Caso Master: relação de Vorcaro com Ciro Nogueira e Antonio Rueda reforça elos políticos e gera apreensão no Congresso

 

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A revelação do conteúdo das mensagens do celular do banqueiro Daniel Vorcaro aumentou a apreensão no Congresso com a investigação sobre o Banco Master pelo potencial de danos políticos a parlamentares. A primeira leva divulgada já expôs novos detalhes da relação do banqueiro com o senador Ciro Nogueira, presidente do PP, e Antonio Rueda, presidente do União, o que foi interpretado por congressistas como uma pequena prévia do que ainda pode surgir. As preocupações estão centradas em duas frentes: com a relatoria do ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal (STF), visto como alguém com menos trânsito político que o antecessor na função, Dias Toffoli; e com o aumento da pressão, que inclui a oposição e nomes do governo, por uma CPI dedicada ao assunto, movimento que os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), tentam conter.

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Nos corredores da Câmara e do Senado, deputados e senadores afirmam que ainda não está claro o alcance do conteúdo das conversas apreendidas, o que alimenta a percepção de que novos trechos podem atingir diferentes atores políticos e provocar novos desdobramentos no Congresso.

Perguntado sobre o assunto ontem na saída de um evento, Motta preferiu não comentar. Congressistas relatam que Alcolumbre vem sendo pressionado por parte da classe política a não convocar uma sessão do Congresso Nacional, etapa necessária para a leitura do requerimento e para o início formal da CPI que seria exclusivamente dedicada ao Master.

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Helicóptero reservado

Sem essa sessão, o pedido permanece parado. Quem já teve o nome envolvido foi Ciro Nogueira, que é próximo a Motta e mantém interlocução frequente com Alcolumbre. O nome de Ciro passou a chamar ainda mais atenção após aparecer em mensagens de Vorcaro. Em conversas com a namorada, o banqueiro se refere ao senador como um “grande amigo”.

Além disso, documentos obtidos a partir da quebra de sigilo telemático do empresário indicam que uma empresa ligada a Vorcaro chegou a reservar um helicóptero para transportar Ciro e Rueda, após os dois participarem do Grande Prêmio de São Paulo de Fórmula 1. Ciro nega ter usado a aeronave e diz que saiu do local de van.

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Segundo aliados, Motta passou ontem à tarde na residência oficial da Presidência da Câmara em conversas individuais com líderes partidários.

— Os documentos podem abalar a República — afirmou o deputado Ricardo Ayres (Republicanos-TO).

Em caráter reservado, um integrante da Mesa da Câmara descreveu o ambiente político em torno do caso como “horroroso” e afirmou que a pressão sobre Alcolumbre aumentou nos últimos dias.

Segundo esse parlamentar, o presidente do Senado estaria sendo cobrado não apenas a evitar a instalação da CPI do Banco Master, mas também a reduzir o ritmo de outras investigações em andamento.

A avaliação nesse grupo é que a cúpula do Congresso tenta administrar a crise sem permitir que o episódio paralise a agenda legislativa.

— No dia seguinte ao vazamento (das mensagens de Vorcaro a políticos), cancelam a sessão da CPI. Acho que é um sinal — afirma o deputado Rogerio Correia (PT-MG), integrante da CPI do INSS.

Um dos trechos também criou incômodo a governistas. Em diálogo com sua então namorada, Vorcaro classificou como “ótimo” o encontro com Lula e ministros no Palácio do Planalto em 2024.

Diante da resistência do presidente do Senado em relação a uma nova investigação, parlamentares passaram a avaliar outras alternativas, que passam pelas CPIs do INSS e do Crime Organizado. É o que defende o senador Izalci Lucas (PL-DF).

— A CPI do INSS vai seguir insistindo nas quebras de sigilo e convocação dos executivos, mas precisamos ver se Vorcaro virá aqui para dizer a verdade. Se fosse delação, iria para a Polícia Federal. Não acho que Davi vai chamar sessão do Congresso para ler a ata da CPI. A única forma são as outras comissões — disse.

A avaliação é compartilhada por parte da oposição, que discute a possibilidade de ampliar o escopo de investigações já em andamento.

— Vorcaro é um gângster. Sujeito perigoso. A CPI do crime organizado pode apurar até que sejam instaladas as demais — afirmou o senador Sergio Moro (União-PR).

Três líderes disseram ao GLOBO que existe a percepção de que os trechos divulgados estariam surgindo de forma seletiva e, até agora, não atingiriam diretamente integrantes do governo. Apesar dessa avaliação, a CPI do INSS recebeu o extrato bancário do filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cujo conteúdo virou público.

As mensagens mostram que há um potencial de desgaste em amplo espectro político. Em um diálogo com o banqueiro, por exemplo, o ex-governador de São Paulo João Doria afirma estar “preocupado” com a situação de Vorcaro e do Banco Master. Doria sugere então que ele “reaja” a “coisas” sobre as quais ouviu e que envolveriam seu nome.

Fator Mendonça

A troca de Toffoli por Mendonça na relatoria do caso no STF também gera apreensão. Integrantes de partidos do Centrão afirmam que, enquanto Toffoli era visto como um ministro com forte trânsito no meio político, sua saída reduziu entre parlamentares a expectativa de que a investigação pudesse ter limites claros em relação à classe.

Com Mendonça na relatoria, a avaliação é que cresce a sensação de imprevisibilidade sobre as apurações, o que tem levado lideranças partidárias a acompanhar o caso com mais cautela. Toffoli é apontado por senadores como um ministro com interlocução mais ampla, incluindo lideranças do Centrão e integrantes da base governista e da oposição.

Mendonça, por sua vez, é descrito como um ministro mais reservado e com circulação mais limitada entre parlamentares.