Centro TEA completa um ano com 300 mil atendimentos em São Paulo
Quando Lourenzo Gonzaga de Souza, de 12 anos, sai sozinho para comprar pão, a mãe, Jacia Moura Gonzaga, observa à distância. A tarefa faz parte de uma rotina que hoje também inclui ler, escrever, dobrar roupas e se adaptar bem a ambientes como trem, metrô e avião — avanços conquistados após o inÃcio do acompanhamento no Centro TEA Marina Magro Beringhs Martinez, em Santana, Zona Norte de São Paulo.
A unidade integra um plano mais amplo da Prefeitura de São Paulo e é a primeira de quatro que serão entregues até 2028. As próximas estruturas estão previstas para atender também as Zonas Sul, Oeste e Leste da cidade, ampliando a cobertura e o acesso da população ao serviço.
A trajetória de Lourenzo ajuda a dimensionar o alcance do serviço um ano após sua inauguração. No perÃodo, foram realizados mais de 300 mil atendimentos. Atualmente, cerca de 1,4 mil pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) são acompanhadas pela unidade, além de mais de 1,3 mil famÃlias atendidas.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Transtorno do Espectro do Autismo reúne condições variadas ligadas ao desenvolvimento do cérebro, com diferentes graus de dificuldade na comunicação e na interação social. As necessidades variam ao longo da vida, e intervenções psicossociais baseadas em evidências podem melhorar a comunicação e o bem-estar dessas pessoas e seus cuidadores. O acompanhamento, segundo o organismo, também deve incluir ações em nÃvel comunitário para maior acessibilidade e inclusão.
Modelo de atendimento
Pioneiro na América Latina, o Centro TEA, um projeto da Prefeitura de São Paulo, foi concebido para ir além do modelo tradicional de atendimento. Longe das caracterÃsticas de ambiente hospitalar, alia a busca pela autonomia a atividades que envolvem esportes, cultura e educação, com foco na inclusão e na qualidade de vida de seus usuários, cuja idade mÃnima é de 6 anos.
– As famÃlias estão muito felizes com o desenvolvimento, convivência social e autonomia de seus filhos porque ali é um espaço de acolhimento, de cuidado, temos o suporte de uma equipe multidisciplinar, oferecendo atendimento integral tanto para crianças, jovens, adultos e idosos com transtorno do espectro do autismo quanto para as suas famÃlias – explica a secretária municipal da Pessoa com Deficiência, Silvia Grecco.
O espaço atende a moradores de todas as regiões da cidade e há previsão de implantação de mais três unidades até 2028. O público é majoritariamente infantil: 60,37% dos usuários têm entre 6 e 13 anos. Adolescentes representam 15,84%, enquanto adultos somam 23,79%.
Aulas de culinária são uma das atividades que usuários têm à disposição no espaço
Sergio Barzaghi/Prefeitura de São Paulo/Divulgação
Os atendimentos são definidos por uma equipe multidisciplinar, formada por psicólogos, assistentes sociais, fonoaudiólogos, nutricionistas, psiquiatras e terapeutas educacionais, além de profissionais das áreas de educação fÃsica, psicopedagogia, neurologia e administração. Eles elaboram planos a partir das necessidades de cada participante – além de sessões individuais, há atividades coletivas, como oficinas e grupos terapêuticos.
Entre as mais procuradas estão práticas de vida diária, atividades aquáticas, culinária, música e jardinagem. Nas oficinas, o trabalho respeita o ritmo e as particularidades de cada um.
– Muitas famÃlias, por medo, acabam não incluindo os filhos em atividades na cozinha. Aqui, respeitamos o tempo de cada um – explica a oficineira Francini Silvestre Gea.
Segundo ela, os aprendizados frequentemente ultrapassam o espaço das aulas e passam a fazer parte da rotina em casa.
Hebert Alexandre de Oliveira, 44 anos, pai de Monique, 8, elogia a forma como a filha é acolhida no espaço e diz que sempre recebe devolutivas dos profissionais que a acompanham.
– Quando falamos que é dia de ir no Centro TEA ela já vai sozinha tomar banho e pega a chave do carro – conta.
Os efeitos do acompanhamento aparecem também na socialização. – Eu sou tÃmida, mas aqui fiz amizades e percebi que isso faz diferença – diz Maria Vitória, de 21 anos.
Apoio à s famÃlias
Além dos pacientes, o centro também direciona atenção à s famÃlias. Responsáveis têm acesso a grupos, oficinas e espaços de troca. José Maximiano da Silva, 64 anos, avô de Matheus, de 14, atendido desde a inauguração, conta que o espaço proporcionou uma rede de apoio e convivência entre as famÃlias.
– O Centro TEA veio para dar luz e esperança para muita gente que vivia no escuro, como eu. Antes, não tinha nada como esse espaço, as famÃlias não eram ouvidas e agora somos acolhidos, além de um ajudar o outro, nos tornamos uma grande famÃlia – comemora.
Atividades aquáticas são uma das mais procuradas no Centro TEA
Sergio Barzaghi/Prefeitura de São Paulo/Divulgação
A estrutura inclui piscina coberta, quadra de esportes e oficinas de música, dança, teatro e pintura, além de uma casa mobiliada onde pessoas com autismo podem desenvolver habilidades de autocuidado no dia a dia, como higiene pessoal, vestimenta e preparo de alimentos, em atividades adaptadas a diferentes nÃveis de capacidade e funcionalidade.
O espaço também conta com capacitações voltadas ao desenvolvimento de habilidades profissionais e empreendedoras, com iniciativas que envolvem formação, estágios e estÃmulo a projetos próprios, com foco na autonomia financeira e na inclusão no mercado de trabalho.
SERVIÇO:
Centro Municipal para Pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo Dra. Marina Magro Beringhs Martinez
Endereço: Avenida Santos Dumont, nº 1.318 – Santana – São Paulo.
