Caso Padrinho Paulo Roberto: audiência de processo de violação sexual contra líder do Santo Daime dura mais de seis horas
Durou mais de seis horas a audiência de instrução e julgamento do processo em que Paulo Roberto Silva e Souza, liderança religiosa de Santo Daime entre as mais importantes do Brasil, é réu. O fundador da Igreja Céu do Mar, de São Conrado, primeira da doutrina fora da Amazônia, responde pelos crimes de violação sexual mediante fraude e abuso psicológico contra sua ex-assistente, a advogada Jéssica Nascimento de Sousa. Os fatos relatados aconteceram em 2022, e o processo está em segredo de justiça. Na porta do Fórum, no Centro, uma manifestação contra abusos sexuais se formou.
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A audiência foi presidida pela juíza Renata Travassos Medina de Macedo e começou pouco depois do meio-dia, na 11ª Vara Criminal, do Tribunal de Justiça do Rio, no Centro. A vítima e o acusado ficaram a todo momento em salas separadas e evitaram se cruzar. A jovem, que no processo é orientada por duas advogadas, deixou o local antes das 14h, após liberação, abalada. Neste momento, Paulo Roberto estava do lado oposto do pavimento onde a oitiva aconteceu.
Ao todo, foram listadas três testemunhas de Jéssica, entre elas Paulo Coutinho, ex-sócio de Paulo Roberto na Igreja Céu do Mar, e Isabela de Lima, ex-coordenador da ala feminina da comunidade religiosa. Entre as testemunhas do acusado, cinco, estava uma de suas filhas e uma pessoa que já atuou na tesouraria da Céu do Mar, que o réu presidiu e de onde foi afastado após repercussão de relatos de abusos contra ex-seguidoras.
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Antes das 15h, Paulo Roberto ainda não tinha sido ouvido. Num dos momentos em que deixou a sala onde estava isolado para ir ao banheiro, tentou se proteger com o celular das lentes das câmeras dos jornalistas presentes no local.
À porta de onde ocorria a audiência desde o início da tarde, um segurança guardava o local, além de outros dois agentes da Polícia Militar, que se revezavam.
Em dezembro de 2025, o Ministério Público chegou a pedir a prisão preventiva de Paulo Roberto Souza e Silva, que segundo fontes do GLOBO se encontrava “isolado” numa propriedade rural que tem em Ilhéus, na Bahia. Semanas depois, a juíza Renata Travassos Medina de Macedo negou o pedido de prisão, mas manteve medidas cautelares como entrega do passaporte e expedição de ofício à Polícia Federal para que o acusado ficasse impossibilitado de sair do país sem prévia autorização judicial.
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Júlia Aguiar
Daimistas ligados a Paulo Roberto ouvidos pela reportagem contam que, a partir da Bahia, era comum ao líder religioso ir até áreas destacadas no Amazonas, onde nasceu a doutrina e onde ainda tem seguidores.
Expansão do Daime
O psicólogo Paulo Roberto Silva e Souza, de 76 anos, teve papel de destaque na difusão da doutrina do Santo Daime fora da Amazônia. No Norte, foi aprendiz de seu sogro, Sebastião Mota de Melo, o prestigiado líder religioso do Daime e integrante do Céu do Mapiá, morto em 1990. Mota era pai de Raimunda Nonata, mulher de Paulo Roberto, que aparece em trechos da denúncia como a responsável, na últimas décadas da Igreja Céu do Mar, por expulsar as mulheres de quem o marido se aproximava alegando que estavam “possuídas por pombas-giras”.
A igreja Céu do Mar, fundada por Paulo Roberto em meados dos anos 1980 em São Conrado, foi frequentada por diversos artistas, publicitários, jornalistas, até que ganhou projeção internacional. Por trabalhos espirituais no exterior, chegavam a ser cobrados valores que chegavam a meio milhão de reais, segundo relatam ex-integrantes do templo e pessoas com quem o Padrinho viajava para países como Estados Unidos e Canadá e se tornou um “multiplicador de igrejas”.
No Rio, as cerimônias envolvem canto, oração, dança e rituais em torno do consumo do chá de Ayahuasca. Paulo Roberto, porém, do mesmo jeito que atraiu centenas de fiéis e rapidamente criou um séquito, passou a colecionar desafetos, sobretudo de integrantes que deixaram a igreja por discordar de condutas que passavam pelo trato trato severo com os integrantes da comunidade religiosa, a ostentação de bens, a cobiça de companheiras de frequentadores ou, mesmo, o abuso relatado por mulheres daimistas. Ao GLOBO, cinco ex-participantes abriram seus relatos e citaram um modus operandi comum: passar a mão em seus corpos em momentos batizados por ele como “terapias de cura”.
Após a repercussão dos casos, Paulo Roberto Silva e Souza foi afastado da Céu do Mar e de outras entidades a que se vinculou pelo Daime, entre elas a Centro Eclético Fluente Luz Universal Sebastião Mota de Melo (Ceflusmme), que leva o nome do seu sogro e mestre.
