O Chefe do Executivo de Hong Kong, John Lee, apresentou na quarta-feira o primeiro plano quinquenal da cidade, em um momento em que os formuladores de políticas do centro financeiro asiático buscam alinhar suas prioridades de desenvolvimento às de Pequim.
Lee compareceu perante os membros do Conselho Legislativo de Hong Kong para apresentar o plano juntamente com seu discurso anual de políticas públicas — o último de seu mandato de cinco anos.
A iniciativa de criar um plano quinquenal próprio para Hong Kong — uma economia de livre mercado —, espelhando os planos que os líderes do Partido Comunista em Pequim vêm lançando desde a década de 1950, foi concretizada dentro de um cronograma apertado. O governo de Hong Kong anunciou a medida inicialmente em fevereiro, antes de abrir um período de consulta pública de dois meses, entre junho e agosto.
O 15º plano quinquenal da própria China foi aprovado pelo Congresso Nacional do Povo em março, e este ano marca o início de sua implementação.
"No período do 15º plano quinquenal, encontramo-nos em uma situação em que oportunidades coexistem com riscos e desafios", incluindo a instabilidade geopolítica, disse Lee ao iniciar seu discurso sobre o plano quinquenal, apresentado em uma capa azul. Ele afirmou que o documento representa "abertura, progresso e estabilidade".
O Chefe do Executivo listou "cinco objetivos principais" do plano: alcançar novos avanços no desenvolvimento econômico, ampliar a competitividade e a influência global de Hong Kong, acelerar o ambicioso projeto da Metrópole do Norte, melhorar o bem-estar social e avançar na integração e na contribuição para o desenvolvimento nacional como um todo.
Ele enfatizou o fortalecimento do papel de Hong Kong como uma plataforma que atende às necessidades das empresas chinesas em sua expansão internacional, afirmando que a cidade ajudará a ampliar ainda mais o acesso ao mercado do continente chinês em diversos setores.
Alinhando Hong Kong à estratégia de Pequim de transformar a economia — migrando de indústrias tradicionais para tecnologias de ponta —, Lee disse que a cidade visa aumentar a contribuição da tecnologia e da inovação para o Produto Interno Bruto (PIB) total para 10% até 2030.
A cidade explorará setores como tecnologia quantitativa, aeroespacial e exploração oceânica para impulsionar a "expansão da cadeia de suprimentos industrial", afirmou. Durante a gestão de Lee, a economia de Hong Kong tem sido progressivamente remodelada por um influxo de capital da China continental, ao mesmo tempo em que empresas globais têm agido com crescente cautela desde que Pequim impôs uma Lei de Segurança Nacional em junho de 2020.
As autoridades de Hong Kong minimizaram as preocupações de que a adoção de um planejamento econômico ao estilo comunista colocaria em risco o livre mercado da cidade. Lee e outros legisladores enfatizaram que o plano não visa alterar a natureza da economia. O chefe do Executivo, um ex-chefe de polícia, declarou a repórteres na terça-feira que o plano preservará o "Estado de Direito e o sistema capitalista" de Hong Kong, bem como "seu status de cidade internacional".
Em agosto, Hong Kong revisou para cima sua previsão de crescimento anual para refletir um aumento nas exportações impulsionado pelo “boom” global da inteligência artificial. A economia da cidade cresceu 5,1% no primeiro semestre de 2026, o ritmo mais acelerado desde 2021.
Enquanto isso, o mercado de capitais da cidade manteve seu dinamismo graças a uma onda de listagens impulsionada principalmente por empresas da China continental. No entanto, um maior escrutínio regulatório sobre as práticas de ofertas públicas iniciais (IPOs) e a qualidade dos relatórios das empresas pode frear o fluxo de novas listagens.
Na quarta-feira, Lee apresentou uma série de medidas para fortalecer o setor financeiro da cidade. Ele afirmou que Hong Kong lançará oficialmente um sistema de compensação e liquidação de ouro no primeiro trimestre de 2027, com novos anúncios previstos sobre detalhes de contratos futuros de ouro denominados em yuan e com liquidação física.
O governo também estuda oferecer incentivos fiscais para a negociação de ouro e outras “commodities”, visando atrair investidores globais.
Para consolidar o papel de Hong Kong como um centro global de yuan “offshore”, a Bolsa de Hong Kong lançará um índice de títulos atrelados ao yuan “offshore” para servir de referência a fundos negociados em bolsa (ETFs). A bolsa também planeja incluir uma opção de negociação em yuan no programa “Stock Connect”, permitindo que investidores da China continental invistam diretamente no mercado de ações de Hong Kong nessa moeda, sem a necessidade de conversão para dólares de Hong Kong.
Para aprimorar o mecanismo de listagem no mercado de ações, Lee anunciou que o governo iniciará uma consulta pública sobre a simplificação dos requisitos de divulgação de prospectos, com o objetivo de incentivar mais empresas estrangeiras a buscarem listagens duplas. A bolsa também aperfeiçoará os regimes de listagem para empresas de tecnologia especializada, o que pode incluir a redução das exigências de capitalização de mercado.
Ao lançar um plano quinquenal, Hong Kong adotou uma prática também observada na vizinha Macau. A antiga colônia portuguesa anunciou seu terceiro plano quinquenal no mês passado, o qual inclui metas ambiciosas de desenvolvimento para a zona econômica especial de Hengqin. Apesar de anos de planejamento e da construção de arranha-céus, muitos moradores locais se referem a Hengqin como uma "cidade fantasma".
O governo de Hong Kong afirma ter estudado a experiência de Macau e de outras cidades ao elaborar seu plano estratégico de cinco anos.
Em seu discurso, Lee afirmou que o desenvolvimento da Metrópole do Norte terá como eixo central três campi universitários, cada um com um foco setorial distinto.
"A Metrópole do Norte tem potencial para se tornar um novo e importante motor de crescimento para Hong Kong", disse Dauwood Malik, sócio-gerente da Clifford Chance. "O que a torna particularmente significativa é a oportunidade de desenvolver simultaneamente transporte, habitação, instalações de pesquisa, tecnologia e espaços industriais. Isso pode criar a capacidade de que Hong Kong necessita para o crescimento de novas indústrias e fortalecer a competitividade da cidade a longo prazo."
Lee comprometeu-se a aumentar substancialmente a oferta de moradias em uma cidade onde os imóveis continuam inacessíveis para muitos, ao mesmo tempo em que o fluxo populacional vindo da China continental aumenta a pressão sobre o setor. Na próxima década, a habitação pública e os aluguéis subsidiados representarão cerca de 70% de toda a oferta do mercado imobiliário, sendo o restante composto por moradias privadas. A partir do ano fiscal de 2027-2028, a conclusão de habitações públicas deverá ocorrer a um ritmo de 35 mil unidades anuais, um aumento de 70% em relação à gestão anterior, liderada por Carrie Lam, afirmou Lee.
O governo também visa reduzir o tempo de espera por habitação pública para menos de quatro anos até o período de 2030-2031.
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