Cavalos, cabras e agora porcos: como o Brasil se tornou referência em clonagem de animais

 

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Uma porca está grávida de pelo menos três filhotes clonados em Piracicaba (SP), semanas após o nascimento do primeiro suíno clonado do país. O porquinho, que não recebeu nome próprio, chamado apenas pelo código P22, coloca novamente em evidência a trajetória da ciência brasileira na clonagem animal. Embora o feito recente esteja ligado à perspectiva de transplantes de órgãos, o Brasil já acumula, há mais de duas décadas, experiências bem-sucedidas com diferentes animais.

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O marco inicial ocorreu em 2001, com o nascimento de Vitória, a primeira bezerra clonada do Brasil, resultado de pesquisas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Produzida a partir da técnica de transferência nuclear, ela abriu caminho para o domínio da tecnologia no país, com aplicações voltadas tanto ao melhoramento genético do rebanho quanto à conservação de espécies.

Vaca Vitória foi o primeiro animal clonado no Brasil, em 2001. Ela morreu em 2011

Cláudio Bezerra Melo / Embrapa

A partir desse avanço, outros clones bovinos foram desenvolvidos ao longo dos anos. A própria Embrapa deu sequência aos estudos com animais como Lenda, obtida a partir de material genético de um exemplar já morto, e com exemplares da raça Junqueira, como Porã e Potira. Em 2010, nasceu o bezerro Piatã, também fruto dessas pesquisas.

A tecnologia também avançou para outras espécies. Em 2012, foi anunciado o primeiro clone equino do Brasil: uma cópia do garanhão mangalarga Turbante JO, considerado um dos mais importantes reprodutores da história da raça. O material genético do animal, morto em 1998, havia sido preservado por 15 anos, permitindo sua reprodução em laboratório.

Já em 2014, o país deu um passo além ao produzir a primeira cabra clonada e transgênica da América Latina: batizada de Gluca, ela foi geneticamente modificada para produzir, em seu leite, a proteína humana glucocerebrosidase, utilizada no tratamento da doença de Gaucher, uma condição rara e de alto custo para o sistema público de saúde. A proposta era reduzir a dependência de medicamentos importados, substituindo a produção em laboratório pela obtenção da substância em animais.

Os porcos, cujo projeto de clonagem é recente, têm sido estudados como potenciais doadores de órgãos para humanos em procedimentos conhecidos como xenotransplantes. A expectativa dos pesquisadores é que, com modificações genéticas, seja possível reduzir riscos de rejeição e ampliar a oferta de órgãos, diante da escassez de doadores.

Ovelha Dolly com sete meses, em 1997

AP

Ovelha Dolly

A ovelha Dolly, nascida em 5 de julho de 1996 na Escócia, foi o primeiro mamífero clonado a partir de uma célula adulta, marcando a história da ciência. Criada pelo Instituto Roslin, Dolly demonstrou que células especializadas podiam criar um novo ser, desafiando conceitos biológicos e gerando intenso debate ético sobre clonagem.

O mundo só soube de sua existência em 23 de fevereiro de 1997, após a revista britânica Nature estampar sua foto na capa. Até então, clonagem era assunto de ficção científica. Coube aos criadores de Dolly, o inglês especialista em reprodução Ian Wilmut e sua equipe do Instituto Roslin, nas cercanias de Edimburgo, na Escócia, a façanha de romper as leis da natureza e tornar os clones um dos principais feitos da ciência neste século.

Dolly foi o primeiro mamífero clonado a partir do DNA extraído de uma célula não-reprodutiva de um animal adulto. Ela é clone de uma ovelha de 6 anos, uma idade considerada avançada. O DNA de uma célula da mama da ovelha que Wilmut queria clonar foi isolado e implantado num óvulo de outra ovelha, cujo próprio núcleo (com o DNA dentro) havia sido retirado. O óvulo e o DNA foram fundidos com uma descarga elétrica. O ovo misto foi cultivado até começar a se dividir, originando um embrião. Este foi implantado no útero de uma terceira ovelha, usada como mãe de aluguel.

Dolly seguiu viva na forma de quatro clones depois de sua morte por envelhecimento precoce, em 2003. Em 2010, o biólogo Keith Campbell anunciou a existência desses clones em um debate no parlamento europeu sobre clonagem e bem-estar animal. Ele contou que clonou as ovelhas da mesma amostra de tecido da glândula mamária que usou para clonar a Dolly original.