Césio 137: Relembre o caso em Goiânia que inspirou nova série 'Emergência radioativa'
Quem iria imaginar que 19 gramas de um pó azul brilhante geraria seis toneladas de lixo e o maior desastre radioativo do mundo fora de uma usina — logo em Goiânia, no meio do Brasil? Essa história começou em 13 de setembro de 1987, quando os catadores de material reciclável Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira pegaram uma peça de aço do terreno abandonado onde funcionava o Instituto Goiano de Radioterapia, a desmontaram e a venderam no ferro velho de Devair Alves Ferreira.
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A partir daí, partículas radioativas de Césio 137, que estavam dentro da estrutura de aço, começaram a se espalhar e contaminar dezenas de pessoas. Essa história é recontada nesta quarta-feira coma estreia da série "Emergência radioativa" na Netflix, estrelada por Johnny Massaro, Ana Costa, Paulo Gorgulho e outros. A direção geral é de Fernando Coimbra e a criação, de de Gustavo Lipsztein.
Paulo Gorgullho em 'Emergência radioativa'
Netflix
Aviso às autoridades
Quando desmontou ainda mais a peça e viu o brilho do pó azul, Devair deu de presente a vários familiares as partículas brilhantes — que não fazia ideia serem radioativas. Pouco depois, porém, todos começaram a ter vômitos e diarréia, inclusive Maria Gabriela Ferreira, esposa dele. Desconfiada de que a sucata pudesse ter a ver com os sintomas, ela levou a peça para Vigilância Sanitária e foi internada.
Com a suspeita de que radiatividade pudesse estar envolvida, o físico Walter Ferreira foi chamado e confirmou: a sucata era mesmo radioativa. Nesse momento, dezenas de pessoas já apresentavam sintomas como queimaduras, perda de cabelo, tonturas, vômitos e diarréias. Uma das contaminadas era a menina Leide das Neves, de 6 anos, sobrinha de Devair e Maria Gabriela, que engoliu o pó brilhante.
Técnico do Centro Nacional de Energia Nuclear mede nível de radiação de depósito em Goiânia, em 6 de outubro de 1987
Glaucio Dettmar / Agência O Globo
A menina foi a pessoa que mais apresentou radiação no corpo e chegou a ser transferida para o Rio de Janeiro, juntamente com a tia e outros contaminados. Nenhuma das duas resistiu: ambos morreram no dia 23 de outubro de 1987. Os funcionários do ferro-velho Israel Batista dos Santos, de 20 anos, Admilson Alves de Souza, de 18 anos, morreram nos dias 27 e 28 de outubro, respectivamente. O acidente fez essas quatro vítimas diretas, mas a Associação de Vítimas do Césio 137 aponta outras 60 e pelo menos 1,6 mil pessoas afetadas pela exposição ao material.
A descontaminação das casas, ruas e bairros produziu toneladas de lixo, depositado em dezenas de contêineres, enterrados sob uma parede de um metro de espessura de concreto e chumbo, no município de Abadia de Goiás.
A cápsula acimentada, com a sucata contendo o Césio, 19 de outubro de 1987
Gilberto Alves / Agência O Globo
Cinco profissionais do Instituto Goiano de Radioterapia foram condenados por homicídio culposo, quando não há intenção de matar, pela negligência com os aparelhos. A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), que supervisiona os equipamentos de radiologia no país, teve que pagar, segundo a série, R$ 1 milhão no atendimento às vítimas.
