espaço, na prática, em uma faixa compartilhada — explica Viviane Zampieri, mestranda em Engenharia de Transporte e integrante da Comissão de Segurança no Ciclismo da Cidade do Rio.

O entregador Leonardo Lopes, de 40 anos, tem razões de sobra para concordar com a especialista: carrega uma cicatriz no braço direito, lembrança do dia em que foi atropelado por um motociclista depois de ter a visibilidade comprometida por um caminhão em operação de descarga.

— Eu saí de trás do caminhão e a moto me atingiu, não dava para enxergar — afirma. — É muita agitação, tem que estar muito ligado. Aqui é tudo aleatório. Andar de bicicleta no Rio não é para amadores.

Segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego da cidade (CET-Rio), o trecho da Rua do Catete após a instalação da ciclovia teve aumento de 44% no número de ciclistas em relação a 2024 — por lá passam 300 usuários por hora. A companhia atribui a alternância no posicionamento da ciclovia e da ciclofaixa a questões operacionais.

Da Praça José de Alencar ao Largo do Machado, onde o estacionamento é posicionado em ângulo de 45°, a ciclovia foi instalada entre o meio-fio e as vagas. Adiante, segue paralela ao estacionamento, como ciclofaixa, com o objetivo de “reduzir conflitos com carga e descarga e evitar a travessia de pedestres entre carros e ciclistas”.

O modelo em que a ciclovia é instalada entre a calçada e a área de estacionamento, apontado por especialistas como o mais seguro, traz transtornos em outras regiões da cidade. Na Rua Marquês de Pombal, no Centro, motoristas enfrentam dificuldades para cruzar à esquerda na Rua Irineu Marinho. Como a faixa de estacionamento, afastada da calçada, segue continuamente até o fim da via, a presença de carros parados compromete a visibilidade dos ciclistas e aumenta a insegurança na conversão.

Além disso, a ciclovia chama atenção por não se conectar a outros trechos da rede. O trecho delimitado para ciclistas começa e se encerra na própria Marquês de Pombal. Segundo Viviane Zampieri, esse tipo de intervenção que “leva a lugar nenhum” acaba sendo adotado para cumprir metas, sem garantir utilidade prática.

Para a engenheira, é fundamental dialogar com quem utiliza o entorno para entender a usabilidade do espaço.

— Se ficarmos presos apenas aos manuais técnicos, sem considerar o uso real, acabamos criando zonas de conflito que não favorecem ninguém. O motorista precisa reduzir a velocidade, sinalizar e fazer a conversão e, mesmo com cuidado, o risco permanece — afirma.

(*Estagiária sob a supervisão de Leila Youssef).