Chris Isaak, de 'Wicked game': 'Não componho sobre caminhões e cerveja'

Chris Isaak, de 'Wicked game': 'Não componho sobre caminhões e cerveja' - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Quem estava aí no começo dos anos 1990 não conseguiu escapar de “Wicked game” — canção de tons fantasmagóricos e e eróticos que apresentou ao mundo o cantor americano Chris Isaak, a bordo de um videoclipe estiloso, em preto e branco, no qual ele deita e rola no mar do Havaí nos braços da supermodelo dinamarquesa Helena Christensen.

Esse é um dos grandes momentos do pop da década, que ele vem, na sua primeira vez no Brasil, reviver em apresentação no dia 21 de novembro em São Paulo, no festival Best of Blues, no Parque Ibirapuera. Isaak ainda é o mestre desse som que atualiza a melancolia e as sombras do rock dos seus primeiros tempos, os anos 1950.

— Se você convive comigo, sabe que estou sempre fazendo piadas, e tento fazer isso no palco também, tento me divertir. Mas equilibro isso, pois o meu outro lado é bem sério ou sombrio, eu diria.

Sempre tive esse interesse em temas como o fim do amor e a mortalidade — diz o artista de 70 anos, por Zoom. — Estou compondo uma música agora que é basicamente sobre um homem em uma casa mal-assombrada.

Esses são os assuntos sobre os quais gosto de escrever. Não componho sobre caminhões e cerveja!

O universo de Chris Isaak sempre foi muito próximo daquele do diretor de cinema David Lynch (1946-2025), com o qual colaborou não só como músico (“Wicked game”, por sinal, despontou primeiro na tilha do filme “Coração selvagem”, de 1990, estrelado por Nicolas Cage e Laura Dern) mas também como ator:

— Ficava muito impressionado com ele, e quando digo que David era um artista, falo de todo tipo de arte: ele fazia animações, desenhava, pintava... quando eu ia à casa dele, ele estava lá fabricando móveis, escrevendo roteiros.

Enfim, ele era realmente muito talentoso em vários sentidos. O cantor, por sinal, tem uma história exemplar com David Lynch:

— Estávamos fazendo um filme, acho que era “Twin Peaks: Os últimos dias de Laura Palmer” (de 1992), e, na cena, éramos três pessoas filmando dentro de um trailer. O Harry Dean Stanton estava ótimo, mas eu estava péssimo.

O outro ator também estava com dificuldades. O David veio até nós e disse: “Certo, pessoal, isso está bom.

Agora, podemos tentar desta forma? Chris, não tire os olhos dele. Harry Dean, diga suas falas um pouco mais rápido.

E Bob, você se aproxima quando ele disser as falas.” Foram apenas três ajustes minúsculos, coisas bem simples. E funcionou perfeitamente!

Muitos não sabem, mas foi Lynch quem dirigiu o primeiro clipe de “Wicked game”. — O álbum com a música (“Heart shaped world”, de 1989) já estava no mercado há uns oito meses e estava começando a chamar a atenção.

Então, fui à Warner Brothers, algo que eu nunca fazia, pois sempre tinha medo de aparecer e acabar sendo demitido, e fui conversar com o presidente, Mo Austin, o que era algo intimidador — conta. — Eu disse: “Quero fazer um clipe!”.

E ele respondeu: “olha, vamos investir dinheiro no próximo álbum, mas não achamos que este seja o momento de gastar dinheiro com este disco.” Voltei e conversei com David Lynch, e ele disse: “Eu faço isso. Eu pago.” Isso nos projetou e fez tudo acontecer.

E eu nunca esqueci aquele favor. ‘Não há banda’

Anos mais tarde, quando David Lynch estava apresentando um pequeno filme perto de São Francisco, onde Chris Isaak morava, ele viu a oportunidade de retribuir o favor: — Liguei para ele e perguntei: “Você vai estar em São Francisco para uma estreia.

Já tem música ou uma banda?” Ele respondeu: “Não, não há orçamento para nada disso.” (o que fica mais engraçado quando se lembra do filme de Lynch, “Mulholland Drive”, em que um persinagem celebremente diz: “No hay banda” — ou seja, “não há banda”). Disse: “Estou indo aí”.

Fui com meu baterista, minha guitarra, umas castanholas, e disse: “David, você toca o chocalho.” Montamos um microfone, cantamos e tocamos de graça. Nunca esqueço de quem me fez um favor!

Isaak é amigo da estrela Lana Del Rey, uma das discípulas mais famosas do som de “Wicked game”. Em 2019, os dois cantaram juntos essa canção, no Hollywood Bowl.

— Fico muito feliz que alguém chegue a ouvir o que faço. Ontem à noite, por exemplo, fiquei acordado até umas quatro da manhã, tocando guitarra.

Aí, hoje de manhã, levantei, preparei meu café da manhã e ouvi algumas gravações que havia feito à noite. Enquanto ouvia, senti como se houvesse um diabinho em um dos meus ombros, dizendo: “O que você está fazendo? Isso nunca vai tocar em lugar nenhum, ninguém quer ouvir isso!” Já o diabinho do outro lado dizia: “Eu gosto!” — diverte-se.

— Não sei exatamente como meu som é percebido pelas outras pessoas, já que sempre trabalhei tentando agradar a mim mesmo. Tento criar uma música que fique martelando na minha cabeça.

Para o Brasil, o americano promete trazer “show e banda completos” — Acho que todo mundo vai estar sofrendo com o fuso horário, mas animado, tentando causar uma boa impressão.

E a gente se arruma bem. Você pode levar o seu par ao show porque, pelo menos, vai achar que a banda tem um visual bacana, mesmo que não curta a nossa música.

A banda usa ternos e eu, geralmente, visto algo que até o Elvis teria recusado por ser exagerado demais... ou melhor, até o Liberace teria recusado por ser exagerado demais! — brinca.

— Tenho um terno coberto de espelhinhos e lantejoulas, e vou levá-lo. Gosto de caprichar, de fazer um verdadeiro show!

Por falar em Elvis, há alguns anos Chris Isaak gravou com Stevie Nicks, do Fleetwood Mac, um duo em “Cotton candy land”, que entrou na trilha da cinebiografia do Rei do Rock, de 2022, dirigida por Baz Luhrmann: — Não costumo cantar músicas do Elvis nesse estilo.

Bom, gravei um álbum chamado “Beyond the Sun” (de 2011), que trazia muitas músicas dele da época da Sun Records, então cheguei a cantar algumas. Mas essa música em particular...

eu a via sempre na TV, em reprises de filmes antigos, nunca a tinha ouvido no rádio. A letra era de uma canção de ninar, mas eu achava que ela tinha um ar meio...

meio sinistro. Era uma canção de ninar meio assustadora.

E eu gostei disso!

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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