Chris Fleming estreia especial no streaming e conquista plateias com humor e coreografias inspiradas na dança

 

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Uma caminhada engraçada pode fazer toda a diferença na comédia. O humorista Chris Fleming elevou a sua a uma forma de arte; mais especificamente, transformou-a em dança.

— O cĂ©rebro da minha perna assume o controle — disse ele. — Se estou diante de uma plateia e estou com dificuldades, minhas pernas sabem como arrancar risadas.

Fleming, de 39 anos, cujo primeiro especial da HBO Max, “Chris Fleming: live at the Palace”, estreou sexta-feira nos EUA, tem uma figura bem diferente de quase todos os outros no mundo da comĂ©dia. Em parte, isso se deve ao seu senso de moda: sapatos de jazz de cores vibrantes, plumas como acessĂłrio e calças boca de sino em tons de joia, que acentuam sua estrutura esguia.

Mas principalmente porque ele combina as idiossincrasias de seus textos — em uma das piadas, ele finge ser uma frigideira de ferro fundido suja — com uma performance que se baseia fortemente em seu treinamento em dança moderna. Ele Ă© provavelmente o Ășnico humorista em atividade que cita Isadora Duncan como influĂȘncia.

“Chris Ă© um dos comediantes mais empolgantes para se acompanhar no momento”, disse por e-mail Mike Birbiglia, o veterano humorista que jĂĄ entrevistou Fleming em seu podcast.

Chris Fleming

Vincent Tullo/The New York Times

A fisicalidade e o estilo de Fleming sĂŁo “profundamente autĂȘnticos” e originais, disse Birbiglia. “AlĂ©m disso, seu material Ă© muito sem censura. Ele Ă© como uma mistura de Kathy Griffin com Lenny Bruce e Cirque du Soleil.”

Conan O’Brien, outro fã, produziu seu especial.

Moonwalk

Fleming mora perto de Los Angeles, mas explorou sua criação em Stow, Massachusetts, em uma sĂ©rie de vĂ­deos antigos sobre uma mulher tipicamente da Nova Inglaterra chamada Gayle. Seu sucesso veio de vĂ­deos cuidadosamente editados e legendados de seus shows em clubes, publicados em suas redes sociais, nos quais ele aparece dançando, fazendo piruetas ou passos de dança no palco, com os cabelos cacheados ao vento, enquanto comenta, por exemplo, sobre os petiscos do Trader Joe’s que sĂł as mulheres conseguem ver.

Os comentĂĄrios em suas postagens estĂŁo repletos de outros comediantes que se divertem com suas coreografias.

Assistir a Fleming executar uma conga absurdamente longa, que faz os joelhos bambearem, Ă© presenciar uma piada em forma de coreografia.

Obcecado por movimento e pelo moonwalk desde a infĂąncia, Fleming estudou teatro e dança no Skidmore College, onde o que lhe faltava em precisĂŁo tĂ©cnica (“Eu fazia o papel de alĂ­vio cĂŽmico em ‘O Lago dos Cisnes’”) compensava em confiança e contexto. Seus professores eram discĂ­pulos de originalistas como Isadora Duncan, uma precursora da dança que criou um estilo expressivo, e a mais angular Martha Graham.

A dança moderna â€œĂ© toda sobre aceitar a gravidade”, defendeu Fleming.

— Eu sou muito bom nisso — disse, referindo ao ato de entregar-se ao espaço.

Isso também pode explicar por que ele passa muito tempo perto do chão, contorcendo-se em poses de Pilates modificadas.

— Meu pai, quando me viu, disse: “Chris, em dois minutos vocĂȘ jĂĄ estava no chĂŁo. É cedo, Chris. É o teatro!”

Fleming começou fazendo stand-up e encontrando seu estilo exagerado em um clube acima de um restaurante chinĂȘs em Harvard Square. Em uma livraria ao lado, ele devorava livros de fotos de estrelas do rock.

— Mick Jagger, Prince, Stevie Nicks, Freddie Mercury... Fotos enormes dessas pessoas arrasando no palco — ele lembrou. — Eu pensei: como levo isso para uma sala com capacidade para cem pessoas?

Usar moletom com capuz estava fora de cogitação:

— Preciso usar uma armadura de pássaro.

Às vezes, ele coreografa seus nĂșmeros desenhando-os e ensaiando giros e saltos em um estĂșdio. Mas ele nĂŁo se assiste; precisa da plateia para encontrar o ĂĄpice do humor.

— Muita coisa que eu posto nas redes sociais Ă© a primeira vez que faço — disse ele.

QuestĂŁo orgĂąnica

Nas aulas de improvisação de dança, Fleming aprendeu:

— NĂŁo faça nada a menos que sinta o impulso de fazĂȘ-lo. Tem que ser orgĂąnico. — ensina ele. — Eu faço o crip walk com frequĂȘncia, Ă© um dos meus passos favoritos.

Um dos seus movimentos de pés faz com que as pernas fiquem quase coladas nos tornozelos:

— Eu estudei o Ice Cube em 2004. Ele fazia o crip walk mais suave.

No palco, isso se transforma em uma bibliotecĂĄria animada que faz crip walk.

Em uma das cenas, Fleming tira sarro de um cara que se acha o mĂĄximo em casamentos, o namorado bobo da corte. SĂł que, na versĂŁo de Fleming, a cadĂȘncia Ă© a de Al Pacino, no monĂłlogo final de “Perfume de mulher”.

— E eu pensei: qual a maneira mais extravagante e arrogante de terminar isso? O moonwalk.

(É hilário.)

— Eu contraio muito o corpo — disse Fleming, referindo-se Ă  postura curvada, Ă  la Martha Graham. É Ăștil quando ele finge ser uma motocicleta ou um baby boomer com domĂ­nio mĂĄgico do Bitmoji.

E contrasta com o gesto de braços abertos, inspirado em Isadora Duncan.

— Ela tem esse otimismo genuíno que meu professor de improvisação adorava — disse ele.

Destemor corporal

As coreografias de Fleming sĂŁo densamente construĂ­das com referĂȘncias — filmes espaciais, vida universitĂĄria, encontros com animais, economia — salpicadas de digressĂ”es e expressĂ”es malucas.

Uma das suas performances de mĂșsica e dança Ă© sobre por que “uma jovem profissional com um elegante suĂ©ter da (marca) Madewell” era a coisa mais assustadora em uma casa mal-assombrada. Acrescente um gesto de alcançar o cĂ©u, e “as pessoas estĂŁo sempre rindo”.

Fleming possui um destemor corporal quase competitivo.

— Adoro colocar o máximo de peso possível no banquinho — disse ele. — Adoro dar chutes acrobáticos e cair de diferentes maneiras.

Mas ele nĂŁo segue um regime de treinamento de atleta nem malha, disse, quase com orgulho:

— AtĂ© hoje, saio de cada apresentação completamente machucado.

Dependendo da elasticidade do seu cabelo, ele mede entre 1,85m e 1,90m, disse, com um giro de quadril que pode fazĂȘ-lo parecer ainda mais alto. Quando ele dĂĄ saltos de sapo ou cai sobre uma cadeira, faz pliĂ©s ou dĂĄ voltas pelo palco, hĂĄ um elemento de perigo controlado: um artista glamoroso Ă  solta. É aĂ­ que reside a essĂȘncia da sua comĂ©dia.

— Acredito que, se vocĂȘ se esforça fisicamente, Ă© uma performance completamente autĂȘntica — contou ele. — Se estou me esforçando fisicamente, entĂŁo Ă© tudo real, e isso me faz rir.