O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, procurou tranquilizar neste sábado os aliados americanos na Ásia ao afirmar que Washington não está "virando as costas" para a região, apesar de suas prioridades globais, incluindo o conflito com o Irã. Em discurso no Diálogo de Shangri-La, principal fórum de segurança da Ásia, ele garantiu que os EUA manterão uma forte presença militar no Indo-Pacífico, mas voltou a cobrar que parceiros regionais ampliem seus próprios gastos com defesa diante da crescente influência da China, segundo informações do Wall Street Journal e da rede britânica BBC.
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As declarações ocorreram em meio a preocupações de governos asiáticos sobre o comprometimento dos EUA com a região sob o governo do presidente Donald Trump. Hegseth defendeu uma divisão maior de responsabilidades entre os aliados.
— A era em que os EUA subsidiavam a defesa de nações ricas acabou. Precisamos de parceiros, não de protetorados — afirmou.
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Questionado pelo ministro da Defesa do Japão, Shinjiro Koizumi, sobre o compromisso americano com a região, Hegseth rejeitou a ideia de que Washington esteja se afastando de seus aliados asiáticos.
— Algumas pessoas confundem nossas obrigações globais com uma suposta retirada desta região. Podemos fazer duas coisas ao mesmo tempo — disse. Segundo ele, os EUA continuam trabalhando de forma "discreta, mas muito firme" com seus parceiros no Pacífico, ao mesmo tempo em que mantêm esforços para impedir que o Irã obtenha uma arma nuclear.
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Hegseth afirmou que os EUA buscam preservar um "equilíbrio de poder favorável e duradouro" na região, no qual nenhum país, incluindo a China, seja capaz de impor sua hegemonia.
— Não se enganem: os EUA são uma nação do Pacífico — declarou. — E insistimos que a China respeite nossa posição histórica na região.
Apesar das críticas ao fortalecimento militar chinês, o secretário adotou um tom significativamente mais moderado em relação a Pequim do que em sua participação no mesmo fórum no ano passado. Na ocasião, ele havia se referido repetidamente à "China comunista" como uma ameaça à estabilidade regional e alertado sobre uma possível invasão de Taiwan.
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Desta vez, Hegseth não mencionou a liderança comunista chinesa nem citou Taiwan em seu discurso principal. Em vez disso, afirmou que as relações entre Washington e Pequim estão "melhores do que estiveram em muitos anos" e defendeu uma abordagem baseada em "força medida e deliberada", evitando uma "confrontação desnecessária".
O secretário também mencionou a recente reunião entre Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, em Pequim, durante a qual ambos os líderes manifestaram interesse em tornar a relação bilateral mais estável.
A resposta chinesa seguiu a mesma linha. O principal representante enviado por Pequim ao fórum, o major-general Meng Xiangqing, professor da Universidade Nacional de Defesa da China, afirmou esperar que os dois países transformem os entendimentos alcançados por Trump e Xi em ações concretas e promovam relações militares "saudáveis, estáveis e sustentáveis".
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Ao mesmo tempo em que buscou reduzir tensões com a China, Hegseth voltou a defender um aumento dos investimentos militares por parte dos aliados asiáticos. Repetindo uma cobrança feita no ano passado, ele sugeriu que os países da região elevem seus gastos com defesa para 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB).
O secretário elogiou países que ampliaram recentemente seus orçamentos militares e aprofundaram a cooperação com Washington, incluindo Japão, Coreia do Sul, Austrália e Filipinas. Também afirmou que os EUA pretendem priorizar a cooperação com os chamados "aliados-modelo", oferecendo benefícios como processos mais rápidos para venda de armamentos e maior integração industrial e de inteligência.
— O presidente Trump acredita em ajudar países que ajudam a si próprios — afirmou.
Mais tarde, Hegseth ainda criticou países que, segundo ele, dependem excessivamente da proteção americana sem investir adequadamente em suas próprias capacidades militares. Ele chegou a classificar a Nova Zelândia como um desses casos.
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O secretário também defendeu uma abordagem mais pragmática para a segurança regional, argumentando que o fortalecimento militar é mais importante do que discussões diplomáticas sobre a ordem internacional.
— Regras são ótimas, mas, se você não consegue sustentá-las com poder militar, elas não valem o papel em que foram escritas — afirmou. — Não precisamos de mais conferências; precisamos de mais capacidade de combate. Menos Diálogo de Shangri-La, mais navios e mais submarinos.
As declarações ocorrem em um momento em que cresce a desconfiança de parte dos aliados asiáticos em relação aos EUA. Uma pesquisa realizada pelo Instituto ISEAS-Yusof Ishak, de Cingapura, mostrou que a liderança americana sob Trump passou a ser a principal preocupação geopolítica entre formadores de opinião do Sudeste Asiático, superando até mesmo as tensões no Mar do Sul da China.
Em relatório divulgado na sexta-feira, o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, na sigla em inglês), organizador do Diálogo de Shangri-La, avaliou que a abordagem transacional do governo Trump em relação a alianças e parcerias criou incertezas entre os aliados americanos. Segundo a entidade, os apelos para que parceiros ampliem seus gastos militares alimentaram receios de abandono.
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Durante o evento, a senadora democrata Tammy Duckworth afirmou que aliados dos EUA continuam preocupados com o compromisso de Washington com a região indo-pacífica.
Hegseth rejeitou essas preocupações e afirmou que Washington continuará desempenhando um papel central na segurança do Pacífico Ocidental.
Taiwan foi mencionada apenas durante a sessão de debates que sucedeu o discurso. Um participante questionou se a suspensão de um pacote de armamentos de US$ 14 bilhões (cerca de R$ 70,4 bilhões) destinado à ilha, para preservar munições para o conflito com o Irã, poderia comprometer futuros acordos de defesa.
Hegseth respondeu que os dois temas não devem ser relacionados e afirmou que os EUA permanecem em uma posição forte em relação aos seus estoques de munição e à capacidade de produção militar.
Ele acrescentou ainda que autoridades americanas e chinesas têm intensificado os contatos para melhorar a coordenação entre os dois países e reduzir riscos de erros de cálculo, em linha com os entendimentos alcançados entre Trump e Xi.
Apesar disso, a China enviou ao Diálogo de Shangri-La sua delegação de mais baixo escalão em quase duas décadas de participação regular no evento, optando mais uma vez por não enviar seu ministro da Defesa. A decisão foi interpretada por alguns analistas como um sinal de distanciamento em relação ao fórum, enquanto outros a veem como uma tentativa de evitar confrontos públicos com os EUA em meio à disputa por influência no Indo-Pacífico.
