Pouco depois de perder Titina Medeiros, sua companheira de duas décadas, César Ferrario precisou encontrar forças para seguir.
O ator, que começou a gravar A Nobreza do Amor após a morte da atriz, em janeiro deste ano, encontrou no trabalho não só um novo personagem, mas também um espaço de acolhimento para atravessar um dos períodos mais dolorosos de sua vida.
Na novela, César interpreta Fortunato, um delegado de personalidade forte, rude e desagradável, que é extremamente violento com a esposa, Maria Helena, encarnada pela atriz Quitéria Kelly, e agressivo e rígido com o filho, Manoel, vivido por Daniel Rangel.
O convite para o papel veio da diretora de elenco Marcella Bergamo, e o ator conta que só conheceu melhor os contornos do personagem no início do processo.
"Eu já tenho um histórico de fazer vilões.
E confesso que eu gosto muito.
Eu adoro, para ser bem sincero", conta, rindo.
César Ferrario vive Fortunato em 'A Nobreza do Amor'
Globo/ Divulgação
César acredita que personagens como Fortunato são fundamentais para movimentar uma história e também para provocar reflexões.
Embora a trama se passe na década de 1920, ele chama atenção para a continuidade de determinados comportamentos na sociedade.
"A novela se passa na década de 20, né? 100 anos atrás! E é impressionante como, nesses 100 anos, essas questões teimam em perdurar na nossa sociedade", reflete.
O ator não esconde, contudo, que nunca se imaginou nos papéis tradicionais de galã ou mocinho.
Sua trajetória acabou sendo marcada por personagens mais complexos, muitas vezes ligados à violência ou à ambiguidade moral.
"Eu não me vejo jamais de galã.
Nunca...
Eu deixo para os que sabem fazer", afirma.
Fortunato (César Ferrario), Maria Helena (Quitéria Kelly) e Manoel (Daniel Rangel) em 'A Nobreza do Amor'
Globo/ Estevam Avellar
Despedida
Fortunato, porém, surgiu em um momento muito particular da vida de César.
O ator havia acabado de atravessar o tratamento de câncer de pâncreas de Titina, sua companheira desde 2006, e precisou conciliar o início do novo trabalho com a despedida recente da esposa.
César conta que o primeiro contato com a equipe da novela aconteceu em dezembro do ano passado, durante a preparação do elenco, e a primeira cena foi gravada em 28 de janeiro, 17 dias depois da morte de Titina.
"Até o último instante, ela tinha fé na cura"
Emocionado, ele lembra que, quando aceitou fazer a novela, o plano do casal era outro.
Titina ainda tinha esperança na própria recuperação, e os dois planejavam se mudar juntos para o Rio de Janeiro.
César chegou até a alugar um imóvel pensando em receber a companheira e toda a família.
"Ela tinha muita fé na cura.
Até o último instante, ela tinha fé na cura.
E o nosso plano inicial era mudarmos todos para o Rio de Janeiro", recorda.
A realidade, contudo, mudou os planos.
E, por uma sequência de acontecimentos, César conseguiu ficar ao lado de Titina até o último instante antes de se dedicar integralmente à novela.
Para ele, essa coincidência de datas teve um significado especial.
"Eu ainda tive mais duas semanas lá para poder resolver tudo.
Ou, pelo menos, boa parte do que era mais urgente.
E aí foi quando eu pude vir para cá definitivamente", conta.
"Eu confesso que isso me angustiou muito.
E, por fim, não sei se da melhor forma, mas o processo natural das coisas levou, claro, a uma concatenação de datas que eu cheguei até a desconfiar se não era uma providência divina", recorda.
Titina Medeiros e César Ferrario
Reprodução/Instagram
"Salvação"
No meio da dor, o elenco e a equipe de A Nobreza do Amor se tornou uma espécie de rede de apoio e proteção.
César fala com carinho sobre o grupo liderado pelo diretor artístico Gustavo Fernandez, e conta como a ajuda dos colegas tem sido essencial em seu processo de luto.
"Esse trabalho foi uma salvação em todos os aspectos que você pode imaginar", afirma.
"Eu a levo comigo.
Sempre.
Em mim, ela será eterna"
Ele acredita que a presença de Titina também segue, de alguma forma, dentro desse trabalho.
Vindos do Rio Grande do Norte, os dois começaram no teatro e, juntos, atravessaram diferentes palcos até chegarem à televisão.
A primeira cena de César para a TV, inclusive, foi ao lado dela em Cheias de Charme, trama exibida em 2012 na Globo.
"Eu a levo comigo.
Sempre.
Em mim, ela será eterna", declara.
Além da companheira, Titina era reconhecida como uma importante voz da cultura nordestina.
E César lembra que ela foi uma espécie de embaixadora de sua terra e sua arte ajudou a aproximar o Nordeste de outros públicos pelo país.
"Nós somos, sim, representativos desse trânsito do Nordeste para o Sudeste e vice-versa.
É muito interessante a novela se passar no meu Estado.
Eu acho isso incrível", elogia, referindo-se a Barro Preto, cidade fictícia do interior do Rio Grande do Norte, em que A Nobreza do Amor é ambientada.
Titina Medeiros e César Ferrario
Reprodução/Instagram
Homenagens
César diz que a memória de Titina também ganhou um lugar físico em sua terra natal, Acari, no Rio Grande do Norte.
Lá existe um memorial que reúne figurinos, objetos pessoais e registros da trajetória da atriz no mesmo espaço em que ela estudou quando criança.
Para César, estar ali é uma experiência difícil de explicar.
"Quando você chega na cidade, você tem a igreja, você tem a casinha dela, e você tem o memorial de Titina Medeiros, que era na escola em que ela estudou.
E por trás fica o cemitério onde ela está.
Então, assim, isso é muito ela", conta, emocionado.
A dor, no entanto, não apagou a gratidão pelos anos vividos ao lado de Titina.
César fala sobre o luto com delicadeza, sem esconder a tristeza, mas também sem deixar que ela seja a única narrativa sobre a história dos dois.
"Eu sou um privilegiado, eu me acho uma pessoa muito agraciada, de muita sorte, muito feliz por ter tido essa oportunidade de viver ao lado dela", afirma.
Ele diz que encontrou na memória da ex-companheira uma forma de continuar e afirma que a alegria, a generosidade e a luz que reconhece nela permanecem como referências para os dias que virão.
E, enquanto segue gravando a novela, também pensa em manter vivo um dos maiores legados de Titina: o compromisso com a arte popular.
A atriz era fundadora da Casa de Zoé, entidade voltada à produção artística e à promoção da cultura.
Hoje, César pretende dar continuidade a esse trabalho, começando pela terra natal dela e envolvendo a família em novos projetos.
"Agora é manter a Casa de Zoé no compromisso com a arte popular, com as praças, com o acesso gratuito e com uma linguagem que funcione de forma indistinta para todas as pessoas", planeja.
Mesmo ainda atravessando o luto, o ator começa a olhar devagarzinho para o mundo.
Para ele, falar sobre Titina é uma forma de honrar a história que os dois construíram.
"Se sou triste pelo que falta, sou muito feliz pelo que ela me deu", declara.
César Ferrario e Titina Medeiros eram casados há 20 anos
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