Ciclo de técnicos, saída de presidente e falhas acumuladas: por que o Tottenham flerta com o rebaixamento na Premier League
Cobrança de escanteio, disputa de bola na área, menos de dez minutos de tempo regulamentar sobrando. Richarlison briga e, num último esforço, consegue desviar a bola para João Palhinha, no limite da linha de impedimento, balançar as redes. Foi assim que o Tottenham marcou, ontem, um único gol dos 62 que o lanterna e já rebaixado Wolverhampton levou nesta Premier League. O 1 a 0 foi a primeira vitória dos Spurs pela liga em 2026, mas não os tirou da zona de rebaixamento, já que o West Ham, concorrente direto, venceu o Everton (2 a 1).
Na 18ª colocação e com apenas 34 pontos (a dois do West Ham, primeiro fora do Z3), a equipe tenta escalar o quase fundo do poço em que se colocou nesta temporada. Campeões da Liga Europa em 2025 e donos de campanha de oitavas de final na Champions League nesta temporada, os Spurs têm vivido um inferno particular na Premier League.
Na temporada passada, o clube já havia terminado em 17º, mas correu pouco risco dada a campanha desastrosa do Leicester City, 18º, que terminou incríveis 13 pontos atrás. Desempenho que culminou na demissão do ténico Ange Postecoglou, mesmo com o primeiro título em 17 anos.
A troca constante de técnicos foi um expediente da gestão do antigo presidente executivo do clube, Daniel Levy. Nos últimos 15 anos, passaram pelo clube comandantes com perfis muito diferentes: André Villas-Boas, Tim Sherwood, Mauricio Pochettino, José Mourinho, Nuno Espírito Santo e Antonio Conte vieram antes de Postecoglou. Destes, Pochettino foi o mais longevo (293 jogos) e bem-sucedido. Comandou o clube na campanha e na final da Champions de 2018/19, que terminou em derrota para o Liverpool.
Levy, alvo de críticas dos torcedores, deixou o cargo em setembro, depois de 24 anos. O último treinador em que apostou foi Thomas Frank, sucesso no Brentford, mas decepcionante em Londres. A nova gestão, comandada pelo CEO Vinai Venkatesham e pelo diretor esportivo Johan Lange, ambos sob a supervisão indireta da família Lewis, proprietária, também procurou solução para a crise no banco de reservas: contratou o “bombeiro” Igor Tudor, demitido em menos de dois meses, e agora aposta suas fichas no exigente e autoral Roberto De Zerbi, que ganhou a primeira no comando do clube neste sábado.
Saúde financeira x sucesso esportivo
Sob a gestão de Levy, o clube inaugurou o Tottenham Hotspur Stadium, uma das melhores e mais modernas arenas do mundo, que custou cerca 1 bilhão de libras (cerca de 6,7 bilhões de reais). A vida financeira dos Spurs decolou sob seu comando, e o clube se solidificou no “big 6” da Premier League. Mas a gestão do futebol poucas vezes encontrou a mesma estabilidade.
Nos últimos anos, a equipe teve em seu elenco jogadores cobiçados por gigantes europeus e vivendo alguns dos melhores momentos de suas carreiras, como os atacantes Harry Kane e Son, o goleiro Hugo Lloris, o meia Eriksen e o zagueiro Alderweireld, que estiveram em campo na final da Champions. Mas dificilmente conseguia dar o "passo final" para finalmente se se transformar num clube com real capacidade de desafiar os rivais e ganhar títulos. Isso acontecia por uma série de fatores: o principal era a questão financeira.
Com Levy, o Tottenham mantinha uma estrita política salarial, sem se render aos valores vultuosos praticados por times como a dupla de Manchester ou o Chelsea. Por esse e outros motivos, sofreu várias derrotas nas janelas de transferências ao longo dos últimos. E as constantes trocas de técnicos em nada ajudaram na evolução do projeto de futebol. Nos seus últimos meses no comando, Pochettino reclamou muito da falta de voz nas decisões de mercado e contratos e da postura do clube no mercado.
Dificuldades com fins de ciclos
Levy também teve dificuldade em encerrar ciclos, o que aos poucos fez o clube se esvaziar esportivamente e como unidade. Maior artilheiro da história do clube (280 gols) e hoje postulante à Bola de Ouro no Bayern de Munique, Harry Kane acumulou frustrações, viu uma promessa de venda não ser cumprida e aceitou rapidamente uma oferta dos alemães com salários em patamares parecidos ao que recebia em Londres. Mesmo assim, o Tottenham só o vendeu quando a negociação rondou os 100 milhões de euros, na maior transferência do futebol alemão.
O antigo mandatário era um “pesadelo” para equipes que queriam comprar seus atletas, sempre pedindo alto, como explica Jack Lang, repórter do The Athletic. Lang pondera, porém, que a saída do dirigente contribuiu para o momento conturbado.
— Ele nem sempre era muito popular, reclamavam, mas era um cara visível, estava nos jogos. Os torcedores tinham alguém para xingar. Agora, é a família Lewis e eles nunca falam com a imprensa. Muita pressão está caindo em cima do treinador. Além disso, o time teve muitas contusões de vários dos melhores jogadores, como Kulusevski, Maddison, Solanke e Kudus.
O Tottenham tenta salvar a temporada e evitar um vexame nas últimas rodadas: encara Aston Villa, Leeds, Chelsea e Everton até o fim da atual edição da Premier League, enquanto o West Ham enfrenta Brentford, Arsenal, Newcastle e Leeds.
Ontem, o Arsenal voltou a vencer e reassumiu a liderança . Com gol de Eze, os gunners fizeram 1 a 0 no Newcastle. Agora, estão três pontos à frente do Manchester City, que tem um jogo a menos. Também ontem, os citizens viraram (2 a 1) para cima do Southampton e foram à final da Copa da Inglaterra.
