Chileno é preso por racismo contra comissário brasileiro; casos de indisciplina em avião sobem 20% no Brasil
Na última sexta-feira, um executivo chileno foi detido no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, por fazer comentários racistas e homofóbicos dentro de um avião contra membros da tripulação e passageiros.
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No primeiro trimestre deste ano, os casos de indisciplina em voos domésticos no Brasil subiram perto de 20%, ante a igual período de 2025, segundo dados da Associação Brasileira de Empresas Aéreas (Abear).
Para coibir esses atos, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) aprovou, em março, uma resolução que endurece a punição para passageiros que causarem transtornos em voos nacionais. A nova regra entrará em vigor em 14 de setembro, com punições que vão do pagamento de multa de até R$ 17,5 mil ao banimento do passageiro autuado dos aeroportos do país por 12 meses.
O problema, porém, ocorre também em voos internacionais, a exemplo do caso com o chileno Germán Naranjo Maldini. Ele foi detido no último dia 15 em consequência a um episódio em 10 de maio, quando seguia de São Paulo para Frankfurt, na Alemanha, a bordo do voo LA8070, da Latam.
A bordo, entre outras ofensas, ele agrediu um comissário afirmando que ele tinha "cheiro de negro brasileiro" e que ser gay "é um problema" para ele.
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As agressões praticadas por Maldini tiveram início quando ele tentou abrir a porta do avião e foi impedido pela tripulação. O comportamento agressivo do chileno a bordo do voo foi registrado em vídeo que, rapidamente, viralizou nas redes sociais e no qual podem ser ouvidos os comentários ofensivos e discriminatórios dirigidos a um integrante da tripulação.
Ele atuava como gerente de uma empresa chilena de alimentos e biotecnologia marinha, a Landes. Também na sexta-feira, a companhia afastou o executivo "formal e preventivamente" de suas funções, segundo noticiou a imprensa do Chile.
Cenário doméstico
Relatos de confusões em voos e passageiros causando tumultos nos aviões ou nos aeroportos são cada vez mais comuns. Entre janeiro e março, esses registros subiram 19%, ante ao primeiro trimestre do ano passado, segundo a Abear.
Ao todo, foram 434 queixas, ou quase cinco por dia, detssacando a importância da adoção de regras para inibir esse comportamento que ameaça a segurança de todos e prejudica a operação das empresas aéreas.
No ano passado, o número de queixas relativas a ocorrências em voos nacionais saltou 66% ante a 2024, somando 1.764.
A nova regra aprovada pela Anac dividem as infrações em três categorias:
Indisciplina leve: comportamentos como elevar o tom de voz, adotar uma postura hostil, recusa inicial em cumprir instruções.
Indisciplina grave: situações que exigem intervenção de segurança, como agressões verbais e recusa persistente a normas de segurança.
Indisciplina gravíssima: comportamentos que colocam em risco a aeronave e a dignidade das pessoas, como agressões físicas, importunação sexual a bordo e tentativas de tomar o controle da aeronave.
Além da classificação das punições, as novas regras estabelecem que a agência, as companhias aéreas e a Polícia Federal devem criar fluxos de compartilhamento de dados para aplicar as sanções a quem não respeitar as normas de segurança.
Ofensas diversas no voo da Latam
No caso do executivo chileno, a detenção em Guarulhos eveio em consequência às ofensas a tripulantes no voo para Frankfurt. Por meio do vídeo que registra a ocorrência, é possível acompanhar as agressões feitas por ele:
— Ele é gay contra mim — disse inicialmente.
— Qual é o problema?— perguntou uma comissária.
E o chileno, que insistia em afirmar que tinha um problema com o funcionário da companhia aérea, respondeu:
— Ninguém tem problema algum, ele tem um problema comigo. Os gays já basta serem tão... tão... — disse sem conseguir completar a frase,
Depois complementou:
— É um problema, para mim, ser gay.
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A agressão continuou diante da indignação do restante da tripulação, desta vez com comentários racistas:
— A pele negra. O que mais... o cheiro de negro brasileiro. Cheiro de brasileiro.
Uma das comissárias a bordo afirmou ao viajante: “Vamos desembarcar, porque você está incomodando, agredindo”. Mas ele respondeu de forma desafiadora:
— Uh, que medo — disse, depois olhando para outra pessoa: — Esse aí eu não conheço. Você, negro, macaco, eu não conheço. Macacos ficam nas árvores — provocou para, em seguida, fazer sons semelhantes aos de um macaco.
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Segundo o jornal argentino La Nación, a vítima registrou denúncia junto à Polícia Federal, o que deu início a uma investigação que terminou com uma ordem de prisão preventiva contra Maldini emitida pela Justiça Federal.
Procurada, a Latam informou que Maldini foi detido na última sexta-feira no Aeroporto de Guarulhos, quando retornava ao Brasil para fazer conexão em seu voo.
De acordo com o La Nación, o empresário compareceu perante o juiz em uma audiência de custódia no mesmo dia e, posteriormente, foi encaminhado ao Centro de Detenção Provisória (CDP) de Guarulhos, onde permanece à disposição da Justiça.
Em nota, a Latam disse que condena energicamente qualquer prática discriminatória e violenta, incluindo crimes de racismo, xenofobia e homofobia”. A empresa disse ainda que está oferecendo apoio psicológico e assistência jurídica ao funcionário vítima dessa violência”.
Afastado pela empresa
Após os fatos, a Landes divulgou um comunicado no qual repudiou a conduta de seu funcionário. “A Landes condena de maneira categórica e sem nuances qualquer ato de discriminação, racismo ou homofobia. Esse tipo de conduta é absolutamente incompatível com os valores da Landes e com sua Política de Não Discriminação, que rege todos os colaboradores da empresa”, afirmou a companhia.
No documento, a empresa pesqueira esclareceu que tomou conhecimento do caso por meio da imprensa e que não havia sido notificada da prisão antes de ela se tornar pública.
Na manhã deste sábado, em comunicado aos funcionários, a empresa disse que "enquanto se apuram todas as informações necessárias, Landes decidiu afastar formal e preventivamente Germán Naranjo de suas funções", segundo o portal chileno Bio Bio Chile.
Crime com punição no Brasil
Desde 2023, o Brasil equiparou a injúria racial ao crime de racismo, com endurecimento das penas: o crime tornou-se imprescritível e inafiançável na esfera policial.
A legislação prevê penas de dois a cinco anos de prisão, além de multas. Também em 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que insultos homofóbicos são puníveis com pena de prisão.
O caso de Maldini ocorre pouco tempo depois do episódio envolvendo a advogada argentina Agostina Páez, que foi processada por fazer gestos imitando um macaco em direção a funcionários de um bar em Ipanema, no Rio de Janeiro.
A mulher permaneceu três meses em prisão domiciliar no Brasil até que a Justiça local decidiu retirar sua tornozeleira eletrônica, devolver seu passaporte e exigir o pagamento de uma fiança de aproximadamente US$ 20 mil para permitir sua saída do país. Foi exigida ainda a fixação de um endereço na Argentina para futuras notificações.
