A juíza Lucia Mothe Glioche, da 4ª Vara Criminal do Rio, determinou que José Marcos Chaves Ribeiro seja julgado pelo Tribunal do Júri pela tentativa de homicídio de Regina Glaura Lemos Gonçalves, de quem foi motorista. Na mesma decisão, assinada na última quarta-feira (16/09), a magistrada revogou a prisão preventiva do acusado e concedeu liberdade provisória mediante o uso de tornozeleira eletrônica, além de impôr outras quatro medidas cautelares.
Caso Regina: ex-motorista de socialite acusado de cárcere privado e tentativa de feminicídio é preso no Rio Caso Regina Gonçalves: Socialite de 89 anos consegue na Justiça suspensão de união com ex-motorista José Marcos foi pronunciado pela Justiça, como se diz no jargão jurídico, que significa um julgamento pelo júri popular, por quatro crimes: tentativa de feminicídio, cárcere privado, violência psicológica contra a mulher e furto qualificado. Ele nega todas as acusações. Preso desde 29 de agosto de 2025, ele já deixou a cadeia. Segundo a denúncia do Ministério Público, José Marcos teria derrubado de propósito um varão de cortina de aço sobre a cabeça de Regina, então com 88 anos, no apartamento dela no icônico Edifício Chopin, em Copacabana. A vítima — que atualmente tem 90 anos— ficou internada entre 30 de dezembro de 2021 e 5 de janeiro de 2022, com hematoma subdural crônico agudizado por traumatismo craniano, e passou por uma cirurgia de drenagem no dia 2. O laudo do Instituto Médico-Legal (IML), feito apenas com base na documentação hospitalar, concluiu que houve ação contundente, incapacidade para as ocupações habituais por mais de 30 dias e perigo de vida.
Em depoimento especial, colhido para evitar nova exposição, Regina disse que o motorista a mandou ficar embaixo do varão antes de subir a escada e que, depois do acidente, não a levou a um hospital, mas a um local afastado, no subúrbio, "sem luz, sem nada". Ela também relatou ter chegado a pesar 39 quilos, ter ficado sem as joias guardadas em cinco cofres do apartamento e ter recebido remédios que a deixavam tonta. A prova oral, no entanto, é divergente. O médico Bruno Silva Pereira, coordenador do hospital que atendeu a idosa, afirmou em juízo que ela deu entrada com relato de queda da própria altura após vertigem e que, na ocasião, não houve suspeita de violência doméstica. Ele disse não ser possível descartar nem a hipótese de queda, nem a de golpe com o varão. Já a médica Monique Esteves Cardoso, convocada pela defesa da idosa, relatou que fez visita domiciliar em janeiro de 2024, e afirmou ter encontrado Regina debilitada. Acrescentou que ouviu dela que estava em cárcere privado e que as joias haviam sumido, mas que a paciente não mencionou tentativa de morte nem o episódio da queda do varão em sua cabeça. Quem é Regina Gonçalves: socialite de Copacabana teria sido mantida em cárcere privado Na decisão, a juíza registra que a fase de pronúncia é de mera admissibilidade da acusação e que cabe aos jurados a valoração aprofundada das provas. Escreve ainda que há "dúvida razoável sobre todos os crimes imputados ao acusado, inclusive no que se refere às qualificadoras", o que, nessa etapa, impede o acolhimento dos pedidos da defesa. Para dar peso ao relato da vítima, a magistrada invoca o protocolo do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para "julgamento com perspectiva de gênero", citando a condição de Regina como mulher, idosa e atualmente interditada. Ao soltar o acusado, Glioche ponderou que ele é primário, não tem anotações na folha penal, constituiu advogados e está preso há mais de um ano. Além da tornozeleira, José Marcos terá de comparecer ao juízo a cada dois meses — o primeiro comparecimento está marcado para outubro —, manter distância mínima de 800 metros de Regina, não frequentar o Edifício Chopin, não procurar a vítima, familiares e testemunhas. Também está proibido de deixar o Rio por mais de cinco dias sem autorização judicial. O descumprimento de qualquer das medidas implicará em nova prisão. Regina Gonçalves em seu quarto no Chopin, edifício vizinho ao Copacabana Palace Leo Martins / Agência O Globo A defesa, formada pelas advogadas Raquel Rosa e Isabelle Gibson, informou que vai recorrer. Em nota, alegando o sigilo decretado nos autos, as advogadas sustentam que não há prova da materialidade do crime doloso contra a vida na forma tentada nem indícios de autoria que justifiquem levar o caso ao júri, e afirmam que a pronúncia decorreu justamente do reconhecimento, pelo juízo, de que há dúvida sobre o fato.
Por sua vez, a família de Regina recebeu a decisão de forma oposta. O empresário João Chamarelli, que representa a socialite, afirmou ao GLOBO que a pronúncia foi recebida "com serenidade e convicção de que a justiça está seguindo seu curso de forma criteriosa e, sobretudo, bem fundamentada no relato legítimo da vítima, mulher e idosa Regina Lemos Gonçalves, além das inúmeras provas testemunhais, documentais e periciais que contribuíram para que se chegasse até esta fase". Chamarelli disse ainda que a família já pediu reforço na segurança de Regina, do apartamento no Edifício Chopin e de parentes. "Além da liberdade provisória do ora denunciado, outros personagens seguem sendo investigados em um segundo inquérito, dentre os quais três de seus ex-advogados", afirmou. Crime em São Conrado: Socialite Regina Gonçalves, antes de se casar, matou homem que invadiu mansão do então noivo rico O advogado Marcelo Coelho Pereira, que atua na assistência de acusação, classificou a decisão como "sábia, coerente e de elevada técnica jurídica" e ressaltou que a liberdade provisória não se confunde com absolvição. Segundo ele, a magistrada valorizou a palavra de Regina nos limites da fase processual, sem antecipar juízo de culpa. A defesa de José Marcos pretende recorrer da decisão. Neste caso, cabe recurso em sentido estrito contra a pronúncia. Não há data para a sessão do júri.
O Globo