A cuidadora de idosos Cristiane Baptista estava a caminho de seu trabalho quando foi atingida na cabeça por um fio solto de um poste da Rua Maria Antônia, no Engenho Novo, bairro da Zona Norte do Rio.
A mulher de 51 anos ficou com o cabo preso em seu cabelo e viveu um momento de tensão com medo de levar uma descarga elétrica, mas, ao menos, o fio não estava energizado.
Este é apenas um entre diversos acidentes e complicações ocasionados pela "chuva de fios" que cai dos postes por toda a cidade e assola a rotina dos cariocas.
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— Eu estava descendo a (Rua) Maria Antônia e um fio literalmente caiu na minha cabeça, grudou no meu cabelo e puxou, eu andando e o fio puxando.
Eu me assustei muito.
O pessoal que estava passando perto que me ajudou a tirar.
Por sorte, o fio não estava energizado e não aconteceu nada pior — contou Cristiane.
O caso dela não é isolado, nem restrito à cidade do Rio.
Um fio baixo se enrolou no pescoço do professor de matemática e influenciador Paulo Pereira enquanto ele seguia de moto com a mulher, Natália, pela Rua Fagundes Varela, no Ingá, em Niterói, nesta semana.
Apesar do susto, o educador está bem e não sofreu grandes danos físicos.
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Depois do sustos, Cristiane Baptista brinca com sua amiga Joanildo Gomes, que aponta para um dos fios soltos do Engenho Novo
Amanda Rosa
Cristiane vive no Engenho Novo e denuncia que o bairro todo está tomado por pedaços de fios caídos em todos os cantos, o que é verdade.
O GLOBO percorreu cinco ruas da região e, em todas, era possível observar uma vastidão de cabos cortados, pendurados em postes, em fiações maiores, ou até jogados no chão.
Muitos desses fragmentos estão em pontos de grande movimentação de pessoas, como portas de estabelecimentos, rente a mesas de bares, em cima de carros que estavam sendo reparados em oficinas mecânicas.
Cansados da convivência com a indesejada chuva de cobre, alguns de seus vizinhos até se colocam em risco para retirar os pedaços de cabos da rua.
Fátima Carvalho costuma passear com a sua cadela pelas principais ruas do Méier e não se aguentou ao ver um emaranhado de fios ligados solto no chão na Rua Dias da Cruz.
A motorista de 63 anos pegou a fiação com as próprias mãos e o amarrou no poste do qual eles derivam, o que não é recomendado por especialistas.
— Tem vários sinais desativados por aqui e pelos bairros próximos porque eles (funcionários da Light) vêm, consertam, e no dia seguinte, alguém vai e rouba o fio.
Eu acho que tinha que ter uma fiscalização noturna — afirma Fátima, que também observa que há grande incidência de furto de cabos na região, o que é um dos principais motivos de haver tantos fios picados.
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Fios amarrados no poste por fátima na Rua Dias da Cruz, no Méier
Amanda Rosa
O incômodo com cabos caídos também é sentido por moradores e comerciantes da região central do Rio.
Aos 88 anos, Antônio Ribeiro, que tem dificuldades para andar, acaba se apoiando em alguns postes ao transitar pela calçada.
Para atravessar a Rua Washington Luís, na Lapa, na manhã de quarta, ele se escorou em um deles, que estava repleto de fios caídos a poucos metros de seu braço, colocando-o em risco.
A sensação de perigo perto das fiações soltas também é sentida em Santa Teresa, que fica a poucos metros dali.
— Eu fico insegura de andar perto desses fios, tenho medo de levar um choque, me acidentar — conta Mariana Silva, agente de saúde de 40 anos, que mora no bairro do tradicional bondinho.
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Para além do medo de ferimentos, a possibilidade de os fios causarem danos materiais também acende um alerta.
O geógrafo Hugo Costa vive em Olaria e viu uma cena no bairro que o assustou:
— Uma cordoalha de aço se enrolou na roda traseira de um Jeep Renegade e rasgou a lataria do carro há alguns meses.
O que mais tem na região é fio caído pelas ruas.
Roubam, deixam largado o resto e ninguém organiza — denuncia o educador.
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Para a apuração desta matéria, O GLOBO esteve em diversas ruas do Centro, de Santa Teresa, da Glória, do Catete, de Botafogo, da Tijuca, de Vila Isabel, do Engenho Novo e do Méier.
Em todos estes locais foram avistados pedaços de fios soltos de postes, com exceção de ruas onde a fiação é subterrânea.
Nos bairros da Zona Norte visitados, onde a situação é mais crítica, o espaço entre um cabo caído e outro é de poucos metros em quase todas as localidades.
Além disso, a reportagem também recebeu relatos de fios jogados em postes de Marechal Hermes, Ramos, Olaria, também da Zona Norte, e em Jacarepaguá, na Zona Sudoeste.
