Chuva, crateras e mortes: Portugal enfrenta colapso climático e amplia pressão sobre o governo; veja vídeo
Portugal atravessa semanas de instabilidade climática intensa, com chuvas persistentes, deslizamentos de terra, crateras em vias públicas e pelo menos 16 mortes desde o fim de janeiro. As tempestades Kristin, Leonardo e Marta atingiram sobretudo as regiões Centro e Sul, deixando milhares de desalojados, cidades parcialmente isoladas e críticas crescentes à atuação do governo diante da crise.
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Segundo a CNN Portugal, quase duas dezenas de estradas estavam condicionadas na manhã desta sexta-feira (13) em oito concelhos do distrito do Porto, a maioria por desmoronamentos e inundações. Gondomar permanece entre os municípios mais afetados, seguido por localidades como Vila Nova de Gaia, Amarante, Marco de Canaveses, Felgueiras, Paços de Ferreira e Baião. O Plano Distrital de Emergência e Proteção Civil da Área Metropolitana do Porto continua ativo.
Veja vídeo:
Viaduto em rodovia que liga Lisboa e Porto desaba em meio a tempestades
Em Coimbra, parte da autoestrada A1, principal ligação entre Lisboa e Porto, segue interditada após o desabamento provocado pela rutura parcial de um dique do rio Mondego, que abriu uma cratera no quilômetro 191,2. A circulação foi interrompida preventivamente nos dois sentidos entre Coimbra Sul e Coimbra Norte, sem previsão de reabertura. A prefeitura informou que cerca de 3.500 pessoas foram encaminhadas a centros de abrigo ou retiradas de áreas de risco, enquanto autoridades alertam para a possibilidade de novos colapsos em diques da região.
Crateras, sacos de areia e cidades às escuras
Também de acordo com a CNN Portugal, o Passeio Marítimo de Algés, em Oeiras, permanece encerrado por tempo indeterminado após a formação de “crateras profundas” causadas pela erosão. O local, tradicional espaço de lazer à beira do Tejo e palco de grandes eventos, tornou-se um dos símbolos mais visíveis dos danos estruturais provocados pelo mau tempo.
As águas da cheia do rio Sado cobrem as ruas de Alcácer do Sal, no sul de Portugal
PATRÍCIA DE MELO MOREIRA/AFP
Nesta quinta-feira à noite, um novo abatimento foi registado na Rua Alão de Morais, em São João da Madeira, no distrito de Aveiro, junto à sede administrativa dos Bombeiros Voluntários. A via, que liga a freguesia de Arrifana a serviços como a PSP e o Centro de Emprego, teve uma faixa encerrada por razões de segurança após o piso ceder. A autarquia informou que equipes municipais estão no local para avaliar e reparar os danos. O funcionamento operacional dos bombeiros não foi afetado.
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Durante a madrugada, em Ponte de Lima, no distrito de Viana do Castelo, três pessoas deixaram suas casas por orientação da Proteção Civil após um deslizamento de terras atingir a freguesia de Refoios do Lima. Outras seis habitações foram consideradas em risco, embora os moradores tenham optado por permanecer. Segundo os bombeiros locais, não houve danos estruturais graves, mas as residências foram invadidas por água e lama.
Na zona residencial de Coimbra, moradores continuam a improvisar barreiras com sacos de areia enquanto dezenas de garagens seguem inundadas. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram ruas transformadas em rios, carros submersos e moradores tentando salvar pertences sob chuva constante.
O número de clientes sem energia elétrica voltou a subir. Dados mais recentes da E-Redes, citados pela CNN Portugal, indicam que cerca de 45 mil clientes estavam sem fornecimento no continente na manhã desta sexta-feira, sendo 36 mil nas áreas mais críticas afetadas pela depressão Kristin. No auge da crise, mais de um milhão de clientes chegaram a ficar sem eletricidade. A empresa alertou a população para que se mantenha afastada de infraestruturas elétricas danificadas e reporte ocorrências às autoridades.
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Patricia De Melo Moreira/AFP
Morador de Coimbra, o brasileiro João Moreira, de 22 anos, descreveu ao GLOBO a rotina sob o mau tempo:
— Todo dia chove há um mês. Nem na Irlanda vi tantos dias de mau tempo consecutivos. — Segundo ele, há bairros onde o comércio funciona de forma intermitente e o acesso depende do nível das águas.
Os impactos atingem também o setor produtivo. João Bastos, secretário-geral da Federação das Associações de Suinicultores, afirmou à CNN Portugal que as tempestades provocaram “uma devastação muito grande da suinicultura portuguesa”, sobretudo na região de Leiria. Municípios como Vila de Rei, no distrito de Castelo Branco, organizaram centros específicos para recebimento gratuito de resíduos gerados pelas operações de limpeza, numa tentativa de evitar contaminação ambiental após a remoção de destroços.
A crise culminou na renúncia da ministra do Interior, Maria Lúcia Amaral, após críticas da oposição e de comunidades locais sobre a resposta às tempestades. O presidente Marcelo Rebelo de Sousa aceitou o pedido de demissão, e o primeiro-ministro Luís Montenegro assumiu interinamente a pasta. O governo prorrogou a situação de calamidade em 68 concelhos e estima que os custos diretos de reconstrução possam ultrapassar 4 bilhões de euros.
Enquanto novas frentes de instabilidade permanecem previstas, Portugal tenta conter danos e restaurar serviços essenciais. Entre crateras, ruas alagadas e milhares de pessoas ainda sem energia, cresce a pressão política por respostas mais rápidas e soluções estruturais diante de eventos climáticos cada vez mais extremos.
