247 – De acordo com um artigo publicado no jornal Diário do Povo pelo especialista Ouyang Minggao, pesquisador da Academia Chinesa de Ciências e professor na Universidade Tsinghua, o mundo atravessa uma revolução energética focada na substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis e na troca de carros a combustão por veículos elétricos (VEs). O autor destaca que a China é a principal potência liderando essa transição, tornando indispensável a criação de um sistema elétrico inovador que integre de forma conjunta a geração, a rede, o consumo e o armazenamento de energia.
Com a frota nacional de veículos elétricos prestes a atingir a marca de 100 milhões de unidades, Minggao aponta que esses automóveis estão deixando de ser meros meios de transporte para se tornarem pilares da infraestrutura elétrica do futuro. As projeções indicam que a China terá entre 110 e 160 milhões de VEs até 2030, número que deve saltar para uma faixa de 300 a 400 milhões até 2040. Diante da rápida expansão dos carregadores ultrarrápidos, o impacto nas redes elétricas locais tornou-se inegável. O texto ilustra o problema com um cálculo simples: se 5 milhões de carros fossem recarregados ao mesmo tempo durante a noite, exigindo 10 kW cada, a demanda gerada seria de 50 milhões de kW, um valor que ultrapassa largamente a capacidade de pico da maioria das redes elétricas municipais.
Para solucionar esse gargalo, o artigo enfatiza a urgência de abandonar o modelo atual de recarga desordenada em favor da tecnologia bidirecional “vehicle-to-grid” (V2G — do veículo para a rede). Essa inovação transforma os VEs, que antes apenas consumiam energia, em unidades ativas e móveis de armazenamento. Os carros podem absorver eletricidade nos períodos de baixa demanda e devolvê-la ao sistema nos horários de pico. Além de aliviar as redes de distribuição, essa dinâmica cria uma nova fonte de renda para os donos de veículos através do mercado atacadista de energia. Utilizando uma bateria média de 70 kWh para prestar serviços à rede, o proprietário pode obter um retorno financeiro acumulado entre 15.000 e 75.000 yuans (cerca de 2.240 a 11.198 dólares) ao longo da vida útil do carro, transformando-o em um ativo rentável, e não apenas em um bem sujeito a depreciação.
Ouyang Minggao também aborda os temores do público em relação à segurança e ao desgaste das baterias. Ele cita pesquisas provando que o gerenciamento adequado do sistema V2G não acelera a degradação e, de fato, pode prolongar a vida útil cronológica do equipamento. Atualmente, as baterias de fosfato de ferro-lítio (LFP) suportam cerca de 3.000 ciclos completos antes que sua capacidade caia para 70%. Como o uso doméstico convencional consome apenas cerca de 500 ciclos em um período de 10 a 15 anos, sobra muita capacidade ociosa. Soluções como a pulsação bidirecional distribuem o lítio uniformemente, evitam a formação de depósitos (lithium plating) e melhoram o carregamento rápido e o uso em baixas temperaturas. Além disso, o V2G mantém as baterias predominantemente em carga parcial, poupando o desgaste natural que ocorre quando ficam 100% carregadas por muito tempo. Aliado a sistemas inteligentes de monitoramento, os riscos de incidentes de segurança são minimizados de maneira eficaz.
A aplicação da tecnologia V2G já é uma realidade em três cenários principais, conforme detalha o autor. O primeiro é o cenário de “ponto”, focado em parques industriais, onde baterias veiculares, energia solar e armazenamento fixo operam juntos. O segundo é o cenário de “linha”, no setor de transportes, onde estações de troca de baterias para caminhões e painéis solares fornecem energia a veículos de passeio, poupando a rede elétrica central. O terceiro é o cenário de “área”, onde o conceito “casa-veículo-rede” gerencia de forma integrada o consumo energético de edifícios. Como a paisagem urbana chinesa é dominada por prédios altos — o que limita as instalações residenciais de baterias fixas —, o uso dos carros estacionados em garagens subterrâneas surge como a solução mais prática para o armazenamento distribuído de curta duração.
Por fim, o artigo traça metas ambiciosas para o futuro. Impulsionada pelo 15º Plano Quinquenal da China (2026-2030), a capacidade de carregamento ajustável via V2G deve bater a marca de 50 milhões de quilowatts até 2030. Na década seguinte, até 2040, o volume de armazenamento por esse método poderá superar 4 bilhões de quilowatt-horas, compensando a redução no ritmo de crescimento do armazenamento fixo. Segundo estimativas mais conservadoras citadas pelo especialista, até 2050 a capacidade total das baterias de 350 milhões de VEs chegará a impressionantes 25 bilhões de quilowatt-horas, volume que seria suficiente para abastecer toda a China por um dia em caso de emergência energética. Minggao conclui que os próximos cinco anos serão fundamentais para o lançamento do setor de V2G, período no qual a evolução das normas, dos modelos de negócio e do mercado transformará mais de 100 milhões de veículos elétricos em uma colossal rede de baterias móveis.
Brasil 247