Caso Thawanna: defesa de policial sustenta disparo para conter agressões e defende inocência da oficial
A defesa da policial militar Yasmin Cursino Ferreira, 21, afastada da corporação após atirar em Thawanna da Silva Salmázio, 31, afirmou em nota que a agente é inocente é efetuou um único disparo para “cessar a escalada das agressões”. Ainda segundo o texto, a equipe responsável pela abordagem “acionou o socorro imediatamente e deu ciência às autoridades competentes”.
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Thawanna foi baleada após uma discussão com a policial na Rua Edimundo Audran, em Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo. O caso ocorreu na madrugada da semana passada.
“A defesa da soldado Yasmin, realizada pelo advogado Alexandre Guerreiro, reafirma a inocência da policial. No exercício da função, ela foi agredida e efetuou um único disparo para cessar a escalada das agressões por parte da vítima. Importante pontuar que a equipe acionou o socorro imediatamente e deu ciência às autoridades competentes”, diz a nota.
A vítima permaneceu por mais de 30 minutos à espera de atendimento após o disparo e, segundo apuração do G1, a demora no socorro contribuiu para o agravamento do quadro. À Corregedoria da Polícia Militar, o policial Weden Silva Soares, que também participava da ocorrência, afirmou não ter prestado os primeiros socorros por haver apenas uma gaze disponível na viatura.
Conforme mostrou O GLOBO, imagens de câmera corporal contradizem o relato dos agentes sobre a discussão que levou ao disparo. Os policiais Soares e Yasmin interromperam o trajeto da viatura após quase se envolverem em um acidente com o casal, que caminhava pela rua.
Segundo as imagens obtidas pela TV GLOBO, a viatura entra na via e o retrovisor atinge Luciano. Soares para o veículo, dá ré e questiona o pedestre:
— A rua é lugar para você estar andando? — diz o policial.
— Não, não, com todo o respeito, vocês que bateram na gente — responde a vítima.
A partir daí, inicia-se uma discussão. O casal afirma que a viatura estava em alta velocidade. Yasmin desce do carro imediatamente e, em seguida, Soares também desembarca.
Os dois policiais se separam. Apenas Soares utiliza câmera corporal. Yasmin não portava o equipamento por ser recém-formada na corporação e estar há cerca de três meses em patrulhamento.
Segundo a Secretaria da Segurança Pública, a policial começou a trabalhar durante a Operação Verão deste ano e ainda aguardava a liberação de acesso ao equipamento, processo que, segundo a pasta, pode demorar.
A soldado, de 21 anos, foi aprovada no concurso em novembro de 2024. De acordo com a Polícia Militar, o processo de formação dura dois anos, incluindo etapas de formação básica, específica e estágio supervisionado — fase em que Yasmin se encontrava.
Na sequência da discussão, é possível ver Thawanna apontando para a policial e gritando para não ser tocada. Ao mesmo tempo, Soares discute com o marido da vítima, em lados opostos da viatura. Poucos segundos depois, ouve-se o disparo.
— Você atirou nela? Por quê? — questiona Soares.
Yasmin justifica o tiro alegando ter recebido um tapa, o que não pode ser confirmado pela ausência de imagens.
Em seguida, Soares aciona o socorro enquanto tenta acalmar o marido da vítima. A outros policiais que chegam ao local, ele minimiza o caso e sugere que a reação poderia ser compreensível caso a mulher estivesse avançando contra a colega. Mais tarde, reafirma a avaliação à própria policial:
— Não era para ter atirado, mas, se ela estava indo para cima de você, podia te bater, pegar sua arma. Se ela começa a te bater, o cara ia me segurar.
A vítima permaneceu cerca de 30 minutos no chão até a chegada do socorro. Ela foi levada ao Hospital Santa Marcelina, em Cidade Tiradentes, mas não resistiu. Na mesma noite, Yasmin teve a arma apreendida por outro oficial.
As imagens também mostram contradições em relação ao relato registrado no boletim de ocorrência. Segundo o documento, os policiais afirmaram que faziam patrulhamento quando avistaram um casal andando no meio da rua. Ao se aproximarem, o homem teria se desequilibrado e batido o braço no retrovisor da viatura.
Ainda conforme o registro, houve um desentendimento após o homem supostamente desobedecer à ordem de se afastar. Thawanna, então, teria avançado contra a policial, iniciando um confronto físico — momento em que ocorreu o disparo.
“O indivíduo do sexo masculino se desequilibrou e seu braço direito bateu no retrovisor direito da viatura. De pronto, a equipe retornou para verificar se estava tudo bem com o indivíduo, momento em que este começou a gritar e reclamar com a guarnição”, declarou Soares.
Em depoimento, Yasmin afirmou que o casal apresentava sinais de embriaguez e que a viatura deu ré para averiguar uma “possível ocorrência”.
“Ao se aproximar novamente, constatou-se que ambos os envolvidos apresentavam sinais visíveis de embriaguez”, disse a policial. “A equipe tentou intervir para conter os ânimos e evitar a evolução do conflito.”
Luciano Gonçalves, no entanto, apresentou versão diferente. Ele afirma que a viatura trafegava em alta velocidade e quase atingiu o casal, o que provocou a reação de Thawanna — versão compatível com as imagens da câmera corporal.
Ele também diz que a mulher não teve comportamento agressivo e os agentes utilizaram spray de pimenta durante a abordagem. A gravação não mostra o momento do confronto direto entre Yasmin e a vítima, já que a policial não utilizava câmera corporal.
Nas imagens, é possível ver Luciano indo para a frente de um dos policiais e tirando a camisa. Segundo ele, o gesto era uma tentativa de demonstrar que não representava ameaça.
“O declarante afirma que, temendo ser interpretado como ameaça — inclusive por estar trajando vestimenta camuflada —, retirou sua blusa e sua bolsa, colocando os objetos no chão, com o intuito de demonstrar que não oferecia risco aos policiais”, diz o depoimento.
Ainda segundo Luciano, após o disparo, ele acreditou que a esposa havia sido atingida por uma munição de efeito moral.
Os policiais foram afastados do serviço operacional até a conclusão das investigações, informou a Secretaria da Segurança Pública. O caso é apurado pelas polícias Civil e Militar.
“O conteúdo das câmeras corporais será analisado e encaminhado às autoridades responsáveis, assim como os laudos periciais”, afirmou a pasta, em nota.
Após a morte, moradores da região realizaram protestos nas ruas de Cidade Tiradentes.
O Ministério Público de São Paulo instaurou, na segunda-feira (6), um procedimento para investigar o caso. A apuração está a cargo do Grupo de Atuação Especial de Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp), que analisará as circunstâncias da ocorrência.
