Cessar-fogo sob pressão: Irã afirma ter reimposto fechamento do Estreito de Ormuz em resposta a bloqueio dos EUA
O Irã reverteu neste sábado sua decisão de reabrir o Estreito de Ormuz, via marítima crucial por onde passam 20% da produção global de petróleo e gás natural liquefeito (GNL), em resposta à manutenção pelos EUA de um bloqueio contra navios que navegam de e para portos iranianos. Em comunicado, comando central militar do Irã afirmou que o estreito "retornou ao seu estado anterior" e será mantido "sob estrito controle" enquanto a medida americana perdurar. Após o anúncio, um serviço de monitoramento marítimo da Marinha Britânica informou ter recebido informações de disparos de lanchas rápidas da Guarda Revolucionária, força de elite do Irã, contra um navio-tanque na hidrovia.
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A República Islâmica havia "aceitado de boa-fé autorizar a passagem de um número limitado de petroleiros e navios comerciais" pelo estreito, mas os americanos "continuam com atos de pirataria amparados no chamado bloqueio", denunciou neste sábado o comando militar. Em uma mensagem publicada em seu canal no Telegram, o líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, que não aparece em público desde antes do início da guerra, afirmou que a "corajosa Marinha do Irã está preparada para fazer com que os inimigos provem o gosto amargo de novas derrotas".
Após o anúncio, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, advertiu durante um evento na Casa Branca que o Irã não pode "chantagear" Washington com suas mudanças de posição.
A decisão do Irã aumentou a confusão sobre o status do trânsito pelo estreito, onde o país tem travado o fornecimento global de energia em retaliação à guerra iniciada pelos EUA e Israel em 28 de fevereiro, há sete semanas. Em resposta aos bombardeios, a República Islâmica também lançou mísseis e drones contra países no Golfo. Na manhã deste sábado, o site MarineTraffic mostrou pouco mais de dez navios circulando na região, incluindo petroleiros, mas horas depois ao menos dois pareciam dar meia-volta. Antes da guerra, quase 120 navios atravessavam diariamente a hidrovia, segundo a publicação especializada Lloyd's List.
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O anúncio feito na sexta-feira pelo chanceler iraniano, Abbas Araghchi, de "reabertura completa" da via durante os dez dias de duração do cessar-fogo de Israel no Líbano provocou uma alta nas Bolsas, fez o preço do barril cair para cerca de US$ 90 e causou otimismo em Washington, onde o presidente Donald Trump declarou à AFP que não havia mais "pontos conflitivos" e que um acordo de paz mais amplo entre Estados Unidos e Irã estava "muito próximo".
Na própria sexta, porém, esse otimismo já havia sido posto em xeque por autoridades iranianas, como o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, que esclareceu que os navios ainda precisariam de permissão de Teerã para cruzar a passagem e pelo anúncio de Trump de que o bloqueio americano seria mantido até que se alcançasse um acordo definitivo. E, embora o republicano tenha afirmado que novas negociações com o Irã ocorreriam neste fim de semana, nenhuma nova reunião presencial foi anunciada ainda.
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O presidente americano frequentemente faz afirmações excessivamente otimistas sobre a guerra e não embasadas na realidade, como a reiteração de que o Irã teria concordado em entregar seus 440 kg de urânio enriquecido a graus mais elevados, a 60%, uma questão-chave das negociações. Na sexta-feira, porém, o Irã afirmou que esse material, que o republicano normalmente chama de “poeira nuclear”, não será transferido a lugar nenhum.
— Transferir urânio para os Estados Unidos não é uma opção. Assim como o solo iraniano é sagrado, o urânio enriquecido também o é — disse à agência Tasnim Esmail Baghaei, porta-voz da Chancelaria iraniana.
Desde o começo do século, quando surgiram evidências sobre planos para uma possível militarização do programa nuclear iraniano — que antecede a República Islâmica —, Teerã jamais cogitou abrir mão de seu direito a atividades atômicas, que pontua ter como objetivo atividades civis. Mesmo quando o Irã se sentou à mesa e aceitou controles externos, como no acordo de 2015, o desmantelamento de centrífugas, reatores e instalações análogas nunca esteve em pauta.
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Trégua sob pressão
As esperanças de um fim para a guerra foram reforçadas pelo cessar-fogo de 10 dias no Líbano, que entrou em vigor na sexta-feira após um mês e meio de conflito deixar quase 2.300 mortos no país, além de um milhão de deslocados. O acordo provocou comemorações no Líbano, com milhares de famílias deslocadas retornando para casa, e o tráfego voltou a ser intenso na manhã deste sábado, com pessoas continuando a se dirigir para o sul do país ou a periferia sul de Beirute.
Como condição para um acordo mais amplo, Teerã havia exigido que uma trégua de duas semanas iniciada em 8 de abril com Washington e Tel Aviv se estendesse ao Líbano, onde Israel mantém presença em uma faixa de 10 km de profundidade a partir da fronteira e realiza ataques com o argumento de que combate o grupo xiita Hezbollah, aliado da República Islâmica. Trump e autoridades americanas trabalharam para que isso acontecesse, mesmo negando que estivessem tentando atender às exigências iranianas. Na sexta-feira, Trump disse que Washington "proibiu" Israel de continuar com seus ataques.
"Israel não bombardeará mais o Líbano. Os Estados Unidos PROIBIRAM de fazer isso. JÁ BASTA!", escreveu na rede Truth Social.
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O Líbano trabalha agora em "um acordo permanente" com Israel, segundo seu presidente, Joseph Aoun, que prometeu "salvaguardar os direitos" de seu país e "não ceder nenhum pedaço do território nacional" nas negociações. Para Aoun, a trégua é "uma fase de transição (...) para trabalhar em um acordo permanente que proteja os direitos do nosso povo, a unidade do nosso país e a soberania da nossa nação".
Mas o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ressaltou que a ofensiva contra o Hezbollah não havia terminado. "Ainda há coisas que planejamos fazer a respeito das ameaças dos foguetes e drones" do movimento libanês, disse Netanyahu em uma mensagem gravada.
Neste sábado, o Exército israelense indicou haver uma "linha amarela" de demarcação no sul do Líbano, igual a uma imposta na Faixa da Gaza, após afirmar ter disparado, na véspera, contra suspeitos que se aproximavam de suas tropas em uma área delimitada. Paralelamente, um soldado francês morreu e três ficaram feridos em um ataque neste sábado contra capacetes azuis da ONU no Líbano que, segundo os primeiros indícios, foi executado pelo Hezbollah, afirmou o presidente francês Emmanuel Macron.
No âmbito dos esforços de paz, o marechal Asim Munir, comandante do Estado-Maior do Exército paquistanês, concluiu uma visita de três dias ao Irã, onde se reuniu com autoridades. O primeiro-ministro Shehbaz Sharif anunciou o fim de uma viagem que teve escalas na Arábia Saudita, Catar e Turquia.
À margem de um fórum diplomático em Antália, na Turquia, o diplomata iraniano Saed Khatibzadeh afirmou que os Estados Unidos "não podem impor a sua vontade" e bloquear o "Irã enquanto o país, com boas intenções, tenta facilitar a passagem segura pelo Estreito de Ormuz". Ele acrescentou que não há data marcada para a próxima rodada de negociações com os Estados Unidos, cujo presidente, afirmou, "tuíta e fala muito".
Com New York Times e AFP
