Chanceler alemão diz que nem EUA têm força para agir sozinho em 'era da rivalidade entre potências' na Conferência de Munique

 

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À sombra de um ano da errática política externa do presidente americano, Donald Trump, algumas das principais lideranças mundiais estão reunidas na Alemanha para a Conferência de Segurança de Munique, o maior encontro anual para discussão de questões estratégicas na Europa, que ocorre entre esta sexta-feira e o domingo. Em um momento de instabilidade no cerne da Otan, o chanceler alemão, Friedrich Merz, criticou a rápida reorientação dos EUA e cravou que a ordem internacional baseada em regras colapsou e que nem o país mais poderoso do mundo pode prevalecer sozinho aos desafios geopolíticos — em um discurso contundente, enquanto os aliados europeus esperam a próxima mensagem geopolítica de Washington, que será transmitida no sábado pelo secretário de Estado Marco Rubio.

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— Na era da rivalidade entre grandes potências, nem mesmo os Estados Unidos serão fortes o suficiente para agir sozinhos — disse o chanceler na breve parte do discurso feita em inglês, numa fala diretamente endereçada aos americanos, a quem tratou de "caros amigos". — Caros amigos, fazer parte da Otan não é apenas uma vantagem competitiva para a Europa. É também uma vantagem competitiva para os EUA.

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O discurso de Merz está alinhado com manifestações anteriores de autoridades americanas e europeias, que apontaram para a nova abordagem americana — principalmente a pressão aos principais aliados — como uma questão preocupante. Antes da conferência, fundada em 1963 como uma forma de líderes mundiais discutirem sobre as principais ameaças ao mundo em um ambiente informal, oito ex-embaixadores dos EUA na Otan e oito ex-comandantes americanos na Europa divulgaram uma carta aberta pedindo que Washington mantivesse seu apoio à aliança.

"Longe de ser uma instituição de caridade", afirmaram, "a Otan é um multiplicador de forças" que permite aos EUA afirmar seu poder e influência "de maneiras que seriam impossíveis – ou proibitivamente caras – de se alcançar sozinhos".

Também de forma antecipada, na segunda-feira, a organização da conferência divulgou o Relatório de Segurança de Munique de 2026, que descreve Trump como "o mais poderoso daqueles que destroem regras e instituições existentes". O documento cita profundas implicações para o comércio, a segurança e o desenvolvimento em outras partes do mundo, citando que está em curso uma "política destrutiva".

"[Muitos já entenderam que] se continuarem a ser meros espectadores da política destrutiva, acabarão à mercê da política das grandes potências e não devem se surpreender ao encontrar regras e instituições importantes em ruínas", diz o relatório.

O chanceler alemão, Friedrich Merz, na Conferência de Segurança de Munique

Thomas Kienzle/AFP

Merz pareceu reiterar o relatório na abertura do evento em Munique, onde também afirmou que as ações de Trump ao longo do último ano demonstravam que a pretensão de liderança global dos EUA foi "desafiada e possivelmente dissipada".

— A ordem internacional baseada em direitos e regras está sendo destruída. Essa ordem, por mais falha que tenha sido mesmo em seu auge, não existe mais nessa forma — disse.

A pressão sobre os EUA antes da conferência se justifica tanto pelo momento das relações entre os aliados quanto pelo histórico da administração Trump no palco europeu. Há um ano, o vice-presidente JD Vance atacou a Europa por suas políticas migratórias e conclamou os governos pelo continente a encerrar a política de isolamento de siglas da extrema direita. Também disse que a liberdade de expressão estava "em declínio" naquele lado do Atlântico.

As declarações por si só aumentaram as tensões entre os aliados, mas medidas do governo Trump ao longo do ano passado rebaixaram mais a confiança entre as partes. Desde o discurso de Vance, os EUA impuseram tarifas contra produtos europeus, pressionaram pelo fim da guerra na Ucrânia em termos largamente apontados como pró-Rússia, ameaçou tomar a Groenlândia da Dinamarca e retirou financiamento da ONU.

Os primeiros sinais do governo americano frente às críticas foram de apaziguamento. Vance, autor do discurso disruptivo do ano passado, ficará nos EUA neste ano, dando lugar a Rubio. Ao deixar os EUA, na quinta-feira, o secretário de Estado avaliou que a audiência receberia bem a mensagem transmitida, mas se recusou a compartilhar partes do discurso.

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, durante agenda bilateral com ministro das Relações Exteriores da China

Alex Brandon/AFP

— Eles [os aliados europeus] querem saber para onde vamos, para onde gostaríamos de ir, para onde vamos com eles — disse Rubio a repórteres antes de embarcar para Munique, embora tenha deixado claro que a visão de Washington é de que o mundo está diante de grandes mudanças. — O mundo está mudando muito rápido a nossa frente. Estamos vivendo em uma nova era da geopolítica, e isso vai requerer que todos nós reavaliemos como isso se parece e quais serão nossos papéis.

Logo após a divulgação do relatório pelos organizadores da conferência, na segunda-feira, o atual embaixador dos EUA na Otan, Matthew Whitaker, argumentou que Trump não está tentando desmantelar a aliança, mas sim torná-la "mais forte", pressionando os aliados a contribuírem mais.

— Não estamos tentando desmantelar a Otan — disse Whitaker. — Não estamos pedindo autonomia europeia. Estamos pedindo força europeia, que vocês sejam tão fortes quanto os Estados Unidos, que continuem sendo grandes aliados, que nossos laços permaneçam estreitos, e que simplesmente esperamos que vocês façam mais.

A estratégia de pressão de Trump alcançou resultados no plano prático. Muitos países europeus, incluindo a Alemanha, aprovaram aumentos em seus orçamentos de segurança e defesa, com a previsão de um rearmamento das capacidades europeias. Outros países, como França e Holanda, também assumiram compromisso de expandir suas capacidades, bem como a Polônia — país que está na "fronteira" de tensão entre Rússia e Ucrânia.

O próprio Merz lançou críticas à parte europeia da Otan em seu discurso nesta sexta. Ele disse que os europeus não fazem o suficiente para fortalecer a segurança e desenvolver a economia de uma forma independente dos EUA. Ele comparou as capacidades econômicas e de defesa do bloco europeu com a Rússia, a fim de justificar o argumento.

— O PIB da Rússia ronda os 2 bilhões de euros. O da União Europeia é quase 10 vezes superior. Mesmo assim, a Europa não é hoje 10 vezes mais forte do que a Rússia — afirmou.

Uma série de encontros bilaterais devem acontecer à margem dos três dias de evento — nesta sexta, Rubio encontrou o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi. Entre os discursos previstos para o palco principal nesta sexta-feira estão o chanceler alemão, Friedrich Merz, o presidente francês, Emmanuel Macron, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, e Reza Pahlavi, filho do deposto xá do Irã. O discurso de Rubio será no sábado. (Com NYT e AFP)