China pede que EUA e Irã 'evitem reacender a guerra' após o fracasso das negociações; entenda por que bloqueio de Ormuz pressiona Pequim

 

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Após o fracasso das negociações entre Estados Unidos e Irã no Paquistão, a China disse nesta segunda-feira que espera que Teerã e Washington não reavivem a guerra no Oriente Médio, afirmando que os esforços diplomáticos são passos numa direção que contribui para aliviar a situação. A reação de Pequim, que até então havia mantido um certo distanciamento da guerra, ocorre horas depois do presidente americano, Donald Trump, anunciar que a Marinha dos EUA começaria a bloquear “todos os navios que tentarem entrar ou sair do Estreito de Ormuz”, rota vital para 20% do fluxo energético mundial. E a maior parte do petróleo iraniano que passava pelo estreito tinha como destino a China.

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— A China espera que as partes envolvidas cumpram o acordo de cessar-fogo temporário, continuem a resolver as disputas por meios políticos e diplomáticos, evitem reacender a guerra e criem condições para um rápido retorno à paz e à tranquilidade na região do Golfo — declarou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Guo Jiakun, em coletiva de imprensa, acrescentando que a causa principal das interrupções na navegação no Estreito de Ormuz é o conflito com o Irã.

Embora Pequim possua a 13ª maior reserva de petróleo do mundo e receba fluxos significativos da Rússia, o Irã consolidou-se como um fornecedor vital, respondendo por cerca de 13% de suas importações marítimas. Interromper, portanto, esse fluxo pode forçar a China a exercer mais pressão sobre Teerã para que se chegue a um acordo.

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Apesar do ceticismo em se engajar na guerra, a China, de fato, deseja o fim do conflito, mesmo com os impactos do bloqueio de Ormuz. Na semana passada, o país asiático e a Rússia vetaram uma resolução, de autoria do Bahrein, no Conselho de Segurança da ONU, que incentivava esforços defensivos e coordenados para garantir a reabertura do Estreito de Ormuz. No Conselho, Vassily Nebenzia, embaixador da Rússia na ONU, e Fu Cong, da China, culparam EUA e Israel por iniciarem a guerra e desencadearem uma crise global crescente.

Nos últimos anos, à medida que Pequim travava uma guerra comercial com Washington, o Oriente Médio tornou-se mais importante para o país. Em 2025, por exemplo, as exportações da China para o Oriente Médio cresceram quase duas vezes mais rápido do que suas exportações para o resto do mundo. Sua economia, portanto, depende fortemente da venda de mercadorias para países em todo o mundo, e a instabilidade global, com o bloqueio de Ormuz, causa preocupação.

Se necessário, ainda que não precise, Pequim poderia buscar importações de petróleo bruto em outros lugares. Mas o Estreito de Ormuz é fundamental para o abastecimento de energia de outros países do Golfo, incluindo Arábia Saudita, Irã e Emirados Árabes Unidos.

O fracasso das negociações no fim de semana e a ameaça de Trump de bloquear navios que partem e se dirigem aos portos iranianos tiveram o impacto esperado nos mercados. Os preços do petróleo voltaram a subir para mais de US$ 100 por barril, as bolsas asiáticas caíram e os futuros dos mercados europeus apontam para uma abertura em baixa.

Rússia e Turquia

O principal diplomata da Turquia afirmou nesta segunda-feira acreditar que tanto o Irã quanto os Estados Unidos permanecem “sinceros” quanto à busca por um cessar-fogo, apesar do fracasso das negociações mediadas pelo Paquistão no fim de semana.

— Ambos os lados são sinceros em relação ao cessar-fogo — disse o ministro das Relações Exteriores, Hakan Fidan, em entrevista à agência oficial Anadolu. Fidan afirmou que tem mantido contato com as partes envolvidas nas negociações.

O Kremlin criticou a decisão do presidente Donald Trump de iniciar um bloqueio aos portos iranianos.

“Essas ações provavelmente continuarão a impactar negativamente os mercados internacionais. Isso pode ser assumido com um alto grau de certeza”, disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, a repórteres na segunda-feira.

“No entanto, muitos detalhes ainda não estão claros, então prefiro não fazer comentários substanciais neste momento”, acrescentou Peskov.

Ele também foi questionado sobre a oferta da Rússia de aceitar urânio iraniano como parte de um acordo mais amplo sobre o futuro do programa nuclear do Irã.

“A oferta foi feita, mas não foi aceita. A Rússia continua disposta a oferecer sua ajuda”, disse Peskov.