Ciça avalia em 80% as chances de permanecer à frente da bateria da Viradouro
“Não esperamos a saudade pra cantar”, diz o samba da Unidos do Viradouro, campeã do carnaval 2026 com um desfile consagrador na segunda-feira passada. Pois os torcedores da escola de Niterói e fãs da folia em geral não devem sentir saudades de Mestre Ciça, maestro da bateria e do enredo vencedor, tão cedo.
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— Quem sabe mais um ano? Tenho 80% de certeza de que estarei de volta. Isso aqui é que nem cachaça — brincava Ciça na concentração. — O povo do samba está feliz e fez com que a Viradouro ganhasse este carnaval. O legado que eu deixo é de trabalho, de respeito às pessoas. Ver esse grupo aqui, de tantas gerações que passaram pela minha mão, é viver um momento único.
Juliana Paes e Ciça emocionados
Clara Radovicz | Riotur
A chuva forte que caiu no Rio no fim da tarde deste sábado alagou o entorno do Sambódromo e as beiradas da pista de desfiles, que apresentavam água acumulada quando aconteceu o show de abertura do Desfile das Campeãs — em que puxadores do Grupo Especial receberam cantores como João Gomes e Michel Teló — e a apresentação da Mangueira, sexta colocada no Carnaval de 2026 e primeira a desfilar nas Campeãs.
No discurso da concentração, o puxador Dowglas Diniz elogiou os mestres de bateria Rodrigo Explosão e Taranta Neto, dizendo que “nada é fácil para vocês”, e pediu aplausos para a dupla Cintya e Matheus, porta-bandeira e mestre-sala, por representar a “dança ancestral”. As duas referências foram queixas contra as notas recebidas nos dois quesitos, que não foram 10 de ponta a ponta.
A escola começou a desfilar poucos minutos depois das 22h — o que prenunciava um desfile até o dia clarear no domingo —, sob chuva fraca. Cintya (que recebeu o Estandarte de Ouro de porta-bandeira) e Dowglas dançaram com garra, à frente de uma faixa que pedia “respeito com a dança ancestral do casal Furacão”.
A partir da Imperatriz Leopoldinense, a chuva parou e o clima de festa imperou, com ligeiras insinuações sobre o resultado e o carnaval de 2027. O casal de mestre-sala e porta-bandeira da escola de Ramos, Phelipe Lemos e Rafaela Teodoro, se despediu da escola. A Rádio Tamborim diz que os dois estarão na estreante União de Maricá no próximo ano, assim como o carnavalesco Leandro Vieira, que acumulou as duas escolas em 2026 e terá que optar por uma.
O Salgueiro, também em clima festivo, agradeceu à Liga Independente das Escolas de Samba — em 2025, a alvirrubra da Tijuca reclamou ao ficar na sétima colocação; optou pelas pazes e acabou em quarto lugar: todos felizes.
A segunda metade da noite começou com a Unidos de Vila Isabel, que brincou muito mais na pista do que no desfile oficial. O peso das fantasias dos carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Hadad gerou muitas críticas dos desfilantes, que passaram, em muitos casos, sem chapéus e outros componentes, brincando carnaval.
A Beija-Flor, vice-campeã, começou agradecendo e dando os parabéns à coirmã Viradouro, mas também mostrou uma leve insatisfação pela derrota (por um décimo) e saudou o patrono Aniz Abraão David como “o maior sambista do Brasil”. A escola passou com a garra de sempre e alguns componentes com faixas de vice-campeões. Os dois puxadores, Nino e Jéssica (ela, vencedora do Estandarte de Ouro de Revelação), foram bem ouvidos no sistema de som, o que não aconteceu no desfile oficial.
O dia clareava quando o puxador Wander Pires e seu topete vermelho cantaram sambas campeões da Viradouro, no aquecimento para o desfile consagrador (de novo!), que terminou com o tradicional arrastão por volta das 7h de domingo, depois de mais uma forte dose de emoção. A luz do dia valorizou ainda mais as alegorias e fantasias do carnavalesco Tarcísio Zanon.
— É a primeira vez que eu componho o samba para uma escola e sou campeão — dizia o humorista Marcelo Adnet, um dos autores do samba. — Para mim, é uma das maiores maravilhas do mundo. Com cinco anos eu me encantei pelo carnaval e hoje, aos 44, sou campeão do carnaval.
Foi um ano maravilhoso: compus para Viradouro, Unidos da Tijuca, Botafogo Samba Clube e União de Maricá, que subiu.
A musa Juliana Paes, que voltou à escola a convite de Ciça, também comemorava:
— É uma emoção diferente, de agradecer e retribuir todo o amor que a gente recebeu. Quando a gente entrou nessa avenida, a gente só tinha uma certeza: de que a gente amava muito o Ciça. Hoje, temos duas: a gente ama muito, mas o público e a Sapucaí também amam. Hoje, não sou rainha de bateria, eu sou uma súdita — disse ela, garantindo que ficará na escola, “de algum jeitinho”.
