Chaiany pode até não vencer o 'BBB 26', mas já ganhou mais do que qualquer um no programa; entenda
O sentimento de inadequação social está longe de ser raro, mas a forma como se lida com ele é crucial para que alguém siga em frente em busca de realizações ou sucumba à armadilha do fracasso. Apesar da graça e do carisma, a participante Chaiany, do “Big Brother Brasil 26’’, comove os mais atentos por sua postura constantemente autodepreciativa. Sem saber que aqui fora já coleciona uma legião de torcedores, resumiu em uma frase tocante a maneira como se sente inferiorizada: “Faz o que ninguém fez, escolhe eu”, implorou ao público ao se ver ameaçada pelo paredão que poderia arruinar seu sonho de continuar no reality.
O programa seria, para ela, como parece ser para tantos, a única chance de mudar de vida. A menina pobre que desde cedo começou a trabalhar, lidou com a roça e engravidou precocemente aos 15 anos nunca deixou de contar com o apoio da família. Porém, acredita ser um fardo para ela. Se diz burra, repetindo isso quase como um mantra. Sua autoestima, praticamente nula, funciona como anestesia: é incapaz de se sentir amada. Nisso, ainda que não fature o prêmio, o “BBB’’ já será transformador em sua trajetória.
Quão flexíveis somos diante dos moldes que tentam nos limitar? Se de um lado há quem se sinta pequeno demais para o mundo, de outro há quem se recuse a caber nos limites que lhe impõem.
Entre meus esportes preferidos, está ouvir conversas em mesas alheias nos restaurantes. Esta semana, uma senhora falante confidenciava ao homem que a acompanhava: “Fui visitar meu irmão em Curitiba. Fiquei hospedada na casa dele, que me recebeu bem. Mas as conversas, a rotina deles... Em determinado momento, quiseram que eu visitasse um conhecido internado. Eu disse que não iria. E confesso: tive vontade de voltar antes do previsto. Fazer o que gosto, ligar o computador e trabalhar um pouco. Preciso me sentir viva; não quero visitar cemitérios. Aos 80, estou aqui com você, almoçando com um amigo. Isso me faz bem. Outro dia, me questionaram: ‘Você só pensa em viajar, não está guardando dinheiro para a velhice’. Devolvi: ‘Qual? Tem outra?’ (risos)”.
Minha vontade era ir até aquela mulher e parabenizá-la. Confessar que, enxerida que sou, tinha escutado toda a conversa e que suas palavras eram inspiradoras. Havia nela mais juventude do que em muito jovem que conheço. E isso estava diretamente ligado ao fato de não se deixar engavetar, de não permitir que a encaixassem numa ideia antiquada de velhice, como se restasse apenas esperar a morte.
Mas não é simples ser sábia assim. A experiência e a maturidade da senhora de Copacabana a colocam em vantagem em relação à Chaiany, que até hoje teve poucas oportunidades de conhecer a vida. Independentemente da idade que se tem, no entanto, é fundamental ter consciência e inteligência emocional para reconhecer o próprio valor, ainda que o mundo insista em negá-lo.
Embora a maioria das pessoas não possa fazer grandes viagens, adquirir bens caríssimos ou realizar feitos extraordinários, há beleza no ordinário, prazer no cotidiano que não deveria ser desperdiçado à espera de um grande dia que talvez nem chegue. Sabe o velho clichê de curtir o caminho, e não apenas vislumbrar o destino? É por aí.
No confinamento do “BBB 26’’, Chaiany experimentou, em um mês, mais do que viveu ao longo de seus 25 anos. Se avançará no jogo, o público decide. Mas já há uma vitória silenciosa em curso: descobrir que o mundo pode ser maior do que a culpa que carregamos. Chai pode muito mais do que imagina. A senhora do restaurante também. E talvez a juventude verdadeira não tenha idade, tenha coragem.
