Mais de 5 mil pessoas foram infectadas pelo sarampo nos Estados Unidos neste ano. O país enfrenta a possibilidade de perder seu status de eliminação da doença, mantido há décadas, ainda neste mês.
Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) confirmaram 5.182 infecções por sarampo na sexta-feira, o maior número desde 1991. A agência de saúde pública reconheceu apenas quatro mortes relacionadas à doença em todo o país neste ano — um descompasso em relação aos registros anteriores —, enquanto o departamento de saúde da Pensilvânia confirmou seis mortes associadas ao sarampo, e Nova York e Wisconsin relataram uma morte cada.
A doença, altamente infecciosa, vem se espalhando em ritmo cada vez mais acelerado à medida que as taxas de vacinação caem, enfraquecendo a imunidade coletiva que contém os surtos e protege aqueles que não podem ser imunizados. A situação se transformou no maior surto em décadas, alcançando 45 estados.
Os EUA mantêm o status de país com o sarampo eliminado desde 2000, mas a transmissão contínua da doença ameaça essa condição. Na próxima semana, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) analisará os dados de transmissão do último ano para determinar se os EUA perderão o status e deixarão de ser considerados capazes de controlar a disseminação da doença.
Se uma mesma cepa do vírus permanecer em circulação por 12 meses, o país perderá a classificação. O surto em Utah está em circulação desde junho de 2025 e já infectou mais de 700 pessoas — o que provavelmente indica a perda do status para todo o país.
Neste ano, a Pensilvânia foi o estado mais afetado, com 1.467 casos registrados desde abril. As primeiras mortes relatadas no estado desencadearam um embate político entre o secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert F.
Kennedy Jr., e o governador democrata Josh Shapiro, depois que Kennedy questionou a validade dos óbitos. O CDC está trabalhando com um grupo externo de epidemiologistas para determinar a definição de morte por sarampo.
Desde o início do surto, as autoridades de saúde da Pensilvânia intensificaram a oferta de vacinas, inclusive para as comunidades amish e menonitas com baixa cobertura vacinal, que registraram o maior número de casos. Mais de 100 mil doses da vacina contra sarampo, caxumba e rubéola foram administradas por profissionais de saúde em setembro e outubro, segundo o departamento de saúde estadual.
Em 2 de novembro, Nova York confirmou sua primeira morte associada ao sarampo em 30 anos. A governadora Kathy Hochul decretou estado de emergência para liberar recursos e permitir uma resposta rápida com vacinação e testagem.
Três dias depois, Wisconsin relatou a morte de um bebê — a primeira fatalidade por sarampo no estado em décadas. Autoridades federais de saúde destinaram US$ 100 milhões em recursos aos estados para auxiliar nos esforços de vacinação e rastreamento de casos.
Alguns estados solicitaram apoio presencial do CDC, incluindo a Pensilvânia, que recebeu um profissional para ajudar na análise de dados e na previsão da evolução do surto. Kennedy, crítico de longa data das vacinas e fundador de uma organização antivacinação, já expressou dúvidas sobre a vacina tríplice viral (MMR) e promoveu, em seu lugar, tratamentos sem eficácia comprovada.
Kennedy e o presidente Donald Trump têm trabalhado para reformular a política de vacinação dos EUA, incluindo uma ordem executiva de agosto que propôs dividir a imunização contra sarampo, caxumba e rubéola em três vacinas separadas. A mudança exigiria mais tempo e custos dos fabricantes de medicamentos Merck & Co.
e GSK Plc. Nenhuma vacina é perfeita, mas a tríplice viral é considerada 97% eficaz após duas doses.
O sarampo é altamente contagioso e infecta até 90% das pessoas não vacinadas que entram em contato com alguém infectado, segundo o CDC. De acordo com a agência, entre uma e três crianças a cada mil infectadas morrem em decorrência da doença.
O Globo