Ciclo menstrual não interfere no desempenho cognitivo, comprova estudo

 

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Uma meta-análise com mais de 100 estudos de diferentes países mostrou que não há como afirmar que mudanças hormonais do ciclo menstrual podem afetar a capacidade cognitiva das mulheres, como a memória, atenção e raciocínio. A pesquisa, publicada na revista científica PLOS One, foi comandada pelo pesquisador Daisung Jang, da Universidade de Melbourne, na Austrália.

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A revisão coletou dados de quase quatro mil mulheres que foram testadas em relação à atenção, funções executivas, inteligência, habilidades motoras, criatividade e capacidades verbais e espaciais durante seus ciclos menstruais. A equipe de pesquisadores ainda excluiu artigos com variáveis que poderiam alterar a capacidade cognitiva.

“Essa falta de descobertas é um tanto surpreendente, dadas as inúmeras mudanças fisiológicas documentadas que ocorrem ao longo do ciclo”, afirmam os pesquisadores no artigo.

Durante anos, a menstruação foi usada para discriminar mulheres, taxá-las de preconceitos. Por ser um processo que envolve hormônios, muitas pessoas relacionam qualquer alteração em diferentes âmbitos à menstruação. A evidência desses fatos auxilia a colocar um fim e desconstruir esses mitos.

Os resultados da pesquisa ainda não descartam totalmente a possibilidade de mudanças no cérebro feminino por causa da menstruação, porém o estudo também sugere que algumas diferenças cognitivas sentidas por mulheres podem estar relacionadas a fatores individuais, como sensibilidade hormonal, e não a um padrão universal.

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Os autores também apontaram limitações em alguns dos estudos analisados. Muitos trabalhos utilizaram amostras pequenas e adotaram metodologias diferentes para avaliar as participantes, o que dificulta comparações diretas. Além disso, grande parte das pesquisas foi conduzida em países desenvolvidos, nos quais fatores como acesso à educação, nutrição adequada e condições de saúde podem influenciar os resultados.

Eles afirmam que mais estudos devem ser realizados com maior diversidade entre pessoas, países e regiões. “Entre os fatores que devem ser considerados estão idade, uso de contraceptivos hormonais, gravidez, proximidade da menarca (a primeira menstruação) e da perimenopausa”, escreveram.

Outros tabus desmistificados

Durante décadas, a menstruação foi cercada por crenças populares que buscavam explicar, simplificar ou até mesmo controlar um processo completamente natural do corpo feminino. Como por exemplo, a proibição de fazer sexo durante o período ou até mesmo exercícios físicos. Estudos já mostraram que não há razões médicas para evitar nenhuma dessas atividades.

Ter relações sexuais durante a menstruação é possível, embora seja importante considerar o risco de gravidez, especialmente em ciclos irregulares, nos quais a ovulação pode ocorrer mais cedo.

Por outro lado, a atividade física não só é segura, como também pode ajudar a aliviar sintomas como cólicas menstruais, graças ao aumento do fluxo sanguíneo e à liberação de endorfinas.

Um outro tabu que surgiu em meados da década de 1970 e ganha força até nos dias de hoje é a ideia de que os ciclos de mulheres que vivem juntas tendem a se alinhar. Estudos recentes demonstraram que a sincronia menstrual não existe do ponto de vista científico. Não foram encontradas evidências sólidas que confirmem que os ciclos menstruais se influenciam mutuamente.

Jewel Kling, diretora de saúde da mulher na Clínica Mayo, no Arizona, afirma que a origem dessa crença tem mais a ver com vieses estatísticos e percepção subjetiva do que com um fenômeno biológico verificável.

E reconhece por que tantas mulheres acreditam tê-lo vivenciado. Se dois ciclos coincidem por acaso, a memória registra a coincidência e a transforma em um padrão. Em contrapartida, quando não coincidem, esses momentos passam despercebidos.

Essa explicação é ainda corroborada por Rachel Jensen, médica e bolsista Darney-Landy do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, que observou em entrevista ao The Guardian que a variabilidade natural na duração dos ciclos menstruais alimenta ainda mais a ilusão de sincronia. Como o ciclo menstrual de cada mulher pode durar entre três e sete dias, é comum que seus ciclos pareçam se alinhar em algum momento, mesmo que não comecem ao mesmo tempo.

Confira alguns fatores que podem afetar a regularidade do ciclo menstrual:

Composição corporal: um índice de massa corporal elevado está frequentemente associado a ciclos menstruais irregulares.

Idade: tanto mulheres muito jovens quanto aquelas próximas da menopausa tendem a apresentar variações significativas.

Métodos contraceptivos: especialmente os hormonais, que modificam a frequência e a duração do sangramento.

Condições médicas: como síndrome dos ovários policísticos, distúrbios da tireoide ou desequilíbrios hormonais.

Estilo de vida: tabagismo, alimentação, estresse e níveis de atividade física também desempenham um papel importante.