China bloqueia compra de US$ 2 bi da startup de IA Manus pela Meta
A China decidiu bloquear a compra de US$ 2 bilhões da startup de inteligência artificial Manus pela Meta, em um movimento surpresa para desfazer um acordo controverso que vinha sendo criticado pelo vazamento de tecnologia para os Estados Unidos.
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A Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma ordenou o cancelamento do negócio em uma breve declaração nesta segunda-feira. A decisão foi tomada de acordo com leis e regulamentos, afirmou o poderoso órgão estatal de planejamento em um comunicado de uma linha, sem dar mais detalhes.
A decisão deve causar apreensão no crescente setor de IA da China e surge semanas antes de uma reunião de alto nível entre os presidentes dos EUA, Donald Trump, e o da China, Xi Jinping. Pequim intensificou o escrutínio sobre empresas-chave do setor após o acordo, que já estava em grande parte concluído.
Inicialmente saudado como um modelo para startups com ambições globais, críticos passaram a lamentar a perda de tecnologia valiosa para um rival geopolítico.
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Os fundadores da Manus começaram na China, mas transferiram sua sede e equipe principal para Cingapura em 2025. Não estava claro, quando o acordo ocorreu, se Pequim exerceria sua autoridade sobre uma transação que tecnicamente aconteceu fora de suas fronteiras.
— O bloqueio da Manus é um momento de esclarecimento — disse Ke Yan, analista de tecnologia da DZT Research, sediada em Cingapura. — A Manus foi incorporada em Singapura, com fundadores baseados aqui, e ainda assim foi puxada de volta. O sinal de Pequim é que o que importa não é onde a entidade legal está.
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O decreto sobre a Manus pode representar um revés para a Meta, enquanto a empresa busca competir em inteligência artificial contra rivais que vão da Microsoft e do Google, da Alphabet, até a OpenAI e a Anthropic. A Manus deveria ajudar a Meta — que vinha correndo atrás — a dar um salto e assumir uma posição de liderança no aquecido campo dos agentes de IA, ou serviços que usam inteligência artificial para executar tarefas.
Como acordo será desfeito?
Ainda assim, não está claro como a Meta desfaria o acordo. Funcionários da Manus já se juntaram à Meta, capital foi transferido e executivos da startup passaram a integrar a equipe de IA em rápida expansão da empresa americana.
Funcionários da Manus já se mudaram para escritórios da Meta em Cingapura, enquanto investidores existentes, incluindo Tencent, ZhenFund e Hongshan, já receberam seus recursos, segundo fontes familiarizadas com o assunto, que falaram sob condição de anonimato.
A Meta afirmou, em comunicado, que o acordo cumpriu as leis aplicáveis e que espera uma resolução da investigação da China, sem fornecer mais detalhes.
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Pequim e Washington estão disputando vantagem antes de seu encontro histórico em maio. À medida que a rivalidade se intensifica no campo da inteligência artificial, Xi tenta tanto proteger a principal tecnologia e talentos da China contra os EUA com a medida envolvendo a Manus, quanto destacar sua crescente confiança em chips desenvolvidos no país.
Esse segundo ponto ficou evidente na semana passada, quando a DeepSeek revelou seu modelo V4, que apresenta uma integração mais profunda com chips da Huawei. Esse lançamento de alto perfil pareceu calculado para transmitir confiança antes da visita de Donald Trump.
— Pequim provavelmente vê esse movimento como uma retaliação justificada, espelhando os controles de exportação, restrições a investimentos e investigações sobre transferência de tecnologia conduzidas pelas autoridades americanas ao longo dos anos — disse Brian Wong, professor assistente da Universidade de Hong Kong.
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Desde então, órgãos do governo chinês passaram a desencorajar a repetição da manobra da Manus, que foi concluída com velocidade incomum. A aquisição desencadeou uma investigação em Pequim sobre investimento estrangeiro ilegal e exportações de tecnologia pouco depois de seu anúncio, em dezembro.
Órgãos como a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma informaram a importantes empresas de IA, incluindo Moonshot AI e Stepfun, nas últimas semanas, que elas devem rejeitar capital de origem americana em rodadas de financiamento, a menos que haja aprovação explícita, informou a Bloomberg News na semana passada. Reguladores também decidiram impor restrições semelhantes à ByteDance dona do TikTok e a startup mais valiosa do país.
Essas restrições correm o risco de isolar ainda mais o setor de tecnologia da China, que vinha se recuperando, do capital de risco que o sustentou por duas décadas — grande parte proveniente de fundos de pensão e fundos patrimoniais dos Estados Unidos.
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A medida segue a decisão de Pequim de restringir as chamadas “red chips” — empresas chinesas constituídas no exterior — de buscar ofertas públicas iniciais (IPO) na Bolsa de Hong Kong, ameaçando desestabilizar uma estratégia de décadas que permitiu a empresas chinesas captar capital estrangeiro ao abrir capital fora do país.
O objetivo geral dessas restrições é impedir que investidores americanos adquiram participações em setores sensíveis nos quais a segurança nacional é prioridade. As duas medidas indicam que os reguladores estão preocupados com o vazamento de tecnologia doméstica para o exterior, à medida que startups e empresas fundadas na China exploram oportunidades internacionais.
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Após a aquisição da Manus, muitos acadêmicos criticaram a perda de um ativo valioso para os EUA, e muitos temeram que o acordo incentivasse outras startups a seguir o mesmo caminho.
Lançada em março de 2025, a Manus é um agente de IA de uso geral capaz de automatizar tarefas complexas, que vão desde análises do S&P 500 até a elaboração de propostas de vendas. Um mês depois, sua controladora, Butterfly Effect, levantou US$ 75 milhões em uma rodada liderada pela Benchmark, do Vale do Silício, avaliando a empresa em US$ 500 milhões.
O investimento desencadeou uma investigação pelo Tesouro dos EUA sobre possíveis violações de restrições a investimentos em tecnologias sensíveis.
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Em julho, a Manus transferiu sua equipe baseada na China para Cingapura, cortando dezenas de cargos no processo. A Meta anunciou a aquisição em dezembro, depois que a Manus ultrapassou US$ 100 milhões em receita anualizada.
Ainda não está claro quais outras medidas Pequim tomará após sua investigação. Os cofundadores da Manus, Xiao Hong e Ji Yichao, teriam sido proibidos de deixar a China, segundo informou o Financial Times em março.
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