Cesta básica sobe em Belém e consome quase metade do salário mínimo local
O custo da cesta básica em Belém iniciou 2026 em alta e continua pesando no orçamento dos trabalhadores. Em janeiro, o conjunto dos alimentos essenciais chegou a R$ 673,55, aumento de 1,05% em relação a dezembro de 2025, quando o valor era de R$ 666,57, segundo levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese-PA), em parceria com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
O valor comprometeu 44,92% do salário mínimo vigente, fixado em R$ 1.621,00, e exigiu que o trabalhador destinasse cerca de 96 horas e 36 minutos de trabalho apenas para adquirir os itens básicos de alimentação.
Na prática, o impacto é sentido diretamente no dia a dia dos consumidores. A aposentada Maria Elizabeth de Araújo, de 73 anos, afirma que tem enfrentado dificuldades crescentes para manter o padrão de consumo.
“Eu tenho percebido que a cesta básica aumentou muito em relação do mês passado para este mês. A carne vermelha, frango, batata, material de limpeza está caríssimo. Outra coisa que a gente comprava de um preço bom, a gente não consegue comprar mais, mussarela, queijo, tudo isso está encarecendo muito a nossa cesta básica”, relata.
Ela também defende medidas que possam aliviar os custos para os consumidores. “Então, eu acho que deveriam fazer mais pesquisas para que os supermercados pudessem fazer promoções que tivessem no nosso bolso”, acrescenta.
Alimentação familiar ultrapassa um salário mínimo
O impacto é ainda maior quando considerado o custo alimentar de uma família padrão, composta por dois adultos e duas crianças. O gasto mensal estimado chegou a R$2.020,65, o equivalente a 1,24 salários mínimos.
Mesmo com algumas reduções pontuais de preços, os consumidores relatam que itens específicos continuam pressionando o orçamento. A trabalhadora autônoma Marta Helena Gemaque da Silva, de 58 anos, afirma que alguns produtos permanecem caros. “Para a gente, eu acho que eu não tive nenhuma diferença de valor. Agora, ultimamente, o que tem aumentado é o café, que não baixou mais, e o óleo de cozinha, que aumentou ultimamente”, afirma.
Maria Helena diz que embora alguns alimentos tenham apresentado queda, o impacto ainda é significativo. “Teve uma variação de preço de feijão que diminuiu um pouco, o arroz que baixou também, mas em relação assim eu acho que aumentou ultimamente foi mais o óleo de cozinha pra mim”, completa.
Tomate lidera aumento entre alimentos
Entre os produtos pesquisados, o tomate apresentou a maior alta em janeiro, com aumento de 12,12%, seguido pelo feijão (3,47%), banana (2,32%), carne bovina (1,37%) e pão (0,96%). Na Feira da 25 de Setembro, no bairro de São Brás, em Belém, o vendedor Messias Gomes confirma a instabilidade nos preços e relata que o valor depende do custo de aquisição do produto. “Hoje o quilo está vendendo a R$12 e baixou para R$10”, afirma.
Tomate apresentou a maior alta em janeiro, com aumento de 12,12%, segundo o Dieese (Carmem Helena/O Liberal)
Ele explica que houve aumento recente no custo da mercadoria. “Teve sim aumento. Eu pagava na caixa de R$120 a R$150. A caixa vem com o equivalente a 20 ou 25 quilos”, diz. O vendedor conta que o preço é influenciado pela origem do produto, que vem de outros estados. “Normalmente é São Paulo, Santa Catarina, Minas Gerais e Goiás. O tomate vem de fora, não é daqui”, explica.
Atualmente, ele afirma que os preços se estabilizaram, mas ainda em patamar elevado. “O preço parou, ficou estável. A caixa ficou de R$120 a R$130. E o quilo do tomate fica em torno de R$10 a RS12 . Não dá pra vender mais barato do que isso, senão a gente não lucra nada”, afirma.
Cesta acumula queda em 12 meses, mas pressão permanece
Apesar da alta recente, o custo da cesta básica em Belém acumulou queda de 3,48% nos últimos 12 meses, influenciada principalmente pela redução nos preços do arroz (-40,08%), açúcar (-38,03%) e farinha de mandioca (-20,11%). Ainda assim, alguns produtos tiveram aumento significativo no período, como o café, que subiu 24,85%, além do pão e da banana.
Salário mínimo ainda está distante do necessário
De acordo com o supervisor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) no Pará, Everson Cardoso, estima-se que o salário mínimo necessário para sustentar uma família de quatro pessoas, cobrindo todas as despesas básicas, deveria ser de R$ 7.177,57 — o equivalente a 4,43 vezes o salário mínimo atual.
Para o especialista, o “dado evidencia a distância entre o rendimento oficial e o custo real de vida, realidade que se reflete nas escolhas diárias dos consumidores e na redução do poder de compra das famílias paraenses”.
