Choque de petróleo faz países se voltarem para energia nuclear
Em meio à guerra no Oriente Médio e a disparada dos preços do petróleo, alguns países estão voltando a avaliar o uso da energia nuclear. A Coreia do Sul informou que irá acelerar o reinício de reatores nucleares que estão em manutenção para garantir o fornecimento de energia ao país.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, por sua vez, classificou de "erro estratégico" o afastamento da Europa da energia nuclear.
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No caso da Coreia do Sul, a ideia do governo é colocar em operação duas unidades ainda este mês e outras quatro até meados de maio, informou o Ministério do Clima, Energia e Meio Ambiente sul-coreano em um comunicado após uma reunião de emergência realizada na quarta-feira.
O governo também está avaliando uma operação mais flexível de usinas movidas a carvão — cuja geração atualmente é limitada durante os dias de semana para minimizar a poluição — caso as entregas de gás natural liquefeito sejam afetadas.
A Coreia do Sul obtém quase toda a sua eletricidade a partir de energia nuclear, gás natural e carvão e, como outros países da região, depende fortemente de importações de combustíveis fósseis.
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No ano passado, o país asiático importou cerca de 14% de seu gás natural liquefeito (GNL) do Catar, que teve de interromper a produção na maior planta de produção do mundo após um ataque com drone iraniano na semana passada.
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'Erro estratégico' da Europa
Nesta semana, falando em uma cúpula sobre energia nuclear em Paris, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que o afastamento da Europa da energia nuclear foi um “erro estratégico”, enquanto a disparada dos preços do petróleo reacendeu preocupações sobre a vulnerabilidade energética do bloco. Ela defendeu um retorno à energia atômica, afirmando que a Comissão Europeia apoiará investimentos em “tecnologias nucleares inovadoras”.
—Foi um erro estratégico para a Europa virar as costas para uma fonte confiável e acessível de energia com baixas emissões — disse ela.
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Os ataques dos EUA e de Israel ao Irã e as ações retaliatórias de Teerã em toda a região do Golfo abalaram os setores globais de energia e transporte, praticamente interrompendo as atividades no estrategicamente vital Estreito de Ormuz.
Autoridades da União Europeia disseram que a situação ainda não atingiu os níveis de crise registrados após a Invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, mas o conflito reacendeu um debate sobre as dependências externas do bloco e seus altos custos de energia, que a indústria europeia afirma há muito tempo prejudicarem a competitividade em relação à Ásia e à América do Norte.
— Em relação aos combustíveis fósseis, somos completamente dependentes de importações caras e voláteis. Elas nos colocam em uma desvantagem estrutural em relação a outras regiões — disse von der Leyen na cúpula em Paris, que tem como objetivo ampliar o uso da energia nuclear para fins civis. —A atual crise no Oriente Médio é um lembrete claro da vulnerabilidade que isso cria — acrescentou.
Seus comentários ocorreram no momento em que a UE se prepara para apresentar novos planos energéticos que, segundo von der Leyen, incluirão “uma garantia de 200 milhões de euros (US$ 230 milhões) para apoiar investimentos em tecnologias nucleares inovadoras”.
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Bruxelas está se concentrando especialmente em reatores modulares pequenos (SMRs), que a comissão gostaria de ver em operação no início da década de 2030. Os SMRs têm cerca de um terço da capacidade de geração de um reator nuclear tradicional — mas são relativamente simples de construir e, portanto, mais baratos. Seus projetos prometem recursos de segurança aprimorados e operações mais eficientes do que as usinas tradicionais, mas ainda não foram implantados em grande escala.
Quebrando “tabus”
O dinheiro da UE, embora modesto, deve ajudar a Europa a alcançar os Estados Unidos e a China nesse setor. Ele virá do Sistema de Comércio de Emissões (ETS) do bloco — que obriga grandes poluidores a pagar por licenças de emissão — explicou a presidente da Comissão Europeia. Bruxelas também trabalhará com os estados-membros para alinhar estruturas regulatórias e acelerar processos de licenciamento, acrescentou.
A energia nuclear no continente entrou em crise após o Desastre nuclear de Fukushima, em 2011, no Japão, que reforçou temores já despertados pela Desastre nuclear de Chernobyl, em 1986.
Por muito tempo, destinar recursos da UE a projetos nucleares foi considerado inaceitável, já que o bloco de 27 países priorizava energias renováveis na corrida para reduzir as emissões que aquecem o planeta.
A guerra da Rússia contra a Ucrânia provocou uma reavaliação — mas a energia atômica continua sendo um tema que causa divisões.
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Anfitriã da cúpula sobre energia nuclear realizada na terça-feira passada, a França é uma forte defensora da energia nuclear. A Holanda e a Suécia planejam construir novas usinas, enquanto a Bélgica abandonou seu plano de eliminação gradual da energia nuclear e a Itália também está reconsiderando sua posição.
O chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, também classificou o fechamento das usinas nucleares como um “grave erro estratégico”.
Por outro lado, a Áustria historicamente se opõe à energia atômica e a Espanha continua sendo uma forte defensora das energias renováveis como primeira opção para suprimentos mais verdes de eletricidade.
O comissário europeu da indústria, Stéphane Séjourné, celebrou esta semana a mudança da UE em direção à energia nuclear, dizendo que Bruxelas ousou “quebrar certos tabus”.
— A comissão agora está integrando plenamente a energia nuclear em sua estratégia industrial e em seus instrumentos de financiamento. Isso é uma novidade! —afirmou.
Ainda assim, especialistas alertam que a energia eólica e solar devem dominar a matriz energética europeia por muitos anos, já que a construção de nova capacidade nuclear inevitavelmente leva tempo.
Em 2024, as fontes renováveis representaram 47% da produção de eletricidade na União Europeia, em comparação com 23% da energia nuclear, segundo o Eurostat, a agência estatística do bloco.
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