Chapal Bhaduri: conheça a história do ator indiano que encantou multidões como mulher no palco e acabou apagado pelo próprio teatro

 

Fonte:


Durante décadas, o público lotava praças e arenas improvisadas em Bengala para vê-lo entrar em cena. Vestido como rainha, deusa ou cortesã, Chapal Bhaduri não apenas interpretava mulheres. Ele convencia. Era Chapal Rani, uma estrela do jatra, o teatro popular itinerante da Índia que, por muito tempo, rivalizou com o cinema em alcance e paixão popular.

'Coelhinho chegou': Zeca Pagodinho distribui ovos de Páscoa para crianças em Xerém

Símbolo de castidade? Por que e quando o coelho se tornou símbolo da Páscoa; entenda a tradição

Nascido em 1939, em Calcutá, Bhaduri cresceu cercado de arte. Filho da atriz Prabha Devi, subiu ao palco ainda adolescente e rapidamente encontrou seu lugar em um tipo muito particular de atuação: homens que interpretavam personagens femininos, tradição conhecida como purush ranis.

Mas o que ele fazia ia além da convenção. Havia técnica, claro — voz, gestos, figurinos elaborados —, mas havia também algo mais difícil de nomear. Presença. Intensidade. Verdade.

“Eu tinha maneiras femininas, uma voz feminina”, diria mais tarde. “A feminilidade sempre fez parte de mim”.

No palco, isso se traduzia em personagens densas, longe da caricatura. Fora dele, no entanto, a realidade era menos generosa. O jatra, apesar de popular, era visto com desdém por parte das elites urbanas. E homens que encarnavam mulheres eram frequentemente alvo de preconceito.

Chapal Bhaduri

Reprodução/Facebook/Centre for Studies in Gender and Sexuality — Ashoka University

Ainda assim, Chapal resistiu. Viveu amores discretos, recebeu cartas de admiradores e manteve, por mais de três décadas, um relacionamento que nunca pôde existir plenamente à luz do dia. “Recuso-me a pedir desculpas pelo amor”, afirmou.

Quando o aplauso vira silêncio

O tempo, porém, mudou o palco. Com a chegada de mulheres ao jatra, o público passou a preferir atrizes. O espaço para artistas como Chapal, as "rainhas de bigode do jatra", encolheu rapidamente — até desaparecer.

Vieram as vaias. A rejeição. Em uma apresentação, ele foi expulso do palco.

Como tantos outros de sua geração, viu a carreira ruir sem transição. Vieram os trabalhos ocasionais, os bicos, as apresentações esparsas. O artista que já havia sido ovacionado passou a sobreviver à margem daquilo que ajudou a construir.

O retorno de um nome esquecido

Foi só no fim dos anos 1990 que sua história começou a ser resgatada. Um filme, uma exposição, depois participações no cinema. Aos poucos, Chapal Bhaduri voltava a ser lembrado.

E, em um mundo mais disposto a discutir identidade e diversidade, sua trajetória ganhou novo significado.

— Enquanto muitos papéis queer eram tratados com deboche, Chapal se transformava em mulher com honestidade e coragem — resume o escritor Sandip Roy.

Chapal Bhaduri

Reprodução/Facebook/Centre for Studies in Gender and Sexuality — Ashoka University

Mesmo assim, ele nunca se encaixou em rótulos. Não se dizia parte de um “terceiro gênero”, não reivindicava categorias. Preferia existir à sua maneira, dentro e fora do palco.

Hoje, longe dos aplausos, vive em uma instituição de repouso, próximo à antiga casa, lidando com as limitações da idade.

Sua história, no entanto, permanece. Não apenas como memória de um artista, mas como um retrato de como a cultura pode celebrar, descartar e, décadas depois, redescobrir aqueles que a moldaram.