Chico Buarque e a detenção policial depois de viagem a Cuba na ditadura

 

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Assim que o compositor Chico Buarque e o escritor Antônio Callado desembarcaram de seus aviões no Aeroporto do Galeão, no Rio, os dois foram detidos por policiais federais no terminal. A abordagem chamou a atenção de algumas pessoas e, em instantes, formou-se um pequeno alvoroço de curiosos querendo saber o que estava acontecendo. Pouco depois, repórteres enviados ao local descobriram que eles seriam levados para interrogatórios. Chico e Callado não estavam sob suspeita de um crime, mas tinham acabado de visitar Cuba. Era fevereiro de 1978, e o Brasil vivia uma ditadura militar.

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Quase 50 anos depois, o célebre autor de "Apesar de você" está na ilha caribenha para gravar com o também poeta e músico Silvio Rodríguez. A viagem é um gesto de solidariedade ao país, em meio a uma crise econômica provocada pelo grave desabastecimento energético. O compositor não visitava Cuba desde 1992. Seu retorno ao Brasil será, certamente, bem diferente do que foi a recepção depois daquela primeira visita, no regime militar, quando ele passou o dia sob custódia policial para explicar o que tinha ido fazer em Cuba e com quem tinha se encontrado enquanto estava por lá.

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Chico não chegou ao Rio diretamente de Havana. O músico estava em viagem na Europa quando voou para a ilha de Fidel Castro, onde ele e Antonio Callado integraram o júri do prêmio literário Casa de Las Américas. Depois, o compositor retornou à Europa, e, então, tomou um avião para o Rio, ao lado de sua mulher na época, a atriz Marieta Severo. Callado, por sua vez, voou de Havana para Nova York, nos Estados Unidos, onde se encontrou com a mulher, Ana Arruda, com quem retornaria ao Rio dias mais tarde. Assim que eles pisaram em solo carioca, foram parados por agentes da Polícia Federal.

Os quatro foram levados para a sede da PF, na Praça Mauá, e interrogados por um delegado. Depois, seguiram para o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), na Rua da Relação, onde foram ouvidos por um outro delegado. Chico seria liberado às 18h30, depois de dez horas sob custódia da polícia. Callado, que tinha chegado antes ao Rio, ficou 12 horas com os agentes.

Chico Buarque dando entrevista ao sair de interrogatório, após volta de Cuba

Wilson Alves/Agência O GLOBO

Em 1978, o regime militar passava por uma transição, com o fim do período mais duro de repressão. A sociedade vinha reconquistando liberdades individuais que haviam sido suspensas. No fim daquele ano, o AI-5 seria revogado, e o Congresso elegeria como presidente o general João Figueiredo, com o objetivo de conduzir uma abertura "lenta, gradual e segura" em direção à redemocratização.

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De acordo com a reportagem do GLOBO sobre o caso de Chico e Callado, as autoridades explicaram que aquilo não passava de protocolo, já que, na época, as relações diplomáticas do Brasil com o governo comunista de Cuba estavam rompidas. "Toda figura de projeção nacional que sai do País e visita uma nação que não mantém relações diplomáticas com o Brasil é sempre chamada para depor", explicou o delegado Antonio Malfitano, diretor do Dops. Nos corredores da Polícia Federal, dizia-se que "os dois poderiam estar trazendo material subversivo, já que visitaram Cuba".

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Chico deixou o prédio do Dops exausto e foi imediatamente cercado por jornalistas. Segundo ele, os agentes queriam saber, principalmente, se o compositor tinha se encontrado com brasileiros que viviam como exilados políticos no arquipélago caribenho. "A coisa aqui está preta", disse Chico, irônico, citando sua música "Caro Amigo". "Eles querem saber tudo. Ir a Cuba não é crime, que eu saiba. Além disso, se os motivos de minha prisão forem esse e o fato de eu ter me encontrado com exilados por lá, posso dizer que esbarrei com um número muito maior de brasileiros em Lisboa do que em Cuba".

"Para mim, foi uma sabatina, na qual fui reprovado, porque tenho que voltar aqui na segunda-feira para um novo depoimento. A maior preocupação deles é saber com quem tive contato no exterior".

O artista estava indignado. Além de mantê-lo detido durante dez horas, os policiais apreenderam 78 discos e 92 livros comprados, em grande parte, na Europa. "Todos os livros que trouxe são liberados e vendidos normalmente no mundo ocidental. Eles pegaram tudo sem ver nada e disseram que iam fazer um exame dos livros, principalmente. Não lembro de todos os títulos, mas sei que tem um livro da Mina, cantora italiana". Segundo o compositor, os agentes ficaram até com um livro de gravuras que havia sido dado a ele de presente por um diretor da companhia aérea TAP.