Cauã Reymond: por que interpretar um personagem pode despertar emoções pessoais - QTU Questões do Universo

Cauã Reymond: por que interpretar um personagem pode despertar emoções pessoais

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Cauã Reymond voltou a falar sobre o impacto emocional de "Avenida Brasil", novela que protagonizou em 2012 e que se tornou um dos trabalhos mais marcantes de sua carreira.
Em entrevista a Andréia Sadi, o ator contou que algumas situações vividas por Jorginho, seu personagem, na relação com Carminha, interpretada por Adriana Esteves, despertavam associações com a própria história familiar.
O processo foi intenso a ponto de ele recorrer à análise por um longo período depois do fim da trama.
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Cauã afirmou que sempre teve uma relação de amor com a mãe e reconhece a importância dela em sua formação.
Ainda assim, algumas situações apresentadas na novela mobilizavam sentimentos difíceis.

O ator disse que nunca chegou a conversar diretamente com ela sobre a associação entre a personagem e sua experiência pessoal.
"Fiz análise durante muito tempo pra resolver a novela, pós-novela", contou.
Cauã Reymond fala sobre como 'Avenida Brasil' mexeu com questões pessoais
Divulgação TV Globo
A relação com os pais pode influenciar a vida adulta?
As experiências vividas na infância ajudam a formar referências emocionais e podem influenciar a maneira como uma pessoa estabelece vínculos, lida com conflitos e percebe a si mesma.
Isso não significa, porém, que a relação familiar determine sozinha o comportamento ou a saúde mental na vida adulta.
Segundo a psiquiatra Jessica Martani, determinadas vivências podem permanecer associadas a emoções e ser acionadas anos depois diante de situações que apresentem elementos semelhantes.
"A relação com a figura materna pode ter um papel muito importante na construção da identidade, da autoestima e da forma como aprendemos a estabelecer vínculos.
Algumas experiências ficam associadas a determinadas emoções e podem ser reativadas anos depois diante de situações que tenham elementos parecidos com aquilo que vivemos", explica.
No caso de Cauã, a própria história de "Avenida Brasil" colocava Jorginho em conflitos complexos com a mãe.
A proximidade entre esses elementos da ficção e aspectos da trajetória do ator pode ter tornado algumas cenas particularmente difíceis, embora não seja possível determinar exatamente como essa associação ocorreu.
A depressão pode ter relação com esse período?
Em outro relato recente, Cauã contou que enfrentou o que descreveu como uma "pequena depressão" durante o período de sucesso de "Avenida Brasil".
Na época, apesar da ascensão profissional, do casamento, do nascimento da filha e de outras conquistas pessoais, disse que experimentava uma sensação de vazio e não se sentia realizado.
A terapia, segundo ele, foi importante para compreender o momento.
Não é possível, no entanto, estabelecer uma relação direta entre esse quadro, a novela e as experiências familiares mencionadas pelo ator.
De acordo com Jessica, o sofrimento psíquico costuma envolver diferentes fatores, e uma avaliação individual é necessária para compreender cada caso.
"Não podemos afirmar que a novela ou a relação com a mãe tenham causado a depressão.
O sofrimento psíquico normalmente resulta de uma combinação de fatores, que podem envolver história de vida, características individuais, acontecimentos recentes, estresse e a forma como cada pessoa elabora suas experiências.
O que podemos considerar é que uma experiência emocionalmente intensa pode mobilizar conteúdos que já existiam e mereciam ser elaborados", observa.
Quando o trabalho toca em experiências pessoais
A experiência relatada por Cauã também ajuda a entender como a interpretação pode ultrapassar a construção técnica de um personagem.
Quando uma narrativa apresenta conflitos que encontram algum paralelo na história de quem está em cena, determinadas situações podem provocar respostas emocionais mais intensas.
Isso não significa necessariamente que o ator esteja revivendo a própria história.
Para a psiquiatra, uma situação externa pode funcionar como ponto de contato com lembranças, sentimentos ou associações construídos anteriormente.
"Quando uma situação externa encontra algo significativo dentro da história daquela pessoa, ela pode provocar uma reação emocional mais intensa.
Isso não significa necessariamente reviver o passado, mas entrar em contato com sentimentos que estavam associados àquela experiência.
A terapia pode ajudar justamente a diferenciar o que pertence ao passado, o que está acontecendo no presente e como essas duas dimensões estão se relacionando", explica.
Cauã Reymond revela impacto emocional de 'Avenida Brasil' e fala sobre terapia
Divulgação TV Globo
O relato também chama atenção para uma ideia comum sobre saúde mental: a de que o sofrimento só aparece em períodos de crise ou diante de acontecimentos negativos.
Cauã descreveu o episódio justamente durante uma fase de reconhecimento profissional e de conquistas pessoais, mostrando que circunstâncias externas favoráveis não eliminam necessariamente sentimentos de vazio ou sofrimento.
Para Jessica, mudanças persistentes no bem-estar emocional merecem atenção, mesmo quando a pessoa mantém suas atividades cotidianas.

"A pessoa não precisa esperar perder completamente a funcionalidade para procurar ajuda.
Sentir vazio persistente, perda de prazer, alterações no sono, irritabilidade, dificuldade de concentração ou uma sensação de desconexão com a própria vida são sinais que merecem atenção.
O tratamento permite compreender o que está acontecendo e construir novas formas de lidar com essas experiências", conclui.