Chácara do Céu: favela no Leblon tem construções que chegam a sete andares e podem ser avistadas de Ipanema
A favela Chácara do Céu, no Alto Leblon, entre a Mata Atlântica e os limites do Parque Natural Municipal Penhasco Dois Irmãos, na Zona Sul, chama a atenção por suas construções que chegam a cerca de sete andares e passaram a despontar em meio às árvores, ficando visíveis de Ipanema, a quatro quilômetros de distância, onde antes não apareciam. Ao nível das lajes, há pilhas de entulho, materiais espalhados e obras em andamento, enquanto uma das casas já alcança o quarto pavimento.
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Imagens recentes feitas com drone, somadas à comparação com registros de satélite do Google Earth entre 2020 e 2025, revelam que ela cresce para o alto, embora o território ocupado siga praticamente o mesmo, sem avanço significativo sobre a mata.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2022, a Chácara do Céu tem 591 moradores distribuídos por 231 casas em área de apenas 0,025 quilômetro quadrado. A densidade populacional na comunidade, equivalente a 23.550,51 habitantes por quilômetro quadrado, é mais de quatro vezes a média da cidade do Rio, de 5.174,60 moradores por quilômetro quadrado, com área de 1.200,33km².
Imagens de satélite da favela Chácara do Céu: à esquerda, um registro de 2016. Á direita, um registro mais recente, de 2025
Montagem/ Google Earth
Esse nível de adensamento não é um caso isolado no estado. Pela primeira vez, de acordo com o mesmo levantamento, oito das dez favelas mais verticalizadas do país estão no Rio de Janeiro. A lista inclui Rocinha, Rio das Pedras, Muzema e Tijuquinha. O crescimento das favelas no Brasil, de forma geral, também ajuda a contextualizar o caso. Entre 2000 e 2022, a população de toda a cidade do Rio cresceu 6%, enquanto apenas nas favelas o aumento foi de 23,53%, também segundo o IBGE.
A presidente da Associação de Moradores do Leblon, Evelyn Rosenzweig, que esteve à frente do Programa de Orientação Urbanística e Social (Pouso), criado em 2008 para promover regularização, planejamento e fiscalização em áreas de interesse social, afirma que a iniciativa foi descontinuada. Segundo ela, o programa atuava diretamente dentro das comunidades, oferecendo orientação técnica para evitar construções que pudessem comprometer a estrutura dos imóveis, sobretudo em regiões de encosta, mais sujeitas a deslizamentos em caso de chuvas intensas.
A Chácara do Céu nos dados do Censo 2022
Editoria de Arte
— A ideia era orientar o morador sobre o que pode e o que não pode fazer nas construções, de forma viável, para que ele conseguisse, inclusive, registrar o imóvel. Isso era ótimo, já que o morador sofria com essa condição. Era um projeto muito difícil e conseguiu dar certo por um tempo — explica a presidente da associação, lembrando que o programa foi interrompido em meados de 2018. — O projeto denunciava construções ilegais, principalmente essas verticais e perigosas. Hoje ninguém faz vistoria, e isso fica ainda mais visível para o lado do Vidigal. Todo mundo vê material de construção subindo e descendo. Recebemos denúncias dos moradores da Chácara, mas estamos impotentes.
Sydnei Menezes, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio (CAU/RJ), afirma que enfrentar o problema exige medidas estruturais. Ele aponta três caminhos principais: o reconhecimento dessas áreas como de interesse social, a criação de regras urbanísticas específicas e a presença efetiva do poder público.
— Dependendo da área, o solo não permite esse tipo de crescimento. Limitar a verticalização deveria ser um princípio básico — diz o especialista. — Mesmo quando as unidades são construídas em um pavimento só, com uma superestimativa de cálculo estrutural, é preciso que se tenha clareza de que qualquer construção acima poderá comprometer (a segurança).
Em nota, a Secretaria de Meio Ambiente e Clima afirmou que as construções estão fora dos limites do Parque Natural Municipal Dois Irmãos, mas disse que enviará uma "equipe ao local para vistoriar".
