O cenário de inadimplência no crédito rural se reflete também no avanço de pedidos de recuperação judicial de produtores. Apesar de um recuo no ritmo de novas solicitações recentemente, o tema ainda preocupa o mercado financeiro.
O vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar do Banco do Brasil, Gilson Bittencourt, avaliou que houve uma “banalização” das recuperações judiciais no campo e que, em alguns casos, a conta saiu mais cara ao produtor, com a decretação de falência. Ele ressaltou que defende o uso desse instrumento legal como alternativa para alguns produtores, mas lembrou que há outras formas de tentar renegociar as dívidas com credores.
“Começamos a ver casos de pedidos de recuperações judiciais se transformando em falência, com uma dívida muito maior que a original e, às vezes, uma perda maior para o produtor do que seria se ele tivesse buscado uma solução negociada com os credores naquele momento”, afirmou em conversa com a imprensa nesta semana.
Esse é o pior desfecho, segundo ele, para casos de produtores que poderiam buscar outra solução que os manteria na atividade com geração de receita para atravessar o momento. São situações, disse ele, daqueles que tinham capacidade de pagamento e optaram pelo processo judicial, de quem não tentou uma renegociação nas instituições financeiras e, até mesmo, quem podia, mas não vendeu algum ativo para quitar a conta.
“É um instrumento legal que está colocado à disposição dos produtores, mas que, em alguns casos, virou um discurso fácil para não pagamento de dívidas. Quando o produtor efetivamente não tem outra solução é um caminho”, disse.
Desde o segundo trimestre do ano passado, 875 processos de recuperação judicial de produtores rurais clientes do BB somaram R$ 7,66 bilhões. Apenas entre abril e junho deste ano, foram 167 ações envolvendo R$ 1,45 bilhão.
Retração no segundo semestre Levantamento da Serasa Experian mostrou que os pedidos de recuperação judicial no agronegócio brasileiro somaram 448 solicitações no segundo trimestre de 2026, uma queda de 20,7% se comparado com o registrado no mesmo período do ano passado.
A retração interrompe a sequência de altas observada nos segundos trimestres de 2023, 2024 e 2025. Bittencourt disse que o provimento publicado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) neste ano, com orientações para harmonizar a interpretação de juízes das mais variadas instâncias, contribuiu para o entendimento do alcance e dos riscos desse instrumento, e para o início de uma redução no ritmo de novos processos.
“Mais pessoas passaram a entender os ganhos, mas também os riscos em relação a esse pedido”, disse. “Não acho que elas vão acabar amanhã.
As recuperações judiciais vão continuar, mas, quanto mais cumprirem as condições e a função para as quais foram criadas, será muito melhor ao setor”, completou.
Globo Rural